O Papa classificou ontem como “crime” o uso da energia atómica para fins militares e denunciou a lógica da dissuasão nuclear, durante visitas a Nagasaki e Hiroshima
O “uso da energia atómica para fins militares é hoje, mais do que nunca, um crime, não apenas contra o homem e a sua dignidade, mas também contra qualquer possibilidade de futuro na nossa casa comum”, declarou Francisco numa mensagem no Memorial da Paz de Hiroshima, não muito longe do local onde a bomba americana caiu a 6 de Agosto de 1945.
De manhã, em Nagasaki, cidade atingida há 74 anos por uma segunda bomba A, o líder da Igreja Católica já tinha rejeitado a tese de que a posse de armas nucleares para dissuadir ataques seja o caminho para garantir a paz.
“A verdadeira paz só pode ser uma paz desarmada”, declarou o Papa em Hiroshima, onde pelo menos 140 mil pessoas morreram na manhã do ataque e nos meses seguintes.
O horror da guerra e das armas está em linha como os alertas dos papas que o precederam, mas uma clara rejeição à teoria da dissuasão nuclear traduz uma ruptura com o passado. Em 1982, nas Nações Unidas, João Paulo II chegou a definir essa doutrina como um mal necessário “nas condições presentes”.
Este domingo, Francisco também se revoltou contra toda a cadeia de armas: “O fabrico, modernização, manutenção e venda de armas cada vez mais destrutivas são um ultraje contínuo para o céu”.
O Papa encontrou-se com sobreviventes (conhecidos como “hibakusha” no Japão) e prestou homenagem à “força e dignidade” daqueles que sofreram nos seus corpos “os sofrimentos mais atrozes” e “nos seus espíritos, os germes da morte”.
“Este país conheceu como poucos o nível de destruição que o ser humano é capaz”, sublinhou Francisco durante uma missa ao ar livre celebrada perante 35 mil pessoas num estádio de beisebol em Nagasaki.
Dotado de uma Constituição pacifista ditada pelos ocupantes americanos após a Segunda Guerra Mundial, o Japão também adoptou em 1967 os princípios de “não produzir, deter ou introduzir no seu território armas nucleares”, porém, depende do “guarda-chuva” nuclear dos EUA para sua segurança.
Segundo a AFP, num segundo discurso em Nagasaki, antes da missa, Francisco também prestou homenagem aos primeiros missionários japoneses e “mártires” dos séculos XVI e XVII, “uma fonte profunda de inspiração e renovação” para ele na sua juventude, e recordou a necessidade de garantir a liberdade religiosa para todos. Apenas 440 mil japoneses são católicos, numa população total de 126 milhões.
Hoje, Francisco também se encontrará com vítimas do terramoto de magnitude 9 no nordeste do Japão e do tsunami, que matou 18.500 pessoas a 11 de Março de 2011, um desastre natural seguido pelo desastre nuclear de Fukushima.
JTM com agências internacionais



