Um russo, um congolês e sete angolanos vão ser julgados por tráfico de pessoas, associação criminosa e outros crimes, por alegadamente tentarem aliciar jovens angolanas para trabalharem na Rússia ao abrigo de um programa de bolsas de estudo. Segundo a acusação do Ministério Público (MP), a que a Lusa teve acesso, entre os arguidos encontra-se uma funcionária pública do Serviço de Migração e Estrangeiros (SME), que iria facilitar a deslocação. O cidadão russo, de 22 anos, técnico de recursos humanos, e o congolês, de 35 anos, portador de passaporte russo e natural de Kinshasa, chegaram a Angola a 17 de Agosto de 2025 a fim de recrutarem mulheres entre os 18 e os 22 anos para trabalharem na Rússia, afirma o MP. Sob o pretexto da existência de 78 bolsas de estudo para mulheres angolanas, ao abrigo do projecto com o Governo de Angola denominado “Alabouga Start”, o congolês contactou os co-arguidos e outras pessoas conhecidas através das redes sociais para recrutarem jovens de baixa condição económica. No dia 18 de Agosto reuniram-se com as candidatas e, no mesmo dia, levaram 20 a um cybercafé para agendar a obtenção do passaporte com um dos co-arguidos, pessoa da confiança da funcionária do SME. As jovens assinaram um recibo em russo, onde subscreveram declarações de compromisso e contraíram um empréstimo com o cidadão russo, que seria deduzido do salário após a assinatura do contrato de trabalho na Rússia. As candidatas eram aliciadas a candidatarem-se à bolsa de estudo depois de lhes serem mostradas, através de um grupo no WhatsApp, fotografias dos locais onde iriam ficar hospedadas, sendo-lhes também dito que seriam remuneradas de acordo com o trabalho. Segundo a acusação, os arguidos estavam a realizar o recrutamento sem qualquer contacto com as instituições angolanas, uma vez que as cartas de apresentação relativas à viagem de trabalho apenas deram entrada nos Ministérios da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social e da Educação em 15 de Agosto, dois dias antes da chegada dos arguidos. Os arguidos transportavam elevadas somas de dinheiro, superiores a cerca de 10 mil euros (mais de 92 mil patacas) no total, parte das quais se destinaria ao pagamento da funcionária do SME. O arguido russo, o congolês e três angolanos incorrem, segundo a acusação, nos crimes de tráfico de pessoas, associação criminosa, corrupção activa de funcionário e retenção de moeda, estando em prisão preventiva, medida justificada pela “especial sensibilidade e gravidade” dos crimes, pela repercussão dos factos, pelo elevado valor da pessoa humana e pela forma organizada como actuavam para transportar pessoas para fins de exploração. Dois angolanos estão de tráfico de pessoas e outros dois, incluindo a funcionária do SME, dos crimes de corrupção passiva de funcionário, tráfico de influência e associação criminosa. Estes ficaram sujeitos a Termo de Identidade e Residência.

 

JTM/Lusa