O ministro dos Negócios Estrangeiros russo disse em Maputo que a Rússia está disponível para ajudar Moçambique a “eliminar” o terrorismo em Cabo Delgado.

“Continuamos a apoiar os esforços do Presidente [moçambicano] Chapo para estabilizar a situação no norte, eliminar a ameaça terrorista e consolidar a verdadeira soberania de Moçambique. Prestamos apoio, nomeadamente através da formação de pessoal e do fornecimento do armamento e do equipamento necessários”, disse Sergei Lavrov aos jornalistas após reunir-se com a ministra das Negócios Estrangeiros e Cooperação de Moçambique.

No encontro com Maria dos Santos Lucas, após reunir-se com o Presidente Daniel Chapo, o governante russo reafirmou a disponibilidade do apoio da Rússia no combate à insurgência que afecta Cabo Delgado, província rica em gás, desde 2017, por parte de elementos associados ao Estado Islâmico e ataques que provocaram mais de 6.600 mortos e 1,1 milhões de deslocados. “Tanto na reunião com o Presidente, há algumas horas, como durante as longas negociações que acabaram de terminar, dedicámos a maior parte da nossa atenção à discussão de formas concretas de reforçar, desenvolver e alargamento da nossa parceria estratégica, assente numa base sólida de solidariedade e ajuda mútua, forjada durante o período da luta contra o colonialismo”, apontou.

De acordo com Lavrov, que visitou nos últimos dias várias capitais africanas, as delegações dos dois governos discutiram “em pormenor as perspectivas de desenvolvimento e modernização” das “relações comerciais, económicas e de investimento”. “Ficou acordado que cada uma das partes elaborará documentos com a sua visão sobre projectos concretos, que serão analisados durante os preparativos para a próxima sessão da Comissão Intergovernamental para a Cooperação Comercial e Económica, a realizar neste Outono”, avançou.

O ministro sublinhou igualmente a importância do apoio à formação de quadros moçambicanos que tem sido prestado pela Rússia, admitindo a disponibilidade para aumentar o número de bolsas e confirmou a presença de Daniel Chapo na terceira cimeira Rússia-África, prevista para 28 e 29 de Outubro, em Moscovo.

“Fizemos uma avaliação da nossa cooperação bilateral em várias áreas que a Rússia nos tem apoiado. Identificámos algumas áreas que nós vamos consolidar quando tivermos a comissão mista, que possivelmente vai ter lugar em Setembro”, avançou a chefe da diplomacia moçambicana, no final do encontro.

O objectivo, disse Maria Santos Lucas, é “consolidar” o apoio russo a áreas económicas prioritárias para Moçambique. “A Rússia está disponível para trabalhar connosco nessas áreas. Estamos a falar da área de energia, a área da agricultura, a área de digitalização, que eles são muito bons nisso na inovação, transporte e logística, recursos minerais e energia. E também o apoio na luta contra o terrorismo”, concluiu.

 

Lavrov diz que Ocidente é hipócrita

Lavrov acusou, por outro lado, o Ocidente de agir de “forma hipócrita” ao apelar à solução negociada do conflito na Ucrânia, mas “sabotando” essa pretensão. “Não vamos continuar a acreditar no Ocidente quando este afirma que pretende soluções negociadas. Essa reserva de boa vontade e esperança esgotou-se definitivamente”, disse aos jornalistas.

No encontro com Maria Santos Lucas, o governante russo disse ter apresentado a “análise da situação actual em torno da Ucrânia, incluindo as acções do Ocidente”. O Ocidente, “fingindo estar disposto a negociar, passou agora – tal como foi anunciado pelos europeus – a apresentar ultimatos abertos à Federação Russa”, disse.

“O Ocidente continua, de forma hipócrita, a apelar a uma solução negociada. Foram alcançados acordos negociados, sob a garantia do Ocidente, em 2014, em 2015 e em 2019. Em todos estes casos, as garantias do Ocidente foram destruídas pelo próprio Ocidente. Acabaram por se revelar falsas. E, da mesma forma, em 2022 já havia sido alcançado um acordo entre a Rússia e a Ucrânia, que foi sabotado pelo mesmo Ocidente, de forma aberta e pública”, insistiu Lavrov, garantindo que a Rússia, tal como avançado pelo Presidente Vladimir Putin pretende “alcançar os objectivos que foram definidos em Junho de 2024” para a Ucrânia.

“Reiterámos o nosso agradecimento aos nossos amigos moçambicanos pela sua compreensão das causas profundas do conflito, pela sua posição ponderada – diria mesmo fundamentada e responsável – que assumem sobre estas questões na Organização das Nações Unidas, não apoiando o desígnio do Ocidente de ‘ucranizar’ praticamente toda a agenda da Organização Mundial”, disse ainda.

Já a ministra moçambicana defendeu que Moçambique e África são “a favor do diálogo” e “de uma solução negociada e pacífica” para o conflito.

“Também falámos da situação no Golfo [Pérsico, Irão]. E nós partilhamos o impacto que está tendo aqui em Moçambique, que muitos dos nossos produtos, como produtos de combustíveis e outros, subiram quase acima de 40%, impactando na vida dos moçambicanos”, lamentou a ministra.

Na resposta, o ministro Lavrov defendeu que o conflito “só pode ser resolvido” através “de um acordo que reflicta os interesses de todas as partes”. “Não apenas do Irão, dos seus vizinhos, dos EUA, mas de todos os países que, de uma forma ou de outra, sofrem com o impacto negativo na economia mundial na situação actual”, concluiu.

 

JTM com Lusa