epa12653934 A view of a flooded house surrounded by floodwaters. Maputo, Mozambique, 16 January 2026, after several days of continuous heavy rain.  EPA/LUISA NHANTUMBO
epa12653934 A view of a flooded house surrounded by floodwaters. Maputo, Mozambique, 16 January 2026, after several days of continuous heavy rain. EPA/LUISA NHANTUMBO

Enquanto o centro de Maputo resiste a vários dias ininterruptos de fortes chuvas, nos bairros periféricos multiplicam-se pedidos de ajuda, com centenas de casas inundadas, ruas transformadas em lagos e a mesma frase a cada esquina: “Estamos mal”.

While the centre of Maputo endures several days of uninterrupted heavy rain, requests for help are multiplying in the outlying neighbourhoods, with hundreds of houses flooded, streets turned into lakes and the same phrase on every corner: ‘We are in a bad way,’ Maputo, Mozambique, 16 January 2026. LUÍSA NHANTUMBO/LUSA

“Todas [as casas] cheias de água. Nenhum carro passa”, diz à Lusa, ensopado, Hélio Luís, que vive de biscates no bairro Hulene B, arredores de Maputo.

“Inundações, boss”, atira, para tentar explicar o enorme lago que antes era a estrada, em terra batida, que o levava a casa e que agora recebe água das chuvas intensas dos últimos dias, acumuladas numa bacia de retenção ali perto e que, por sua vez, também já esgotou a capacidade, transformando vias em rios.

Pelo menos 103 pessoas morreram e 173 mil foram afectadas desde o início da época das chuvas em Moçambique, registando-se a destruição total de 1.160 casas, avançou o Governo, que decretou alerta vermelho nacional.

Em Hulene B, como noutros bairros periféricos, há uma semana que a situação se vem agravando. “Temos que passar dentro da água”, descreve Hélio, apelando: “Ajuda mesmo. Nem dá para passar, não sei como vamos trabalhar, não estamos a comer nada”.

Já Benito Albino quase teve que nadar para chegar de casa à rua principal, após nova noite em claro, com seis pessoas dentro de casa, inundada.

“Desde as 04:00 que estou a tirar água, em casa entrou água. Estragou muita coisa, estamos a pedir socorro”, pede, criticando a situação da bacia de retenção, que os moradores garantem estar a agravar o problema ao não escoar correctamente as águas. “Não fazem manutenção, não fazem limpeza”, queixa-se.

E com a água que corre como rios, chega o lixo, numa altura de crise de recolha, com resíduos acumulados há várias semanas nos bairros: “O lixo chega aqui nas casas, estamos a ficar doentes”. “Estamos a pedir ajuda, estamos a passar mal”, insiste Benito Albino.

Enquanto a cidade vai aguentando o impacto, com várias obras de drenagem nos últimos meses a surtirem efeito, os bairros vivem o pesadelo das chuvas e inundações generalizadas. Realidades diferentes que não convencem Noémia.

“Aqui não tem dono. Nós estarmos aqui a sofrer”, diz, confessando que vai ter de continuar a “viver de favores, aqui e ali”, junto com os quatro filhos, pelos vizinhos.

Enquanto olha desolada para o pouco que é visível da casa, além do telhado e meia porta, desabafa que perdeu muito neste tempo. “Algumas coisas perdi, outras, com ajuda de vizinhos, resgatei. Outras, os ladrões, oportunistas, tiraram”.

Manuel Armando, também morador de Magoanine A, vive por estes dias na Escola Graça Machel, do outro lado da bacia de retenção.

Desde Abril que a escola é a sua casa, realojado temporariamente, e quando esperava voltar, as chuvas intensas, praticamente desde finais de Dezembro, travaram a expectativa e o local voltou a encher-se de dezenas de famílias deslocadas. Outras chegam ali para tratar da matrícula para o ano escolar de 2026, que arranca dentro de 15 dias.

“Estamos à espera [do] que o Governo possa fazer, viver deste modo não nos põe em conforto”, diz, enquanto assume a preocupação com a chegada dos alunos para o novo ano escolar. “Temos que esperar para ir à casa de banho, fazer a barba, fazer as necessidades”, explica.

E se já hoje é difícil esta coabitação, com tantas e diferentes famílias num espaço pequeno, que obriga a cozinhar no espaço do recreio, a partir de Fevereiro não sabe como será. “Acomodação e aulas ao mesmo tempo. Em Fevereiro tem de se dar o espaço aos alunos, que são os donos da casa. Vai ser difícil”, conta, preocupado, Manuel.

Já foram 96 famílias naquela escola há poucos meses, mas algumas partiram há semanas. Desde segunda-feira que quase todas voltaram, de novo, porque as casas “ficaram inundadas”.

“Quando saíram, os oportunistas também ficaram a vandalizar as próprias casas”, afirma, sem esconder o desejo unânime que se sente por ali: “A vontade é voltar de novo [para casa]”.

“Todos os dias está a chover, parou um pouco, mas já está a chover outra vez”, observa a sexagenária Adélia Manuel. Perdeu a casa, em Magoanine A, e só pede agora “um terreno para ficar”, com a filha, longe das inundações. “Não quero ficar mais na escola”, diz, desolada.

 

JTM cm Paulo Julião da agência Lusa