Analistas políticos cabo-verdianos ouvidos pela Lusa consideram que a alternância política ditada pelas eleições legislativas de domingo reflecte o desgaste do partido no poder e a percepção negativa da sua actuação.
“Eu já tinha feito essa previsão ao longo dos últimos dois anos, em artigos que escrevi, de que o MpD [Movimento para a Democracia], seguindo o caminho que seguia, ia perder eleições”, afirmou João Alvarenga, apontando a avaliação negativa do desempenho governativo como factor central.
O analista referiu que essa percepção foi-se agravando ao longo da legislatura, com impacto já visível nas eleições autárquicas de 2024, em que o partido no poder ficou reduzido a uma minoria de municípios. Alvarenga destacou ainda que a mudança no poder local, com o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) a tornar-se dominante, teve impacto na dinâmica eleitoral nacional.
“O eleitor fazia uma avaliação negativa do Governo e isso traduziu-se depois no comportamento eleitoral”, referiu.
Apontou também que problemas estruturais como o desemprego, a segurança, a saúde, a pobreza, a dívida pública e a desigualdade contribuíram para o desfecho. Considerou ainda que a elevada abstenção, superior a 50%, reflecte tanto a emigração de milhares de cabo-verdianos, nos últimos anos, como a desmotivação do eleitorado, referindo que muitos cidadãos não vêem resposta dos governos às suas expectativas e problemas.
Alvarenga disse que o próximo Governo liderado pelo PAICV enfrentará desafios estruturais exigentes, nomeadamente nas áreas do emprego, segurança, saúde, pobreza, transportes e habitação.
Por sua vez, o analista político António Ludgero Correia considerou que o resultado traduz um “desgaste evidente” do Executivo e uma mensagem clara do eleitorado. “O eleitorado acabou por pagar a factura do desgaste do Governo”, afirmou, sublinhando que o MpD não conseguiu inverter a percepção negativa junto dos eleitores, na fase final da campanha.
O analista recordou o percurso eleitoral do MpD, referindo que o partido venceu de forma expressiva em 2016, perdeu força em 2021 e sofreu novo recuo nas autárquicas de 2024, considerando esse percurso sinal de afastamento progressivo do eleitorado. António Ludgero Correia alertou que o resultado não representa uma “carta branca” ao PAICV e referiu que a abstenção reflecte desilusão com o sistema político e com a capacidade de resposta dos governos aos problemas da população.
Entre os principais desafios estruturais do país, destacou o desemprego, a criminalidade, a saúde, a pobreza, os transportes e a habitação, que deverão marcar a acção do próximo executivo, considerando que o partido vencedor terá de demonstrar capacidade de governação e reforçar o seu sentido de Estado, nomeadamente na relação com as instituições.
Ludgero Correia sublinhou ainda que o partido criou expectativas elevadas junto do eleitorado, deixando em aberto a sua capacidade de execução. “Prometeu muito e diz que tem condições para cumprir. Agora será preciso ver se há condições para implementar essas medidas. Se houver, ficará demonstrado que era possível fazer diferente, se não, terá dificuldade em afastar críticas de populismo”, concluiu.
O PAICV anunciou ter vencido as eleições com maioria absoluta, elegendo 37 dos 72 deputados, enquanto o MpD assumiu ter passado a principal força da oposição.
UCID e outros partidos culpam bipolarização
A União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID), terceira força política, e dois partidos sem representação parlamentar assumiram as derrotas, atribuindo o resultado à bipolarização do sistema político e à elevada abstenção.
“Essas eleições não correram bem ao partido”, afirmou o presidente da UCID, João Santos Luís, na ilha de São Vicente, ao reagir aos resultados que lhe tiraram metade dos deputados (de quatro para dois).
“A democracia cabo-verdiana ainda é muito incipiente e as principais forças têm manipulado toda a população”, referiu. “Podemos considerar que, mais uma vez, é a abstenção quem vence estas eleições legislativas”, disse.
Além disso, mostrou-se particularmente desiludido com os resultados em São Vicente, ilha bastião do partido, onde a UCID sempre elegeu a sua representação parlamentar, reduzida agora a dois deputados. “A luta continua. Perdemos uma batalha, mas não a guerra”, declarou.
O partido Pessoas, Trabalho e Solidariedade (PTS), liderado por Jónica Brito, continua sem eleger deputados e felicitou o vencedor das eleições. A dirigente referiu que o partido “segue de cabeça erguida”, por ter cumprido a sua missão, manifestando disponibilidade para continuar a sua acção política em defesa de um país “mais próspero, mais justo” e com mais oportunidades de emprego.
O Partido Popular (PP), liderado por Amândio Vicente, classificou o resultado como “negativo”, admitindo que esperava eleger pelo menos um deputado. O dirigente apontou a elevada abstenção como factor determinante, “que acabou por vencer estas eleições”, e criticou a manutenção do bipartidarismo.
JTM com Lusa



