ISABEL MARISA SERAFIM*

A timorense Maria do Céu Lopes descobriu a importância cultural do ‘tais’, panos tecidos por mulheres, em Timor-Leste durante a guerra e a cooperação com a resistência e hoje protege quase 400 exemplares, enquanto espera por um museu.

Apesar de durante a meninice utilizar ‘tais’ em algumas cerimónias, só mais tarde, com a sua cooperação com a resistência e com a sua curiosidade, foi descobrindo o seu profundo valor cultural.

Depois surge o desafio de um colega de infância, António Coelho, especializado em tecidos, para preservar o ‘tais’. É com o colega que inicia estudos para recolher informação sobre aqueles panos associados a todos os momentos importantes da vida de um timorense, mas pelo caminho criou, em 1999, a Timor Aid, uma organização não-governamental para proteger o património cultural timorense.

“A Timor Aid conseguiu fazer, temos uma coleção de quase 400 peças, umas antigas, outras cópias das antigas que vimos no livro que o António nos deu”, disse à Lusa Maria do Céu Lopes.

Além da recolha de informação oral, a Timor Aid também documentou em audiovisual todo o processo tradicional de produção de um ‘tais’, incluindo como se tinge o algodão, a partir de plantas naturais, estabeleceu uma rede de tecedeiras para proteger a tradição da confeção e também uma loja em Díli. O seu esforço, por “fé e convicção”, foi reconhecido quando o ‘tais’ foi inscrito em 2021 na Lista do Património Cultural Imaterial que Necessita de Salvaguarda Urgente da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

“O reconhecimento, o mérito, não é nosso, é das tecedeiras e dos nossos ancestrais”, afirmou.

Maria do Céu Lopes explicou que aquele têxtil tem um “papel muito importante na vida doméstica timorense”, além de identificar o grupo linguístico de quem o usa e a comunidade a que pertence. “O ‘tais’ é usado desde a vida até à morte, quando uma criança nasce a primeira coisa que se faz é envolvê-la num ‘tais’ e depois por aí fora: ‘barlaques’ [uma espécie de dote], funerais, as cerimónias rituais de ‘uma lulik’ [casa sagradas]”, disse.

“Uma mulher, nos tempos antigos, a sua dignidade, a sua posição social, era pelo ‘tais’ que tecia, porque hoje em dia o ‘tais’ tem valor em dinheiro, mas antigamente era em búfalos, ‘morten’, os colares tradicionais, ‘belak’ [usado nos colares] e ouro”, salientou.

Questionada pela Lusa sobre se o ‘tais’ pode perder-se, Maria do Céu Lopes considerou que não. “Mas, a qualidade do ‘tais’ moderno, poucos são bons”, lamentou, salientando que é necessário fazer a certificação do produto devido aos preços e para as pessoas terem a garantia do que estão a comprar.

“A certificação é para identificar o original, do moderno, da inovação. Este tem um preço elevado, porque, para seguir a tradição do património cultural, tem de ser feito com algodão natural e cores naturais, não pode usar cores novas e isso leva mais tempo e essas peças é que vão para museus e colecionadores”, disse.

Sobre se há vontade política para continuar a proteger o ‘tais’, Maria do Céu Lopes afirmou que tem de ser um compromisso consciente.

“Em outros países, há ministros [que usam] tecidos, no Laos, na Tailândia, são ultramodernos, mas as pessoas continuam a manter a tradição do seu vestuário, tal como a Indonésia, não precisamos de ir longe”, afirmou.

Maria do Céu Lopes lamentou também a falta de um museu para mostrar aquele património timorense, que é visto em museus no exterior, dando o Louvre como exemplo. “Tu queres um museu, eu quero um museu porque tenho o material para pôr, não é para mim é para Timor-Leste, não temos um centro cultural decente, nem em Díli”, lamentou.

“Nós aqui não fazemos nada. Eu não posso construir um museu, não tenho dinheiro”, acrescentou.

Enquanto espera pelo museu, a colecção da Timor Aid vai continuar protegida e à espera de dignidade para ser vista pelos turistas, que Timor-Leste pretende atrair.

 

Sociedade civil quer mais apoio ao cultivo do algodão

A sociedade civil de Timor-Leste quer mais apoio do Governo ao cultivo de algodão para garantir a produção de ‘tais’, têxtil tecido em teares por mulheres. “O executivo tem de tomar medidas para apoiar os agricultores a voltarem a cultivar algodão em grande escala, de modo a garantir quantidade suficiente de algodão no mercado”, afirmou o responsável do Fórum das ONG’s de Timor-Leste, Inocêncio Xavier, em comunicado. Embora a UNESCO reconheça os tecidos timorenses como património cultural imaterial que necessita de salvaguarda urgente, a realidade no terreno mostra que a produção de ‘tais’ original está a diminuir devido ao desaparecimento da produção no país. “Depender apenas de materiais sintéticos não é apenas uma solução provisória, mas uma ameaça real à originalidade e aos direitos de autor do ‘tais’ que os nossos antepassados nos deixaram”, disse Xavier. A directora executiva da Fundação Alola, Maria Guterres, afirmou que reduzir e abandonar o uso de algodão sintético nos ‘tais’ e regressar ao algodão local é um passo extremamente importante para a conservação ambiental. “O uso de algodão e corantes sintéticos comporta riscos elevados para a degradação dos ecossistemas, devido à presença de produtos químicos. O uso de algodão natural e de técnicas tradicionais de tingimento é mais seguro e sustentável para o território de Timor-Leste”, afirmou. “Precisamos de cultivar algodão em grande escala para garantir matéria-prima suficiente para os artesãos. Este passo é o único caminho para assegurar que o ‘tais’ continue a ser um símbolo de identidade limpo, independente e sustentável para a nação de Timor-Leste”, concluiu.

 

*Jornalista da agência Lusa