A ala pró-democrata obteve um resultado esmagador face ao campo pró-Pequim nas eleições de domingo em Hong Kong, passando a controlar 17 dos 18 conselhos distritais. A Chefe do Executivo prometeu “ouvir humildemente” os eleitores
Os candidatos pró-democratas asseguraram 347 assentos dos 452 em jogo, enquanto os independentes – muitos deles também ligados ao movimento pró-democracia – obtiveram 45, cabendo os restantes 60 ao campo pró-Pequim, segundo os resultados finais das eleições distritais em Hong Kong. Na prática, a ala pró-democracia vai controlar 17 dos 18 conselhos distritais, que até este domingo eram todos dominados pelas forças pró-governamentais. Nas últimas eleições, em 2015, o campo pró-Pequim garantiu quase dois terços dos assentos nos conselhos distritais.
As eleições distritais tiveram uma participação recorde, vista como uma demonstração de forte apoio às organizações que mobilizaram os protestos que levaram à rua milhões de pessoas em Hong Kong desde Junho.
O coordenador da Frente Cívica de Direitos Humanos (FCDH), Jimmy Sham, que tem liderado o movimento pró-democracia em Hong Kong responsável pelas maiores manifestações, venceu o distrito de Lek Yuen, em Sha Tin. Após a vitória, Sham afirmou aos jornalistas que as eleições locais foram um referendo que reflectiu a vontade da opinião pública de que sejam realizadas reformas democráticas no território.
Em Agosto passado, dois homens com o rosto coberto atacaram Sham com um taco de beisebol e uma faca. Em Outubro, foi brutalmente espancado por quatro pessoas que utilizaram martelos, tendo sido hospitalizado com ferimentos na cabeça e no braço.
Pelo menos nove candidatos pró-democratas que foram vítimas de agressões durante os quase seis meses de protestos ganharam as eleições.
No bloco pró-Pequim, o candidato mais visado pelos manifestantes, Junius Ho, não conseguiu a reeleição. Segundo o campo pró-democracia, Junius Ho, um advogado alinhado com Pequim, tem vínculos com máfias locais que atacaram indiscriminadamente pessoas nas estações de metro para semear o caos durante protestos. Junius Ho acabou por ser esfaqueado durante uma acção de campanha para as eleições locais.
No lado pró-democrático, outra vitória simbólica foi a de Kelvin Lam, que substituiu Joshua Wong, figura proeminente do movimento pró-democracia em Hong Kong e que foi impedido de concorrer. O activista foi, de resto, o único candidato excluído das eleições para o conselho distrital.
“O facto de eu ser o único candidato desqualificado por Pequim prova que as eleições de Hong Kong são manipuladas pelo Partido Comunista Chinês. Mas mesmo que eles me censurem nas urnas ou me prendam, isso incentiva-me a continuar a lutar com mais determinação”, disse Wong no domingo, antes da votação.
Foi a primeira vez que todos os assentos nas eleições do conselho distrital tiveram candidatos de pelo menos dois partidos opostos. Durante o último ciclo eleitoral, em 2015, 68 candidatos concorreram sem oposição.
A Comissão dos Assuntos Eleitorais informou que votaram 71,2% dos 4,1 milhões de eleitores recenseados em Hong Kong, superando em muito a participação de 47% verificada nas mesmas eleições há quatro anos. A participação normalmente baixa nas eleições para os conselhos distritais ganhou uma nova importância no contexto dos protestos. Mesmo antes do escrutínio, vários analistas defendiam que um resultado forte da oposição seria lido como um apoio público aos manifestantes, ainda que o recurso à violência tivesse aumentado.
Estas eleições são as únicas totalmente democráticas em Hong Kong. Os membros do Conselho Legislativo são escolhidos em parte pelo voto popular e em parte por grupos de interesses que representam diferentes sectores da sociedade, e o Chefe do Executivo é escolhido por um colégio eleitoral de 1.200 membros, dominado por Pequim.
Carrie Lam promete “humildade”
A líder de Hong Kong disse ontem que vai ouvir com “humildade e seriedade” a sociedade depois da esmagadora vitória dos candidatos pró-democracia nas eleições de domingo.
“O Governo de Hong Kong vai ouvir as opiniões dos membros do público com humildade e seriedade”, apontou Carrie Lam em comunicado divulgado no “site” do Governo, acrescentando que “respeita os resultados das eleições”.
A líder de Hong Kong afirmou que podem existir “várias análises e interpretações na comunidade em relação aos resultados” e que muitas delas são da opinião que “os resultados reflectem a insatisfação das pessoas com a situação actual e com os problemas profundos da sociedade”.
Na mesma nota, Carrie Lam enfatizou ainda o facto de a eleição ter sido realizada de “maneira pacífica segura e ordenada”. “Após a agitação social nos últimos cinco meses, acredito firmemente que a grande maioria do público compartilharia o meu desejo de que a situação pacífica, segura e ordenada continue”, frisou.
A massiva deslocação às urnas, “um total de cerca de 2,94 milhões de eleitores registados (…) mostra que os eleitores esperavam expressar os seus pontos de vista através desta eleição”, destacou.
O índice de referência da Bolsa de Valores de Hong Kong, o Hang Seng, reagiu de forma optimista aos resultados das eleições, registando uma subida de 1,5%. Segundo analistas citados pela imprensa local, o resultado eleitoral e a paz vivida neste final de semana são os principais factores que impulsionaram a subida da Bolsa, onde os investidores esperam que a tensão seja reduzida na cidade, pelo menos a curto prazo.
“Aconteça o que acontecer, Hong Kong faz parte da China”
O Ministro chinês dos Negócios Estrangeiros (MNE) sublinhou ontem o resultado das eleições de domingo não altera o estatuto de Hong Kong. “Aconteça o que acontecer, Hong Kong faz parte da China, que é uma região administrativa especial”, sublinhou Wang Yi. “Qualquer tentativa de semear o caos em Hong Kong ou minar a sua prosperidade e estabilidade está fadada ao fracasso”, disse aos jornalistas, em Tóquio, depois de ter sido recebido pelo Primeiro-Ministro japonês, Shinzo Abe. As autoridades chinesas reiteraram, aliás, o seu apoio à Chefe do Executivo de Hong Kong. “A nossa posição é inequívoca: o Governo Central apoia firmemente a Chefe do Executivo, Carrie Lam, para liderar o governo e governar de acordo com a lei, acabar com a violência e restaurar a ordem”, apontou Geng Shuang, porta-voz do MNE, em conferência de imprensa, evitando porém avaliar directamente os resultados das eleições. “Acabar com a violência e restaurar a ordem são as principais tarefas de Hong Kong neste momento”, insistiu o porta-voz chinês, enfatizando que “os assuntos de Hong Kong são puramente assuntos internos da China”. “O Governo chinês está determinado a proteger a nossa soberania e interesses de desenvolvimento nacional e defender os princípios da fórmula ‘um país, dois sistemas’. Da mesma forma, estamos determinados a opor-nos à interferência estrangeira nestes assuntos”, avisou. Geng também reafirmou o apoio do regime à justiça de Hong Kong para que “castigue radicais e criminosos violentos”.
JTM com Lusa e agências internacionais



