O Governo chinês enfrentou fortes críticas na ONU, devido ao seu programa de internamento de muçulmanos em Xinjiang e pelo tratamento discriminatório de minorias étnicas

 

Liderada pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Le Yucheng, uma delegação de alto nível do Governo chinês foi muito pressionada para dar explicações sobre o programa dos “campos de reeducação” na região de Xinjiang (noroeste do país), durante o chamado Exame Periódico Universal (EPU), ao qual são submetidos os 193 membros da Organização das Nações Unidas (ONU) a cada quatro anos. Segundo estimativas citadas em Agosto por um grupo de especialistas da ONU, cerca de um milhão de uigures e membros de outras etnias chinesas de língua turca estão ou estiveram detidos em campos em Xinjiang.

Perante o Palácio das Nações de Genebra, sede da ONU, cerca de 500 manifestantes protestavam com cartazes nos quais se podia “Parem o genocídio dos uigures” e “O Tibete morre, a China mente”.

“Estamos alarmados com a crescente repressão das autoridades chinesas contra os uigures, os cazaques e outros muçulmanos em Xinjiang”, declarou o representante americano, na sala do Conselho de Direitos Humanos. Mark Cassayre declarou que Washington exige a Pequim que declare a abolição de “qualquer forma de detenção arbitrária, incluindo os campos de internação em Xinjiang e liberte imediatamente os milhares, ou até milhões, de indivíduos detidos nesses campos”.

Já a França pediu à alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, que se desloque à China para observar “in loco” o programa.

Contudo, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Le Yucheng, rejeitou abertamente aquilo que classificou como “acusações políticas vindas de alguns países cheios de preconceitos”.

Num primeiro momento, a China negou a existência desses centros em Xinjiang, porém, após a publicação de imagens de satélite e da divulgação de documentos oficiais de autoridades locais na Internet que mencionavam a sua existência, as autoridades indicaram que se trata de centros educacionais nos quais se ensina chinês, desporto e música folclórica para combater o extremismo religioso. Na terça-feira, o vice-ministro chinês insistiu que os reiterados ataques islamitas em Xinjiang obrigam à imposição dessas medidas.

 

“Geridos como o Exército e seguros como prisões”

Em Outubro, uma investigação da agência AFP, envolvendo a consulta de mais de 1.500 documentos públicos acessíveis na Internet, revelou que esses centros, 184 dos quais estabelecidos em Xinjiang desde 2014, adquiriram principalmente cassetetes, algemas e sprays de gás lacrimogéneo. Segundo um dos documentos, que citava o chefe do Partido Comunista Chinês (PCC) em Xinjiang, Chen Quanguo, os centros devem “ensinar como escolas, ser geridos como o Exército e ser seguros como prisões”.

Nos últimos anos, vários atentados, cuja responsabilidade Pequim imputou a separatistas ou extremistas uigures, causaram centenas de mortos. As autoridades asseguram estar preocupadas com o aumento do islamismo radical na região, onde a religião muçulmana é abraçada por metade dos quase 24 milhões de habitantes.

Contrariando a versão chinesa, activistas no exílio asseguram que são campos fechados para reeducação política. Alguns ex-prisioneiros asseveraram ter sido detidos por usar longas barbas, véu ou por simplesmente assinalarem via Internet as celebrações muçulmanas.

John Fisher, director da organização não-governamental “Human Rights Watch” (HRW) em Genebra, acredita que o exame da China “demonstrou o fosso que separa o ponto de vista de Pequim sobre o seu balanço em matéria de direitos humanos e a triste realidade vivida pelos defensores dos direitos humanos, tibetanos e uigures detidos arbitrariamente”.

Negando qualquer forma de violação dos direitos humanos, a delegação chinesa optou por destacar o progresso alcançado no seu desenvolvimento económico, com ênfase no combate à pobreza.

“O que a China fez demonstra que não há uma via única para a modernização e que cada país pode escolher o seu caminho de desenvolvimento e o seu modelo de protecção dos direitos humanos”, sustentou Le Yucheng.

 

JTM com agências internacionais