O Presidente francês anulou o polémico imposto sobre combustíveis, ao invés de uma suspensão por seis meses, e lançou um “apelo à calma” para desmobilizar os protestos que continuam a espalhar-se pelo país

 

O Executivo francês quer evitar a todo custo uma repetição das cenas de caos registadas no passado fim-de-semana, quando milhares de manifestantes invadiram o Arco do Triunfo, montaram barricadas no coração de Paris e incendiaram veículos.

“O momento que vivemos já não é o da oposição política”, disse o porta-voz do governo, Benjamin Griveaux, citando Emmanuel Macron, após uma reunião do gabinete no Palácio do Eliseu. “O Presidente pediu às forças políticas, sindicais e patronais que lancem um apelo claro e explícito à calma”, acrescentou.

“A segurança dos franceses e as nossas instituições estão em jogo”, assumiu o Primeiro-Ministro, Edouard Philippe, na Assembleia Nacional.

Na noite de quarta-feira, o Palácio do Eliseu confessou à AFP que teme “uma grande violência” nas múltiplas manifestações convocadas para amanhã.

O Executivo já cancelou, inclusive, todas as subidas dos impostos sobre os combustíveis previstas para 2019, informou o ministro da Ecologia, François de Rugy, em declarações ao canal de televisão BFM, para afastar os receios de que a medida fosse retomada após o fim dos protestos. Na terça-feira, o Governo tinha anunciado a suspensão por seis meses da alta dos combustíveis, bem como o congelamento dos preços do gás e da energia eléctrica.

Esta é a primeira vez que Macron recua no seu ambicioso plano de reformas devido à pressão das ruas. Griveaux entreabriu ainda a porta a um possível restabelecimento do Imposto sobre Fortuna (ISF), uma das reivindicações mais frequentes dos manifestantes. “Se algo não funciona, não somos idiotas, mudaremos”, declarou em entrevista à rádio RTL.

Este imposto foi reduzido em 2017 para evitar que as grandes fortunas deixassem o país e serviu para a oposição rotular Macron como o “presidente dos ricos”.

Contudo, horas depois, Macron garantiu ao conselho de ministros que não quer “desfazer nada que foi feito nos últimos 18 meses”, afirmou o Eliseu à AFP.

Há três semanas, a França vive protestos convocados pelo movimento dos “coletes amarelos”, que começou com um protesto contra o aumento do imposto sobre combustíveis, mas reflecte agora uma insatisfação social mais ampla. Os protestos começam a estender-se a outros sectores: vários colégios estiveram bloqueados nos últimos dias, contra a reforma educativa do governo, os sindicatos estudantis prometeram intensificar as greves, e os agricultores também aderiram à vaga de contestação, com o seu principal sindicato a anunciar paralisações na próxima semana em todo o país.

Na terça-feira à noite registou-se mais um sinal da tensão latente, quando Macron foi vaiado durante uma visita surpresa a uma esquadra policial em Puy-en-Velay, no centro do país, que foi parcialmente incendiada no último fim-de-semana.

Dezoito meses após a sua eleição, a popularidade do Presidente caiu seis pontos. Agora, apenas 23% dos franceses aprovam a sua gestão, marcando o nível mais baixo.

Apesar da violência nas manifestações, 72% dos franceses continuam a apoiar os “coletes amarelos”, segundo um inquérito publicado na quarta-feira, e 78% acreditam que os anúncios do governo não são suficientes.

 

JTM com agências internacionais