Yang Haiming fez parte de uma geração de trabalhadores que impulsionou o crescimento da China extraindo carvão de minas subterrâneas em Datong, cidade conhecida como a capital do carvão da China, na província de Shanxi (norte). Agora, com a China a dar prioridade às energias renováveis em detrimento do carvão, Yang está à frente das mudanças que os colegas de trabalho têm de enfrentar. Agora gere um restaurante que vende espetadas de cordeiro aos turistas que visitam as Grutas de Yungang, sítio histórico do século VI com esculturas budistas em grutas que atrai milhões de visitantes por ano. Shanxi seria a maior produtora de carvão do mundo se fosse um país independente. Os seus cerca de 800 mil mineiros extraíram 1,3 mil milhões de toneladas em 2025, quase um terço do carvão da China. Mais alguns milhões de pessoas trabalham em empregos que dependem indirectamente do carvão, desde a logística à restauração. A província irá sofrer mudanças cruciais à medida que a China adiciona energia renovável tão rapidamente que cobriu quase todo o aumento da procura energética em 2025, e o crescimento do turismo é um objectivo importante. Especialistas dizem que é vital garantir que os trabalhadores do carvão não sejam deixados para trás – uma preocupação para muitos. “Não parece que o dinheiro esteja a entrar neste sector”, disse Zhou Hongfei, mineiro de carvão. Como é típico dos grupos estatais chineses, a empresa de carvão construiu a aldeia de Yang mesmo ao lado da mina – chamada nº 9. O local foi em tempos um fervilhante centro de trabalhadores e suas famílias, com escola, creche e centro desportivo. Uma linha férrea elevada atravessa a área para transportar carvão para o resto do país. Hoje em dia, a mina nº 9 é praticamente um museu, embora parte ainda esteja em funcionamento. A escola está vazia, com os portões trancados. Muitos edifícios de apartamentos baixos estão apenas parcialmente ocupados, muitas vezes não por mineiros, mas por pessoas atraídas por habitações baratas. Os que ficaram para trás, como Yang, tentaram capitalizar com os visitantes das Grutas de Yungang. Yan Jiali, guia turística na região, disse que o crescimento económico gerou um aumento do interesse por profissões como a sua, que exigem um teste governamental para obter a licença. “Até as amigas da minha mãe me perguntam sobre este teste”, contou. Wang, o activista, espera que as indústrias de alta tecnologia, que são agora uma prioridade nacional, ajudem na transição de Shanxi, criando empregos. Afinal, disse, o carvão da província impulsionou a transformação da China numa potência económica. “E se a DeepSeek vier a Shanxi e disser: ‘OK, vamos abrir um data center aqui?’ E se a Baidu vier a Shanxi?”, questionou, referindo-se às empresas tecnológicas. Poucos acreditam que Shanxi possa abandonar completamente as minas. Especialistas consideram o carvão uma rede de segurança crucial para as necessidades de segurança da China, e a guerra com o Irão realçou mais uma vez a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento de energia a perturbações. O governo recusou recentemente limitar a quantidade de carvão que pode ser usada, recuando no compromisso de reduzir gradualmente o consumo de carvão, de acordo com os analistas do Centro de Investigação de Energia e Ar Limpo (CREA). “A confiança ainda não cresceu ao ponto de permitir que dependam inteiramente de energia renovável”, afirmou Qi Qin, analista do CREA. De facto, a China continuou a construir centrais termoeléctricas a carvão em grande escala, colocando em funcionamento 78 gigawatts em 2025, mais do que a Índia numa década inteira. Um gigawatt pode abastecer cerca de 320.000 casas chinesas durante um ano. Mesmo que a procura não desça, os trabalhadores também têm de se preocupar com o esgotamento das minas. Algumas minas mais antigas em Datong estão perto do fim da sua vida útil. Quando isso acontece, os trabalhadores podem ser realocados noutras minas que podem estar longe e pagar menos. Outro trabalhador de uma mina de carvão, Xu, arranjou um segundo emprego como motorista de aplicação, passando cerca de 5 horas por dia ao volante após o término do seu trabalho principal. Xu – que preferiu não revelar o seu nome completo por temer represálias por parte da empresa mineira estatal – disse duvidar que os benefícios das indústrias que substituem o carvão sejam distribuídos de forma igual, seja no sector do turismo ou das energias renováveis. “Como é que entro neste sector do turismo?”, questionou. “Em Datong, quem poderá usufruir dos benefícios deste boom turístico são principalmente os grandes hotéis e talvez alguns restaurantes, casas de noodles, mas o que acha que as pessoas comuns poderão usufruir?”
JTM com agências internacionais



