Pelo menos mais de 1.200 pessoas morreram após o sismo e tsunami que atingiram a ilha indonésia de Celebes, onde prosseguem as operações de busca e a polícia tenta evitar os saques. A dimensão da tragédia foi agravada pelo falhanço dos sistemas de alerta

 

Cerca de mil pessoas participavam num festival cultural numa praia na ilha de Celebes, na Indonésia, quando foram surpreendidas pela chegada de um devastador tsunami sem qualquer tipo de aviso porque os sistemas de alerta não estavam a funcionar.

Os últimos dados oficiais conhecidos até ao fecho desta edição indicam que pelo menos 1.234 pessoas morreram após o terramoto de magnitude 7,5 graus na escala Richter que provocou na sexta-feira uma onda gigante de três metros e deslizamentos de terra ao afectar gravemente a consistência do solo num fenómeno conhecido como liquefacção. No entanto, as autoridades admitem que o balanço da tragédia continuará a subir, porque as equipas de resgate ainda não conseguiram aceder a algumas áreas da ilha e 799 pessoas ficaram gravemente feridas.

De acordo com a agência EFE, os serviços locais de meteorologia, climatologia e geofísica (BMKG) emitiram um alerta de tsunami após o terramoto, ao fim da tarde de sexta-feira, mas retiraram-no 28 minutos depois por não terem dados fiáveis sobre a situação. No entanto, nas redes sociais já começavam a surgir imagens da onda gigante a atingir vários pontos da Celebes. Uma das gravações mostra pessoas a correr desesperadas em Palu, no norte da ilha, tentando encontrar um abrigo para sobreviver.

Após o tsunami que deixou cerca de 280 mil mortos em países banhados pelo Oceano Índico, o Governo indonésio instalou, com verbas cedidas pela comunidade internacional, 22 bóias com sensores de alerta de movimentos sísmicos no litoral. Todavia, o sistema falhou parcialmente em 2020, quando um tsunami deixou 272 mortos na ilha de Mentawai, e voltou a apresentar problemas em 2016 durante um terramoto que atingiu a ilha de Sumatra, embora neste caso o sismo não tenha originado uma onda gigante.

O porta-voz da Agência Nacional de Gestão de Desastres da Indonésia (BNPB), Sutopo Purwo Nugroho, assumiu no domingo, que os sistemas de alerta de tsunamis não estava a funcionar há seis anos devido à falta de recursos para manutenção. “Não há uma bóia operacional desde 2012, e elas são necessárias para os alertas antecipados. O financiamento foi diminuindo a cada ano”, afirmou em conferência de imprensa.

O terramoto de sexta-feira foi provocado por uma ruptura horizontal da crosta terrestre, mas são os movimentos de falhas verticais que costumam gerar grandes tsunamis como o de 2004. “Pensámos que seria difícil ocorrer um tsunami nesse tipo de situação, mas aconteceu”, afirmou o presidente da Associação de Geólogos da Indonésia, Sukmandaru Prihatmoko.

Uma possibilidade ponderada pelos especialistas é a de o terramoto ter provocado um movimento vertical no subsolo marinho. Os moradores das Celebes viram primeiro o tsunami a arrastar os escombros e as edificações, incluindo uma mesquita em Palu, e depois as casas da ilha, como se a terra se tivesse transformado em líquido. Esse fenómeno de liquefacção ocorre quando um forte sismo atinge um solo com grandes bolsas de água, libertando uma grande quantidade de barro que arrasta prédios como se flutuassem numa corrente viscosa.

 

Desespero em Palu

A polícia voltou ontem a ser obrigada a dar tiros de advertência e usar gás lacrimogéneo para dispersar pessoas que saqueavam lojas em Palu, onde os sobreviventes lutam contra a fome e a sede. Os hospitais estão saturados com o elevado número de feridos. Depois de ter inicialmente tolerado as invasões de mercados fechados, visando comida e água, a polícia prendeu 35 pessoas pelo roubo de computadores e dinheiro.

“No primeiro e segundo dias não havia estabelecimentos abertos. As pessoas estavam com fome, algumas realmente necessitadas. Isto não era um problema. Mas depois do segundo dia, os alimentos começaram a chegar, precisando apenas de distribuição. Agora estamos a restabelecer a lei”, disse o vice-comandante da polícia nacional, Ari Dono Sukmanto.

Segundo a agência AFP, o desespero é visível nas ruas de Palu, onde os sobreviventes escalam as montanhas de destroços para procurar objectos. Outros reúnem-se perto dos poucos edifícios com energia eléctrica ou entram em filas para receber água, dinheiro ou combustível, observados por polícias armados.

“O governo, o presidente, todos vieram, mas o que realmente precisamos é de comida e água”, disse um residente de 48 anos.

As equipas de emergência não têm equipamentos suficientes e os trabalhos são dificultados pelas estradas bloqueadas e os danos nas infra-estruturas. Além disso, ontem o país registou mais dois sismos na costa, embora a centenas de quilómetros de Palu.

O exército lidera os trabalhos de resgate, mas após um pedido do Presidente, Joko Widobo, algumas ONG internacionais também enviaram equipas para a região. Pelo menos 26 países e duas organizações internacionais já ofereceram assistência.

A ONU calcula que 191 mil pessoas precisam de ajuda humanitária de emergência, incluindo 46 mil crianças e 14 mil idosos. A catástrofe em Palu, onde moram 350 mil pessoas, também deixou mais de 61 mil desabrigados.

 

Enterros em valas comuns

Os mortos – muitos ainda não registados ou entre os escombros – preocupam as autoridades, uma vez que o clima na Indonésia acelera a decomposição dos corpos, um grave risco sanitário. Para evitar um cenário ainda pior, grupos de voluntários começaram a enterrar as vítimas numa grande vala comum em Poboya, nas colinas que cercam Palu, com capacidade para 1.300 corpos. Ao mesmo tempo, as equipas de resgate lutam contra o tempo para tentar encontrar sobreviventes entre os escombros. Só no hotel de Roa Roa, os socorristas acreditam que entre 50 e 60 pessoas poderão estar presas nos destroços.

 

JTM com agências internacionais