O Governo chinês não vê razões para “terceiras partes” se oporem à OPA da China Three Gorges à EDP, numa altura de crescente escrutínio sobre o investimento chinês no Ocidente. Por sua vez, a EDP considera que o preço oferecido é “baixo”

 

Quando a cooperação “é baseada no respeito mútuo, com benefícios e ganhos para ambos (…) não vejo razões para outras partes contestarem”, afirmou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Lu Kang, quando questionado pela Lusa sobre uma possível resistência dos reguladores ao negócio. “O Governo chinês apoia e encoraja as empresas chinesas a encetarem uma cooperação mutuamente benéfica com empresas portuguesas”, acrescentou, em conferência de imprensa.

Lu Kang frisou ainda os “laços amigáveis” entre Portugal e China, argumentando que os dois países “alcançaram resultados bastante positivos” na sua cooperação.

A China tornou-se, nos últimos anos, um dos principais investidores em Portugal, comprando participações importantes nas áreas da energia, dos seguros, da saúde e da banca. No entanto, a Oferta Pública de Aquisição (OPA) da EDP por parte da China Three Gorges (CTG) surge numa altura de crescente escrutínio na Europa e EUA sobre o investimento chinês, com vários negócios a serem bloqueados por motivos de segurança nacional.

Em Portugal, o Primeiro-Ministro, António Costa, afirmou já que não se opõe ao negócio, mas a operação terá também de ser aprovada por outros países onde a EDP detém activos, nomeadamente EUA, Brasil ou Espanha, ou pela Comissão Europeia. Nos EUA, o negócio dependerá da aprovação da Comissão para o Investimento Externo, organismo do Governo norte-americano responsável por rever aquisições por entidades estrangeiras susceptíveis de ameaçar a segurança nacional, numa altura de renovada tensão entre Washington e Pequim em torno do comércio e investimento.

Também na Europa, os avanços estratégicos chineses estão a suscitar maior escrutínio. Em Setembro passado, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, anunciou planos para criar um mecanismo que avalia os investimentos estrangeiros, uma medida vista como sendo destinada à China.

 

EDP diz que a oferta é curta

Na sexta-feira, a CTG, que é detida na totalidade pelo Estado chinês e directamente tutelada pelo governo central, lançou uma OPA voluntária sobre o capital da EDP, oferecendo uma contrapartida de 3,26 euros por cada acção, o que representa um prémio de 4,82% face ao valor de mercado. No entanto, numa nota enviada à Comissão do Mercado do Valores Mobiliários, o Conselho de Administração Executivo da eléctrica já considerou que “o preço oferecido não reflecte adequadamente o valor da EDP e que o prémio implícito na oferta é baixo considerando a prática seguida no mercado Europeu das ‘utilities’ nas situações onde existiu aquisição de controlo pelo oferente”.

Na mesma nota, a empresa adianta ter dado início aos procedimentos internos e irá pronunciar-se em “devido tempo sobre os demais termos da oferta” que serão dados a conhecer ao Conselho de Administração Executivo da EDP através do envio pela China Three Gorges (Europe) “do projecto de prospecto que incluirá o detalhe relevante do Projeto Industrial”.

A CTG, que já detém 23,27% do capital social da EDP, pretende manter a empresa com sede em Portugal e oferece uma contrapartida de 3,26 euros por cada acção, o que representa um prémio de 4,82% face ao valor de mercado e avalia a empresa em cerca de 11,9 mil milhões de euros.

 

Rejeitada entrada chinesa no Montepio Seguros

A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões de Portugal (ASF) rejeitou a entrada da CEFC China Energy e do Shanghai Huaxin Group no capital do Montepio Seguros. O Conselho de Administração da ASF deliberou “considerar não instruída a comunicação prévia, da CEFC China Energy Company Limited, e do Shanghai Huaxin Group (Hong Kong) Limited, para aquisição de participação qualificada na Montepio Seguros, SGPS, S.A., ficando prejudicada a sua análise”, indica o regulador na sua página na internet. No final do ano passado, o grupo chinês CEFC anunciou que iria comprar os seguros do Montepio, indicando ainda que iria passar a sede dos seus negócios financeiros para Portugal.

 

JTM com Lusa