Vladimir Putin está a “ressuscitar” o frango que alimentou os russos nos últimos dias do comunismo. O plano representa uma protecção contra possíveis sanções dos EUA envolvendo alimentos e um desafio para as duas produtoras ocidentais que fornecem todas as variedades comerciais do país
Depois de enfrentar uma série de contratempos, incluindo um misterioso surto de gripe aviária e o abate forçado de 200 mil aves no ano passado, o novo frango soviético está finalmente pronto para testes de mercado, assegurou Vladimir Fisinin, presidente da União Aviária Russa, uma das promotoras dessa linha própria de animais.
O objectivo é compensar um possível défice gerado por restrições dos EUA às exportações de ovos e pintainhos, que se converteram na principal fonte de proteínas da Rússia. Pelo menos publicamente, os EUA não ameaçaram incluir os alimentos nas sanções que começaram a impor em 2014, mas Fisinin, que nasceu numa quinta colectiva na Sibéria nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, acredita que a Rússia precisa de se preparar para o pior, uma vez que lida com uma Casa Branca cada vez mais imprevisível.
“Quem sabe qual será o tolo que virá a seguir, como este sr. Trump”, disse, em entrevista à agência Bloomberg, em Sergiev Posad, centro monástico do século 14 localizado a 75 quilómetros ao norte de Moscovo.
Fisinin fez parte da equipa de especialistas que ajudou a ciência gastronómica soviética a manter-se ao nível do Ocidente com o desenvolvimento de uma versão maior e mais saborosa do “Gallus gallus domesticus” em 1972, ano em que Leonid Brejnev recebeu Richard Nixon durante oito dias na capital russa. Baptizado em homenagem ao protegido complexo de Sergiev Posad onde foi desenvolvido, o “Smena” (“Mudança”) foi uma dádiva para o Politburo e desencadeou um aumento recorde na produção de carne que se estendeu até 1990.
Porém, quando a União Soviética implodiu, o financiamento desapareceu e entraram em cena frangos ocidentais com genética mais avançada, deixando as aves locais à beira da extinção. Uma série de fusões e aquisições internacionais deixou a “Cobb-Vantress”, uma unidade da “Tyson Foods”, e a “Aviagen”, da alemã “EW Group”, na liderança do sector a partir das respectivas sedes no Arkansas e Alabama, nos EUA.
Mas, para Vladimir Putin, a cedência de tanto poder sobre a carne a tão poucas mãos estrangeiras, é um risco de segurança inaceitável, segundo indicaram dois altos funcionários. E Putin e os seus conselheiros não estão preocupados apenas com o frango. Produtoras russas de carne bovina, carne de porco, batata e até beterraba, principal fonte de açúcar do país, também dependem da matéria prima americana e europeia.
O governo russo já aprovou um programa de substituição para a batata e está a trabalhar noutro para a beterraba. O Kremlin espera assim replicar um “sucesso” em termos de contra-sanções aos produtos agrícolas da UE, que obrigaram as quintas locais a aprender a arte de produzir especialidades estrangeiras, como presunto “prosciutto” e queijo parmesão, apesar dos esforços serem ridicularizados nas redes sociais.
“Há muitos pontos de pressão para qualquer um que queira destruir a nossa economia”, disse Andrei Klepach, economista-chefe do banco estatal de desenvolvimento VEB e ex-chefe do departamento de projecções do Ministério da Economia. “A recuperação do trabalho de reprodução é uma prioridade. Precisamos de uma espécie de comboio blindado num ramal alternativo”.
JTM com agências internacionais



