PRETILÉRIO MATSINHE e JOSÉ JECO*

Sete anos depois do Idai, Finissa Greses ainda tenta reconstruir o que perdeu num dos mais violentos ciclones a atingir Moçambique, nomeadamente a casa, que ficou então “sem tecto, sem paredes, sem nada” na Beira, centro do país.

“Não foi fácil e hoje tentamos criar paredes, criar tectos, criar, sei lá, muitas coisas que tivemos que perder, não está sendo fácil, principalmente para uma pessoa desempregada como eu, doméstica, que não depende de nada. Eu estava na minha casa, mas hoje estou sem nada. Não tenho meios nem fonte de como ultrapassar essa situação”, disse Finissa Greses.

O ciclone Idai atingiu Moçambique pelo centro do país, nomeadamente a Beira, província de Sofala, em 14 de Março de 2019, deixando um rasto de morte e destruição ainda por recuperar totalmente, apesar dos investimentos do Estado, apoio internacional e organizações não-governamentais.

Residente no bairro de Macute, cidade da Beira, Finissa ainda lembra com tristeza aquela fatídica noite quando o ciclone começou, tentando agora se reerguer face às destruições que continuam patentes: “Para mim, Idai foi uma coisa de terror, e as marcas do ciclone Idai, depois de sete anos, ainda estão patentes, e jamais desaparecerão”.

A cidade da Beira foi uma das que mais sofreu com os efeitos do ciclone Idai, um fenómeno que provou a morte de mais de 600 pessoas e afectou mais de 1,5 milhões.

Tal como milhares de outros, Finissa tenta hoje seguir com a vida e voltar a construir o que já tinha, mas que se perdeu com a força do ciclone.

“O impacto do Idai, sinceramente, foi algo inesquecível. Acho que ninguém vai poder esquecer, até crianças. Então, não foi fácil viver daquela maneira naquele momento e dormirmos numa casa e no dia seguinte ficarmos sem tectos, sem paredes, sem nada”, conta Finissa Greses.

Dionísio dos Santos, 57 anos, chefe do quarteirão nº 9, em Macuti, foi outra vítima do ciclone, e fala de “traumas” que persistem na Beira. “As marcas do ciclone Idai continuam patentes porque são essas com as quais nós conseguimos viver a cada dia que nos passa. As nossas casas nós ainda não conseguimos reconstruir na totalidade”, disse.

“Temos várias marcas, essas que não vão desaparecer, porque, lembram-nos que vimos pessoas a morrer, vimos pessoas a sofrerem situações de ter que serem abrigadas em centros de refúgio”, disse à Lusa, frisando que a solução é tentar se erguer e continuar a viver, porque este é o único jeito de seguir com a vida.

Para o delegado do Instituto Nacional de Gestão e Risco de Desastre na Beira, Aristides Armando, o Idai ensinou a aprender a ser mais resiliente aos desastres naturais. “De facto, temos em mente o que o Idai fez, o que o Idai nos ensinou. Nós, como beirenses, queremos cada dia tornar-nos mais resilientes, mais conscientes quanto a fazer face às mudanças climáticas que cada dia nos desafia”, disse o responsável.

Aristides Armando falava na cerimónia dos sete anos da passagem do ciclone Idai, prometendo agora uma cidade mais resiliente face aos eventos climáticos para propiciar um lugar saudável para viver aos munícipes.

Já o município da Beira adiantou que, após sete anos da passagem do ciclone, a cidade da Beira ainda continua a lutar contra as marcas do Idai, estando a focar-se na resiliência.

“Dizer aos munícipes desta cidade que a resiliência é a única saída que nós temos para podermos conviver nesse espaço geográfico. Temos de saber conviver com o planeta”, disse Manuel Joaquim, vereador para a área do saneamento no Município da Beira.

Manuel Joaquim disse que a cidade da Beira tem características diferentes e, por isso, após ser fustigada pelo ciclone, quer o novo munícipe a saber conviver com os eventos naturais, alertando que vai continuar a chover em consequência das mudanças climáticas.

“O que pedimos aos munícipes é que sejam resilientes, construir casas no lugar indicado pelas autoridades municipais, construir casas com indicação técnica que dá a resiliência para que quando o vento chegar não sermos vítimas mais uma vez. Quando a chuva cair não seremos vítimas das inundações”, concluiu o responsável da autarquia.

 

*Da agência Lusa