Depois de ter passado oito anos em prisão domiciliária, a poetisa Liu Xia, viúva do Prémio Nobel da Paz Liu Xiaobo, deixou ontem a China com destino à Alemanha

 

O Governo chinês confirmou ontem que Liu Xia, viúva do Nobel da Paz e activista chinês Liu Xiaobo, abandonou o país com destino à Alemanha, para receber “tratamento médico”, após oito anos em prisão domiciliária. “Ela viajou para a Alemanha por vontade própria para receber tratamento médico”, informou em conferência de imprensa Hua Chunying, porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros.

Hua negou que a decisão de Pequim, em permitir a saída de Liu Xia, esteja relacionada com a visita oficial a Berlim do Primeiro-Ministro, Li Keqiang, esta semana.

“É realmente maravilhoso que Liu Xia tenha sido finalmente autorizada a abandonar a China depois de tudo que sofreu nos últimos anos”, afirmou à agência AFP Patrick Poon, da Amnistia Internacional. “Ela sofre de depressão e é bom que possa receber tratamento no exterior”, acrescentou.

No entanto, Poon expressou preocupação com o destino do irmão de Liu Xia, Liu Hui, que permanece na China.

Liu Xia, de 57 anos, encontrava-se em prisão domiciliária desde que o marido ganhou o Nobel da Paz, em 2010, apesar de não existir qualquer acusação judicial formal contra ela.

Liu Xiaobo morreu em Julho do ano passado, aos 61 anos, com cancro do fígado, e sob custódia da polícia. O dissidente chinês esteve detido mais de oito anos, acusado de “subversão” por ter assinado um pedido de eleições livres na China. Foi o primeiro Prémio Nobel a morrer privado de liberdade desde o pacifista alemão Carl von Ossietzky, que faleceu em 1938 num hospital quando estava detido pelo regime nazi.

A víuva de Liu Xiaobo era vigiada pela polícia política da China apesar de não ter sido condenada e das autoridades garantirem que ela estava em liberdade. Em Maio, cinco diplomatas ocidentais tentaram visitá-la mas foram impedidos pela polícia sem qualquer explicação.

Segundo a agência AFP, numa recente ligação telefónica a um amigo, o escritor chinês Liao Yiwu, Liu disse: “Terão de acrescentar uma frase na Constituição que diga, ‘Amar Liu Xiaobo é um crime grave, é uma sentença para a vida’”.

A saída de Liu Xia aconteceu após a visita da Chanceler alemã Angela Merkel a Pequim no final de Maio. No mesmo mês, vários escritores e artistas reconhecidos, entre eles Michael Chabon, Paul Auster e Khaled Hosseini, apelaram para que fosse autorizada a receber tratamento médico no exterior.

No mês passado, organizações não-governamentais apelaram aos líderes da União Europeia (UE) para que, durante a cimeira UE-China, agendada para 16 e 17 de Julho, exijam a Pequim a libertação de activistas pelos direitos humanos. À data, apelaram para a libertação de Liu Xia.

 

JTM com Lusa e agências internacionais