JOÃO CARREIRA*

O professor universitário e líder da comunidade de Monte Café, em São Tomé e Príncipe, recua aos tempos de escravidão para lembrar o que se dizia sobre as roças: “um inferno onde se entra e não se sai”.

Filipe Samba, docente de Bio-Ética, nascido e a residir em Monte Café, (na foto) não resiste a citar os antepassados, como que espreitando alguma garantia de futuro e de reparação: “a ferida da dor não se cura, o sofrimento não se cura com palavras, mas com acções concretas”.

A cultura esclavagista, pela mão de portugueses, que construiu a memória e o património arquitectónico ligado a seis roças (quatro em São Tomé e duas no Príncipe) alimentou negócios de café e de cacau e tradições de angolanos e moçambicanos, entre outros africanos, arrastados para São Tomé e Príncipe, com os cabo-verdianos a chegarem já numa condição de contratados, explica Samba.

Desde domingo e até 29 de Julho reúne-se na Coreia do Sul o Comité do Património Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Em Busan decidir-se-á se as roças são-tomenses são inscritas na lista de Património Mundial da UNESCO. E São Tomé e Príncipe concorre na categoria Sítios Culturais, com “As roças de São Tomé e Príncipe: Sistema colonial agrícola e migração forçada”.

“Para nós é importante esta inscrição com o património da UNESCO porque isso vem reforçar a nossa dedicação, o nosso empenho para a preservação deste memorial histórico. E assim já ficamos nós a acreditar que as gerações futuras poderão ter a perspectiva de rever essa história”, começa por argumentar, em declarações à Lusa, o líder da comunidade de Monte Café.

“Vai criar mais emprego, vai mobilizar, vai haver mais sinergias no âmbito da empregabilidade para a nossa população. Nós estamos quase meio abandonados, mas essa infra-estrutura é que fala por nós, essa infra-estrutura (…) dignifica a nossa imagem e a nossa identidade”, sublinha.

Depois de passagens pela então União Soviética, onde se formou, o regresso a Monte Café, onde cerca de cinco mil pessoas residem, tem sido marcado pelo trabalho comunitário, agora com um horizonte de esperança que vai até ao final deste mês: “É um momento de grande relevância para a nossa comunidade, porque, com esse estímulo, a UNESCO reconhece esta memória, não só do ponto de vista memorial, também do ponto de vista económico”.

Até à data, o Comité do Património Mundial inscreveu 1.248 sítios em 170 países na lista do Património Mundial.

Segundo a UNESCO, a classificação como Património Mundial permite reconhecer e proteger sítios de valor universal excepcional, sejam eles naturais, culturais ou mistos, e “compromete os Estados membros a preservar estes locais emblemáticos”.

 

Carlos Vila Nova reeleito Presidente com 55,94% dos votos

Carlos Vila Nova foi ontem reeleito Presidente de São Tomé e Príncipe, à primeira volta, com 55,94% dos votos, segundo os resultados preliminares divulgados pela Comissão Eleitoral Nacional (CEN). O principal adversário, Nito d’Abreu, arrecadou 41,42% do voto popular. Mais de 142 mil eleitores foram chamados a escolher o Presidente, numas eleições marcadas pela crispação política, mas sem registo de incidentes de maior. Eugénio Tiny e Miques João foram os outros dois candidatos, contabilizando, respectivamente, 1,97% e 1,58%. Voltaram a não contar com qualquer apoio partidário e a sua campanha eleitoral foi praticamente inexistente. O último dia das eleições ficou marcado pelo ‘sequestro’ da página na rede social Facebook do actual Presidente, na qual se registaram publicações não autorizadas, o que voltou a acontecer no sábado, dia de reflexão. No mesmo dia foi possível surpreender, ‘online’, mensagens e publicações de apelo ao voto, bem como na publicação de sondagens falsas. Perante estas situações, a CEN admitiu ter uma estrutura de apenas nove elementos para responder à necessária fiscalização eleitoral. Para a observação das eleições presidenciais em São Tomé e Príncipe encontram-se no terreno várias missões internacionais.

 

*Jornalistas da agência Lusa