O presidente do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), Francisco Carvalho, disse hoje que os cabo-verdianos falaram de forma “clara” ao darem “maioria absoluta” ao partido, Praia 18 de maio de 2026. ELTON MONTEIRO / LUSA
O presidente do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), Francisco Carvalho, disse hoje que os cabo-verdianos falaram de forma “clara” ao darem “maioria absoluta” ao partido, Praia 18 de maio de 2026. ELTON MONTEIRO / LUSA

O presidente do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), Francisco Carvalho, disse que os cabo-verdianos falaram de forma “clara” ao darem “maioria absoluta” ao partido. “Os cabo-verdianos passaram uma mensagem clara: chegou a hora de mudar a gestão do país”, referiu na declaração de vitória, pelas 00:15 (09:15 em Macau), na sede do PAICV, na cidade da Praia.

Segundo referiu, “já chegaram os resultados da América que faltavam: é maioria absoluta”.

Francisco Carvalho disse que era a vitória para a qual a equipa trabalhou, com “um projecto construído a partir da necessidade dos cabo-verdianos”.

“Podem esperar de nós tudo o que prometemos, com excepção do que depender de alterações constitucionais, porque o Movimento para a Democracia (MpD) não vai colaborar quanto a isso”, acrescentou.

Quanto ao resto, recordou promessas eleitorais chave para executar: acesso gratuito à universidade pública, a cuidados saúde, viagens domésticas de barco a 500 escudos (42,6 patacas) e de avião a 5.000 escudos (426 patacas). “Não vamos invocar desculpas para não cumprir”, acrescentou.

Com Portugal, referiu que “o relacionamento é extraordinário, está para lá de bom”. O PAICV vai governar “com responsabilidade e sentido de Estado, com enorme respeito pelo percurso que Cabo Verde tem feito e por todos os parceiros. Portugal tem sido um grande parceiro, seguramente vai continuar a ser e até, digo eu, vai ser ainda mais”, referiu.

Ainda em resposta a jornalistas, Francisco Carvalho disse esperar que “comunicação social, analistas e críticos” não deixem “passar em branco” o que classificou “compra de consciências”, no dia anterior às eleições, com oferta de produtos de mercearia (cestas básicas) em lojas da Praia e abertura de agências bancárias para “compra de pessoas”.

Uma situação acerca da qual acusou de inacção tanto a Procuradoria-Geral da República (PGR) como a Comissão Nacional de Eleições (CNE). Segundo referiu, há uma “democracia de fachada” que tem de dar lugar “a coisas reais” e “não pode ficar tudo como está, para, numa próxima eleição, o MpD voltar a comprar votos”.

“Como é possível o candidato do MpD falar de pleno emprego em Cabo Verde”, questionou, reiterando necessário “falar de Cabo Verde real”, prometendo colocar “o assunto na agenda” para “aprofundar a democracia”.

 

Presidente do MpD deixa liderança do partido

Antes de Francisco Carvalho discursar, Ulisses Correia e Silva, Primeiro-Ministro e presidente do Mpd, já tinha reconhecido a derrota, anunciado a demissão da liderança do seu partido e felicitando o líder do PAICV. “Telefonei ao presidente do PAICV a felicitá-lo pelo resultado e a desejar-lhe sucessos na governação”, referiu Ulisses Correia e Silva no domingo à noite.

Ao fazer o discurso da derrota na sede nacional do MpD, na cidade da Praia, Ulisses Correia e Silva garantiu que o partido assumirá o seu papel no parlamento como “oposição responsável”, comprometendo-se a continuar a servir Cabo Verde e a assegurar uma transição governativa tranquila.

“A passagem de pastas será assegurada com normalidade, como deve ser em democracia, garantindo uma transição tranquila e pacífica, demonstrando mais uma vez que Cabo Verde é uma democracia madura e respeita as regras institucionais”, afirmou.

“Não vou colocar o meu lugar à disposição, vou apresentar a minha demissão como presidente do MpD, para que o partido possa escolher um novo presidente, novos órgãos e novos dirigentes, entrando numa nova fase”, declarou.

Ulisses Correia e Silva comentou ainda a “elevada abstenção”, de cerca de 53%, sublinhando que este será um tema de reflexão interna para apurar as motivações. “Será um trabalho que o partido irá fazer internamente e que também será objecto de análise por parte dos analistas”, referiu.

Além disso, defendeu que a renovação interna é importante para o fortalecimento do partido, sublinhando que “as pessoas passam, as instituições continuam”.

Apelou também à normalização da vida política após as eleições, defendendo uma mensagem de tranquilidade, aceitação dos resultados e redução da crispação política.

“A vida continua. Terminadas as eleições, devemos regressar à normalidade, transmitir ao país uma mensagem de tranquilidade e centrar-nos no essencial, que é fazer o país avançar”, afirmou.

O líder do MpD considerou ainda que o desenvolvimento do país não depende apenas de quem governa, mas também dos cidadãos, das organizações e das instituições.

Ulisses Correia e Silva afirmou ainda que está na altura de encerrar o seu ciclo político. “Há vida para além da política. Foram vários anos de dedicação, como Primeiro-Ministro, presidente da Câmara da Praia, deputado e membro do Governo. É tempo de dar lugar a outros”, disse ainda.

Segundo dados provisórios actualizados pelas 00:08 locais (09:00 em Macau) pelas autoridades eleitorais, o PAICV liderava a contagem global com 88.390 votos (46,6%) e 33 deputados (de um total de 72), quando estavam apurados os resultados provisórios de 1.302 mesas de voto (97.7% do total). Na mesma altura, o MpD contava 82.946 votos (43,7%) e 30 deputados, enquanto a União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID) 9.791 votos (5,2%) e dois deputados.

 

PR diz que “a democracia saiu robustecida”

O Presidente cabo-verdiano disse ontem que a democracia no país ficou mais forte, após mais um processo eleitoral tranquilo, e deu os parabéns a “todos os partidos” por “mais esta jornada cívica”. “O povo, soberanamente, falou. É o principal vencedor. Cabo Verde está, mais uma vez, de parabéns. A democracia saiu robustecida”, escreveu José Maria Neves numa publicação nas redes sociais. Após uma “aceitação tranquila” dos resultados por todos, o processo eleitoral “concluir-se-á com a constituição da Assembleia Nacional, a posse do Governo, e aprovação da moção de confiança, no parlamento”, acrescentou. José Maria Neves referiu ainda que “é tempo de arregaçar as mangas” e que “as grandes reformas exigem diálogo e entendimentos, que devem ser construídos com inteligência e sabedoria, como sempre fizemos prova”.

 

JTM com Lusa