O Presidente angolano anunciou que Luanda vai acolher em Agosto uma cimeira da União Africana sobre os conflitos no continente, centrada nas questões da paz, um “bem precioso” para os povos africanos. O anúncio foi feito durante um discurso no Palácio Presidencial, onde João Lourenço recebeu o seu homólogo do Gabão, Brice Clotaire Oligui Nguema, que iniciou uma visita de Estado de dois dias a Angola.
Ao lado de Oligui Nguema, Lourenço falou sobre o recrudescimento da tensão e dos conflitos em África, dando como exemplos o Mali e a região do Sahel, o Sudão e a República Democrática do Congo, sublinhando que África não é excepção em matéria de instabilidade e insegurança. Considerou que o mundo está cada vez mais perigoso, apontando o conflito que opõe a Rússia à Ucrânia, e sobretudo, o do Médio Oriente, como uma grande ameaça à paz, à segurança e à economia mundiais, com consequências que já atingem os países face à crise energética e à escassez de bens.
“Em presença deste quadro assustador, consideramos que todos os esforços de mediação na busca de soluções definitivas para o conflito no Golfo Pérsico e o desbloqueio incondicional do Estreito de Ormuz para toda a navegação marítima internacional devem ser fortemente encorajados”, exortou.
Lourenço afirmou que a visita de Nguema constitui um marco importante no fortalecimento das relações entre os dois países, servindo para renovar o compromisso com a cooperação e a solidariedade.
O líder gabonês realçou, por seu lado, a vontade comum de fortalecer os laços de fraternidade e de amizade, acrescentando que, tal como Angola, o Gabão possui importantes recursos petrolíferos que constituem um pilar essencial para o seu desenvolvimento económico e que o Gabão se deseja inspirar na experiência e no sucesso da Sonangol. “O mesmo acontece com o modelo de diversificação económica, especialmente no sector do turismo, que constitui para o Gabão uma fonte de inspiração, cuja vontade é reduzir progressivamente a dependência da receita petrolífera”, acrescentou.
O Presidente gabonês manifestou empenho em explorar com Angola as várias perspectivas que esta cooperação reforçada abre, mostrando também disponibilidade para contribuir para o Corredor do Lobito, que classificou como uma “iniciativa estruturante ao serviço de uma África mais unida e virada para o futuro”.
Convidou ainda João Lourenço para uma visita de Estado ao Gabão, para aprofundar a cooperação nas áreas dos petróleos, turismo e agricultura, congratulando o Presidente angolano pelas suas acções à frente da União Africana, cujo mandato terminou em Fevereiro.
“A vossa liderança contribuiu para promover com convicção o princípio segundo o qual os problemas africanos devem encontrar soluções africanas”, disse o líder gabonês, que abordou também os conflitos internacionais que ameaçam os esforços de desenvolvimento, reafirmando o empenho do Gabão no multilateralismo para solucionar os desafios da paz e da segurança.
A visita de Nguema a Angola decorre numa altura de aproximação entre os dois países, quase um ano depois de João Lourenço se deslocar a Libreville para uma visita oficial. Nguema chegou ao poder a 30 de Agosto de 2023, ao liderar o golpe que derrubou o seu primo Ali Bongo no próprio dia em que eram anunciados os resultados eleitorais desse ano.
Em Abril de 2025, venceu as eleições presidenciais com 94,85% dos votos, tendo prestado juramento a 3 de Maio de 2025, formalizando constitucionalmente o fim da dinastia Bongo, que esteve no poder durante 55 anos.
Gabão quer experiência angolana no relacionamento com petrolíferas
O Presidente do Gabão disse em Luanda que o seu país quer aprender com Angola no relacionamento com as petrolíferas e no repatriamento de fundos petrolíferos. Brice Clotaire Oligui Nguema afirmou que o Gabão quer deixar a dependência petrolífera, seguindo o exemplo de Angola na diversificação da economia, apontando a agricultura e outros sectores, e beber da experiência angolana na gestão do petróleo. Nguema defendeu um futuro promissor para o petróleo gabonês e recordou que, durante a transição, o Gabão recuperou a Assala Energy para aumentar os seus activos, elevando a produção para 78 mil barris por dia. Salientou, por outro lado, que os fundos gerados pelas sociedades petrolíferas devem voltar às economias onde são exploradas. “Dissemos às companhias que já que estamos na mesma região, porque é que conseguiram repatriar esses fundos de alguns países e não o fazem noutros? Por isso queremos ter a experiência de Angola para ter esses fundos de volta no nosso território – é a mesma empresa que trabalha em Angola e trabalha no nosso país também. São lutas que devemos levar avante para garantir as gerações vindouras”, afirmou. Nguema tem travado, nos últimos meses, uma batalha com as companhias internacionais que operam no Gabão em torno dos chamados Fundos REST (fundos de reabilitação de campos petrolíferos) – que as companhias eram obrigadas a constituir, mas mantinham depositados no exterior.



