Confrontadas com o aumento da criminalidade há vários anos, as autoridades de Londres decidiram tratar este fenómeno como um problema de saúde pública e aplicar métodos usados na luta contra as epidemias

 

No ano passado, Londres registou mais de 130 homicídios, dos quais dois terços cometidos com armas brancas. O número de agressões com facas que causaram ferimentos subiu para 5.570, atingindo um recorde. Perante estas estatísticas, uma solução que parece reunir consenso na classe política britânica passa por tratar estes crimes como uma epidemia.

As autoridades escocesas adoptaram essa estratégia a partir de 2005, pouco depois da Escócia ter sido considerada a “nação mais perigosa do mundo desenvolvido” num relatório da ONU. Segundo o documento, em média, cerca de dois mil escoceses eram agredidos por semana.

Teorizado pela Organização Mundial da Saúde, este enfoque parte do princípio de que a violência é um fenómeno contagioso, sendo que as pessoas expostas ou vítimas de violência são mais susceptíveis de reproduzir comportamentos violentos. Por isso, importa evitar o contágio.

Para aplicar essa ideia, na Escócia foi implementada uma Unidade de Redução da Violência (SVRU, sigla em inglês). “Em 10 anos, reduzimos o número de homicídios, agressões e a posse de armas em mais de 50%”, sublinhou o seu director, Niven Rennie, à agência AFP.

A SVRU desenvolveu uma estratégia em três etapas, começando pelo reforço das penas contra os portadores de armas ou autores de agressão para isolá-los e limitar a propagação da violência. Depois, identificou os indivíduos mais perigosos e propôs-lhes apoio na busca de emprego e de uma vida “estável”. “Descobrimos que um grande número de pessoas implicadas na violência na realidade procuravam uma saída. Foi uma grande descoberta naquele momento”, contou Rennie.

Desde 2012, a unidade promoveu campanhas de prevenção nas escolas e hospitais, a fim de consolidar os resultados obtidos. Apesar da violência conjugal ou sexual continuar a ser um foco de preocupação, o método escocês tornou-se um exemplo a seguir, pelo que os responsáveis políticos londrinos recorreram a Glasgow em busca de ideias.

No parlamento britânico, o grupo multipartidário sobre violência com arma branca e a Comissão de Violência Juvenil apoiam a unidade, que em Dezembro foi objecto de um debate em sessão plenária pela primeira vez.

Sadiq Khan, “mayor” de Londres, lançou a sua própria Unidade de Redução da Violência, copiando até o nome. Além disso, o distrito londrino de Lambeth, um dos mais afectados pela criminalidade juvenil e pelas agressões com facas, está a elaborar uma estratégia baseada nesta abordagem de saúde pública.

Segundo um inquérito realizado pela Comissão de Violência Juvenil, 70% dos londrinos com idades entre oito e 24 anos são expostos a situações de “violência grave” pelo menos uma vez por mês.

“É preciso compreender o sentimento de insegurança que estes jovens sentem”, disse à AFP Duncan Bew, cirurgião de traumatologia no King’s College Hospital de Londres, e especialista da Comissão, notando que “começam a andar armados, porque se sentem em perigo”. Assumindo frustração por ver estas vítimas passarem pela sua mesa de operações, o médico considera que alguns actos violentos poderiam ser “evitados”.

Por sua vez, o criminologista Simon Harding, da Universidade West London, alerta para a dificuldade de aplicar este método sem a participação das pessoas interessadas. Harding defende uma aproximação “sob medida”, adaptada às particularidades sociológicas de Londres, e que envolva tanto as autoridades como associações, escolas e hospitais, seguindo o exemplo escocês.

 

JTM com agências internacionais