O líder do governo espanhol afastou cenários de “corrupção generalizada” no seu executivo, durante uma sessão no Parlamento após a condenação a 24 anos de prisão de um ex-ministro muito próximo. “Determinados actores políticos e mediáticos estão a tentar misturar as coisas, equipará-las e, assim, confundir as pessoas, criando uma sensação de corrupção generalizada que, já lhes digo, senhoras e senhores deputados, não existe”, afirmou Pedro Sánchez após a condenação de José Luis Ábalos, que foi seu ministro dos Transportes. “Jamais conheci nem teria tolerado qualquer uma dessas práticas”, assegurou o líder socialista, no poder desde 2018, criticando ainda a investigação judicial contra a sua esposa, Begoña Gómez, que foi convocada na quarta-feira para entregar o passaporte. “A investigação contra a minha esposa, assim como contra o meu irmão, foi conduzida contra o parecer do Ministério Público”, frisou, concluindo que as medidas cautelares impostas à esposa, investigada por tráfico de influência, “ultrapassam todos os limites do razoável”. O líder da oposição, Alberto Núñez Feijóo, do Partido Popular, respondeu a Sánchez exigindo a antecipação das eleições, previstas para 2027. “A questão já não é se o senhor reúne confiança suficiente para governar, é evidente que não. A questão é por que temos de continuar a suportar que actue como se ainda a tivesse”, acrescentou. Porém, Sánchez já havia adiantado que não pretende renunciar nem antecipar as eleições. “Para mim, a pergunta não é se devemos continuar. A pergunta é: como não vamos continuar?”, contrapôs, defendendo a sua gestão. A sessão decorreu num momento de fragilidade para Sánchez, que governa em minoria parlamentar e não consegue aprovar o orçamento nem muitas das suas iniciativas. O chefe do executivo não é visado em nenhum processo judicial, mas os problemas ao seu redor agravaram-se esta semana com a condenação de Ábalos, que teve um papel decisivo na ascensão de Sánchez à liderança socialista e depois ao poder, em 2018. Além disso, o seu irmão David acaba de ser julgado por tráfico de influência, um dos crimes que também deixa a esposa a um passo do banco dos réus. Já Santos Cerdán, sucessor de Ábalos como secretário do Partido Socialista, responde a diversos processos por corrupção. A Justiça investiga ainda uma rede clandestina que terá tentado travar acções judiciais contra os socialistas. Por fim, o ex-chefe de governo José Luis Rodríguez Zapatero (2004-2011), amigo e aliado de Sánchez, responde num processo por supostamente influenciar, em troca de dinheiro, o resgate de uma companhia aérea com recursos públicos. Sánchez defendeu a honra do seu irmão, da esposa e de Zapatero, mas distanciou-se dos demais suspeitos, embora dois deles – Cerdán e Ábalos – integrassem o pequeno círculo que planeou a sua ascensão, conhecido como “clã Peugeot”, referência à viagem de carro pelo país que o ajudou a vencer as eleições primárias socialistas em 2017.

 

JTM com agências internacionais