Presente nas tradições literárias e budistas, a mentalidade machista de franjas da sociedade tailandesa complica a acção de várias agências governamentais que têm tentado combater dois fenómenos muitas vezes interligados: o consumo excessivo de álcool e as agressões contra mulheres

 

Os dados mais recentes do Ministério de Saúde da Tailândia indicam que 23.877 mulheres procuraram apoio por terem sido vítimas de agressão sexual ou violência doméstica em 2015, mas os especialistas garantem que a realidade envolve números muito mais expressivos.

As redes de apoio são muito importantes para combater o alcoolismo e a violência doméstica, considera o director da Fundação para o Progresso de Mulheres e Homens. Segundo Jadet Chaowilai, muitos dos agressores também abusam do álcool e entram numa espiral de marginalidade e rejeição da comunidade que, em última instância, os leva ao isolamento.

A Tailândia conta com diversas agências governamentais que lutam contra a violência doméstica, porém, Jadet sublinha que o problema de fundo ainda reside na mentalidade machista de uma parcela da sociedade, incluindo alguns políticos, polícias e juízes.

O “machismo autoritário” é o sistema hierárquico que discrimina mulheres e grupos minoritários na Tailândia, como a comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, e transgéneros), advertiu o director da fundação, em declarações à agência EFE. Este machismo está presente na tradição literária e até nalgumas tradições budistas, como a proibição do acesso de mulheres em determinados ambientes sagrados quando estão no período de menstruação.

Um fio de esperança está em jovens como Kulthida, que com o seu trabalho não só conseguiu o segundo lugar no concurso de redacção, mas também que o pai deixasse o álcool e, consequentemente, parasse com as agressões. Hoje, a jovem trabalha e estuda Publicidade, curso que é parcialmente custeado pelo pai.

“Já não tenho medo de falar com o meu pai”, confessa, ao recordar que no passado evitava chegar cedo a casa para não o encontrar.

Há alguns anos, o pai, Suthin Kreerojanee, começava o dia a beber e às vezes terminava-o a agredir a mulher, um círculo vicioso que começou a mudar depois de um trabalho escolar feito pela filha que mencionava o alcoolismo do progenitor. “Apesar de a palavra ‘pai’ ser pequena, é inquestionável que todos nós temos um pai que amamos muito”, começava a redacção de Kulthida Kreerojanee, na altura com 15 anos.

Actualmente com 22, ela contava que a primeira palavra que aprendeu a dizer foi precisamente o nome do pai. “Ele disse sempre que queria que eu crescesse e me tornasse uma boa pessoa. Apesar de beber e fumar muito, nunca falo mal dele, mas às vezes fico triste quando o vejo a beber”, escreveu, num misto de inocência e honestidade juvenil.

Sentado num pequeno escritório no norte de Banguecoque, Suthin, que hoje tem 50 anos e trabalha como moto-taxista, reconhece que aquele trabalho escolar fez aumentar a sua determinação para deixar o álcool e mudar a atitude machista. “A minha filha teve um papel fundamental. Ela não queria, por exemplo, que eu fosse buscá-la à escola porque tinha vergonha de mim”, lembra Suthin, que não voltou a beber uma gota de álcool a partir de 2011.

Neste caso, a direcção da escola também assumiu um papel activo, enviando o texto da aluna para a Fundação para o Progresso de Mulheres e Homens, que combate a violência doméstica e o alcoolismo. Membros do grupo visitaram a casa de Suthin, que aos poucos começou a mudar o comportamento, até que decidiu passar sete dias dentro de casa para deixar o álcool, um método doloroso mas que se revelou eficaz.

Apesar do estopim ser a bebida, Suthin, que chegou a fracturar o nariz da mulher durante um ataque de fúria, assegura estar arrependido das atitudes que teve. “Antes, pensava que o marido tinha a palavra final, que a mulher não podia contradizê-lo e os filhos muito menos”, aponta, asseverando que hoje acredita na igualdade de género.

 

JTM com agências internacionais