Os partidos britânicos trocaram acusações sobre o Brexit, reflectindo as divisões e a fragmentação política provocadas pelo referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), cujo 10º aniversário foi assinalado na terça-feira. O ministro das Relações com a UE do governo trabalhista, Nick Thomas-Symonds, acusou o líder do partido populista de direita “Reform UK”, Nigel Farage, de dar prioridade à sua hostilidade em relação à UE em detrimento da segurança do continente. Num artigo publicado no “Telegraph”, criticou ainda Farage por ter sugerido, no passado, que a expansão da NATO e da UE para leste dava a Vladimir Putin um pretexto para invadir a Ucrânia. O ministro argumentou que Londres e Bruxelas devem agir “ombro a ombro” contra a Rússia e alertou que permitir a chegada ao poder de um eurocéptico como Farage, que lidera as sondagens e foi uma figura-chave na campanha do Brexit, representaria “uma ameaça sem precedentes à segurança nacional”. Farage, por sua vez, defendeu noutro artigo que a raiva e a desconfiança do povo britânico em relação à classe política resultam do facto de esta “não ter ouvido” aqueles que votaram pela saída da UE. O antigo eurodeputado afirmou que os britânicos votaram em 2016 para “retomar o controlo” das fronteiras e alcançar um maior crescimento económico, objectivos que, na sua opinião, foram ignorados pelo ‘establishment’. Por sua vez, o líder do Partido Liberal Democrata, Ed Davey, instou Andy Burnham, principal candidato à sucessão de Keir Starmer como Primeiro-Ministro, a apoiar o regresso ao mercado único europeu, considerando ser a medida “mais eficaz” para impulsionar a economia e reparar as relações com Bruxelas. O Partido Nacional Escocês afirmou, por seu turno, que o Brexit tornou o Reino Unido “ingovernável” e declarou que a demissão de Starmer – sexto Primeiro-ministro a deixar o cargo desde o referendo – demonstra o “dano económico e político” causado pela saída da UE. Já Burnham, ex-presidente da Câmara de Manchester, enfrenta pressões para definir a sua posição sobre a UE caso forme governo. Em Setembro de 2025, manifestou o desejo de que o Reino Unido voltasse a integrar o bloco “durante a sua vida” e defendeu que a participação em várias uniões políticas e económicas, incluindo a europeia, “promove o crescimento e a prosperidade”. No entanto, num discurso proferido em Maio último, durante a campanha que o reconduziu no Parlamento, suavizou essa posição, afirmando que, embora acredite que o Brexit tinha sido “prejudicial”, não propunha “reabrir o debate” ou reverter a decisão de 2016, para não prejudicar a confiança democrática. A incerteza em torno da sucessão de Starmer levou a UE e o Reino Unido a adiar a cimeira bilateral agendada para 22 de Julho, que ambos os lados pretendiam utilizar para reforçar as relações, aguardando a formação do novo governo britânico. Dependendo do calendário interno do Partido Trabalhista, a eleição do futuro líder poderá ocorrer em Julho, caso Burnham se candidate sem oposição, ou ser adiada para Setembro, se surgirem outros candidatos. Entretanto, uma sondagem publicada pelo Conselho Europeu dos Negócios Estrangeiros indica que 66% dos britânicos acreditam que a saída da UE foi negativa para o país, enquanto 75% apoiam laços mais estreitos com Bruxelas. Outra sondagem, realizada pela “More in Common”, indica que 46% dos britânicos entendem que o Brexit poderia ter funcionado se tivesse sido melhor gerido pelo governo, em comparação com 28% que acreditam que estava condenado ao fracasso.

 

JTM com agências internacionais