As nações mais ameaçadas pelos efeitos devastadores das mudanças climáticas apelaram aos mais ricos para se empenharem seriamente na luta para estancar o aquecimento global, sob pena de “traírem” as gerações futuras. Na abertura da Conferência do Clima, António Guterres lamentou que o mundo continue afastado do rumo certo

 

Apesar das evidências das mudanças climáticas serem incontestáveis, o mundo “não está a ir na direcção correcta” para travar os seus efeitos catastróficos, advertiu o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, no segundo dia da 24ª Conferência do Clima da ONU (COP24), que decorre na cidade polaca de Katowice.

Para “muitas pessoas, regiões e até mesmo países já é uma questão de vida ou morte”, avisou António Guterres, lamentando que a lentidão da comunidade internacional nesse domínio. “Embora sejamos testemunhas de devastadores impactos climáticos que provocam o caos em todo mundo, continuamos sem fazer o necessário, não vamos suficientemente rápido”, declarou.

Segundo Patricia Espinosa, secretária executiva da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (COP), “este ano deverá ser um dos quatro mais quentes já registados”. “As concentrações de gases do efeito estufa na atmosfera estão no seu ponto mais alto e as emissões continuam a aumentar”, acrescentou a responsável sobre o clima da ONU, frisando que as “vítimas, destruição, sofrimento” decorrentes “tornam o nosso trabalho mais urgente”.

Na perspectiva dos países em desenvolvimento já afectados por secas, inundações e aumento do nível do mar, compete às nações ricas fazer mais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e ajudar o Hemisfério Sul a preparar-se para as catástrofes.

“Temos a sensação de que estão a punir-nos por erros que não cometemos. A comunidade internacional deve agir para que se faça justiça”, declarou a Presidente do Nepal, Bidhya Devi Bhandari, aludindo em particular ao degelo dos glaciares dos Himalaias.

“Aos que ainda estão a arrastar os pés, digo simplesmente: ‘façam’”, reforçou o Primeiro-Ministro de Fiji, Frank Bainimarama, presidente da COP23. “Se ignorarmos as provas irrefutáveis, seremos a geração que traiu a humanidade”, alertou numa conferência mundial marcada pela ausência de importantes chefes de Estado e de governo.

António Guterres também enfatizou “a responsabilidade colectiva de ajudar as comunidades e os países mais vulneráveis, como Estados insulares e países menos desenvolvidos, apoiando políticas de adaptação e resistência” aos impactos das mudanças climáticas.

O Acordo de Paris visa limitar o aquecimento global a +2°C e, se possível, a +1,5°C, em comparação com a era pré-industrial. Porém, o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês) mostra as claras diferenças da incidência entre esses dois objectivos e destaca que seria necessário permanecer abaixo de +1,5ºC para reduzir as emissões de CO2 em cerca de 50% até 2030, em relação aos níveis de 2010.

Como forma de ajudar os países em desenvolvimento a reduzirem as suas emissões e adaptarem-se aos impactos das mudanças climáticas, os países do Norte prometeram elevar em 2020 o seu apoio financeiro para 100 mil milhões de dólares por ano. Todavia, embora os fluxos estejam a aumentar, a meta ainda não foi alcançada, além de que, segundo a OCDE, esse montante é insuficiente para cobrir as necessidades colossais destes Estados.

Nenhum dos países mais poluentes do planeta está representado ao mais alto nível em Katowice, onde a Suíça anunciou uma ajuda de 120 milhões de dólares.

Num contexto internacional pouco propício a novos compromissos, financeiros ou de outro tipo, o Banco Mundial anunciou o desbloqueio de 200 mil milhões de dólares entre 2021 e 2025 para ajudar à redução de emissões e adaptação à mudança climática, o “dobro” em relação ao período anterior.

“Cada um deve fazer o que pode contra as mudanças climáticas. Caso contrário, os nossos filhos e netos não nos perdoarão”, alertou a directora-geral do Banco Mundial, Kristalina Georgieva, referindo-se, comovida, ao futuro que aguarda a sua neta de oito anos.

“O grupo dos PMA (Países Menos Avançados) representa quase mil milhões de pessoas. Elas são as menos responsáveis pelas mudanças climáticas, mas as mais vulneráveis às suas consequências”, comentou também antes da conferência o presidente da delegação, o etíope Gebru Jember Endalew, apontando a necessidade de “milhares de milhões de dólares” para financiar políticas para combater a actual situação.

 

Os poderosos e as leis da física

“Os líderes políticos devem começar a questionar os interesses que perpetuam a crise climática”, instou Baron Divavesi Waqa, Presidente da ilha de Nauru, numa alusão às energias fósseis. “Os poderosos jogaram sempre com outras regras, mas não podem escapar às leis da física”, acrescentou.

Convidado surpresa da cimeira, o ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger também denunciou o uso das energias fósseis. “Gostaria de ser o Exterminador na vida real para viajar no tempo e pôr fim às energias fósseis quando foram descobertas”, declarou o actor.

“O mal absoluto está nas energias fósseis, o carvão, a gasolina, o gás”, insistiu perante o presidente da COP24, o polaco Michal Kurtyka, cujo país continua a defender sua indústria do carvão.

A Polónia garante querer promover uma “transição justa” para uma economia baixa em carbono, mas alguns temem que seja apenas uma desculpa para desacelerar a passagem para uma economia de baixo consumo de carbono.

“Não podemos permitir políticas climáticas contrárias à vontade da sociedade e em detrimento das condições de vida”, alegou o Presidente polaco, Andrzej Duda, aludindo à crise dos “coletes amarelos” na França, que começou com a rejeição popular a uma taxa ecológica sobre os combustíveis.

Até 14 de Dezembro, cerca de 30 mil delegados de 197 países vão continuar a maratona de negociações complexas para encontrarem formas de aplicar o acordo de Paris celebrado em 2015. No entanto, os debates deverão ser muito amargos sobre tópicos sensíveis, principalmente a questão do financiamento Norte-Sul.

 

Ventos desfavoráveis

Com excepção dos EUA, os membros do G20 reafirmaram no sábado o seu apoio ao Acordo de Paris, mas “não podemos dizer que os ventos são favoráveis” a um aumento nas ambições climáticas, admitiu Michel Colombier, director científico do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Relações Internacionais, referindo-se ao contexto geopolítico. Com uma guerra comercial entre China e EUA, ainda que agora em fase de tréguas, e o cepticismo em relação à mudança climática por parte de Donald Trump e do Presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro (que também mencionou uma possível saída do seu país do Acordo de Paris), “as estrelas já não estão alinhadas”, lamentou Seyni Nafo, porta-voz do grupo África, de acordo com a AFP. Apesar do chamado “diálogo de Talanoa” (uma série de encontros em curso para tentar aumentar os objectivos), os observadores temem que a maioria dos Estados, encorajados a rever os compromissos para 2020, estejam à espera de outra cimeira convocada pelo secretário-geral da ONU, para Setembro de 2019 em Nova Iorque, para apresentar as suas metas.

 

JTM com agências internacionais