O antigo primeiro-ministro chinês Zhu Rongji, cujas ousadas reformas económicas impulsionaram o país a tornar-se a segunda maior economia do mundo, morreu na ontem, em Pequim aos 97 anos, informou a agência de notícias estatal Xinhua. Como vice-primeiro-ministro de 1993 a 2003 e primeiro-ministro de 1998 a 2003, Zhu foi o principal responsável pelas reformas económicas durante alguns dos anos cruciais na transformação da China de uma economia planificada para uma economia de mercado socialista, um feito que não teria sido possível sem a coragem das suas convicções.

Numa altura em que a reforma e a abertura, iniciadas em 1978, pareciam ter estagnado, particularmente após a repressão da Praça Tiananmen em 1989, impulsionou-as através de medidas como a reestruturação das empresas estatais e do sistema fiscal do país, para além de ter levado a China a aderir à Organização Mundial do Comércio. Embora as suas políticas tenham sido amplamente bem-sucedidas, também causaram dificuldades a alguns segmentos da sociedade e tiveram consequências adversas não intencionais posteriormente, tornando o seu legado controverso.

Zhu Rongji, conhecido pela sua franqueza e capacidade de concretizar projectos, não pode ser criticado por timidez: adoptou, sem hesitações, medidas duras e abrangentes que acreditava serem necessárias para o progresso da China, mesmo sabendo que seriam impopulares. Como afirmou numa conferência de imprensa ao tornar-se o quinto PM da China, em 1998: “Seja um campo minado ou um abismo à minha frente, seguirei em frente sem hesitação e servirei com toda a minha energia até ao meu último suspiro.”

De facto, em comparação com os primeiros-ministros que o antecederam e sucederam, Zhu Rongji foi amplamente reconhecido, tanto pelos seus apoiantes como pelos seus críticos, como aquele que deixou a marca mais profunda na economia chinesa. Foi fundamental para a adesão da China à Organização Mundial do Comércio em 2001, uma medida que impulsionou as exportações e o investimento directo estrangeiro, transformando o país na fábrica do mundo. A adesão colocou a China no caminho para ultrapassar a economia do Japão como a segunda maior do mundo, a seguir aos Estados Unidos, o que de facto aconteceu em 2010, e para que milhões de chineses ascendessem à classe média. Mas nem todos aprovaram a medida.

As pessoas assombradas pela memória humilhante da China da dinastia Qing, sob a mira de canhões, forçando-a a abrir-se e a comercializar no final do século XIX, chamaram traidor ou maiguozei a Zhu, defensor da globalização. Um dos seus maiores legados foi a reestruturação das empresas estatais do país. Consolidou as maiores empresas e fechou, fundiu ou privatizou as mais pequenas e com baixo desempenho. O efeito: um sector estatal forte, especialmente em sectores críticos como a energia e as telecomunicações, juntamente com um sector privado florescente, o que deu à China a agilidade e o ímpeto para aproveitar as oportunidades oferecidas pela globalização após a sua entrada na OMC.

“Sem ele, a China não seria a grande potência económica que é hoje”, disse Tan Kong Yam, professor emérito de Economia na Universidade Tecnológica de Nanyang, que conheceu Zhu e ficou “muito impressionado com a sua visão”.

O lado negativo, porém, foi que, como as empresas estatais foram inicialmente concebidas para cuidar dos trabalhadores desde o nascimento até à morte, desde a habitação, saúde e reforma até à educação dos filhos, o desmantelamento de muitas delas deixou dezenas de milhões de trabalhadores em situação precária. Perderam os seus empregos e todos os benefícios da noite para o dia. Muitos culparam Zhu por esta situação. Seguiram-se protestos.

Lizzi Lee, investigadora em economia chinesa no think tank Asia Society Policy Institute (ASPI), observou que os críticos descreveram a abordagem de Zhu, de ignorar o custo humano da transformação económica, como “cirurgia sem anestesia”. “Foi um líder de imensa convicção, alguém que ousou romper com o padrão em busca de uma visão mais ampla. Contudo, o seu mandato também serve como um alerta sobre os perigos de reformas que priorizam resultados em detrimento das pessoas”, afirmou.

Outro legado significativo foram as reformas fiscais iniciadas por Zhu, que obrigaram os governos locais a transferir a maior parte das suas receitas fiscais para o governo central. A política de centralização fiscal de Zhu alterou a dinâmica de poder, dando a Pequim mais controlo sobre as regiões. Por outro lado, lançou as bases para o problema da dívida que os governos locais enfrentam actualmente. “A centralização fiscal defendida por Zhu deixou os governos locais dependentes da venda de terrenos e do desenvolvimento especulativo para financiar os serviços públicos, preparando o terreno para desequilíbrios económicos a longo prazo”, afirmou Lee, do ASPI. Simplificou também a burocracia e reduziu o número de funcionários públicos para metade.

Pelo seu pragmatismo, perseverança e competência na implementação de reformas, como as das empresas estatais, recebeu elogios do então líder supremo Deng Xiaoping. De forma invulgar para um PM, cujas funções se centram normalmente na gestão da economia, Zhu liderou uma repressão da corrupção que derrubou o maior chefe do contrabando da China, Lai Changxing, e dezenas de membros do partido, do governo e das forças armadas.

Ao falar sobre a perseguição a funcionários corruptos, Zhu Rongji disse em 1998, à margem da sessão parlamentar anual: “Preparei 100 caixões, 99 para os funcionários corruptos e um para mim. Não me importo de morrer com eles, desde que isso possa trazer ao nosso país um desenvolvimento estável a longo prazo e a confiança do nosso povo na nossa causa”.