Os bispos católicos angolanos alertaram para o flagelo da fome, da pobreza e do aumento dos índices de prostituição e de criminalidade, bem como da galopante desflorestação, e instaram as autoridades a dar prioridade à agricultura familiar. Segundo o porta-voz da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), Belmiro Chissengueti, Angola enfrenta o “flagelo da fome e da pobreza” e regista igualmente aumento dos índices de prostituição e de criminalidade.
O bispo católico, que apresentava o comunicado final da I Assembleia Plenária da CEAST, que encerrou, em Luanda, referiu que, face à actual realidade socioeconómica de Angola, os bispos instam as autoridades governativas a priorizarem no Orçamento Geral do Estado (OGE) programas de fomento da agricultura familiar, que “devem garantir a autossuficiência alimentar, e ao emprego, sobretudo no meio rural”.
Na sua mensagem, findos os trabalhos que decorreram entre 25 de Fevereiro e 2 de Março, em Luanda, a CEAST manifestou-se também preocupada com o “número assustador” de crianças e jovens fora do sistema de ensino e “os altos níveis de abandono escolar, agravados com a pouca frequência e ausência dos professores nos meios rurais”.
“Há, portanto, urgência na reconfiguração do sistema de ensino e da geografia dos concursos públicos para a educação”, referiu o bispo.
Belmiro Chissengueti, também bispo de Cabinda, considerou, por outro lado que Angola está a sofrer uma galopante e extremamente preocupante desflorestação, com todas as nefastas consequências para a degradação do meio ambiente. “Há urgência de uma acção coordenada das autoridades e de todas as forças vivas da nação em vista à mitigação deste fenómeno”, indicou, quando falava em conferência de imprensa.
Por outro lado, reiterou a necessidade de maior alocação de verbas do OGE para o sector agrícola, porque o montante actualmente cabimentado “não é suficiente”.
“E também não é normal termos um país com a dimensão que temos, um país com quantidade de água que tem, não ter autossuficiência alimentar”, acrescentou.
Criticou ainda os alegados “monopólios de importação” que, argumentou, não recebem de bom grado a produção nacional: “Não é em vão [que], em muitos casos, a produção nacional apodrece nas lavras e aldeias por falta de escoamento e as lojas e supermercados estão cheias de produtos importados”.
“Naturalmente o Estado tem feito um esforço com legislações para limitar a importação de produtos, mas desde a intenção à aplicação ainda leva a sua estrada”, respondeu ainda aos jornalistas.
Na reunião plenária, os prelados católicos enalteceram a visita do Papa Leão XIV a Angola, entre 18 e 21 de Abril, tendo convidado os fiéis e homens e mulheres de boa vontade a estarem presentes nas grandes celebrações no Kilamba (Luanda), Santuário da Muxima (Icolo e Bengo) e Saurimo (Lunda Sul).
Aprovaram uma Nota Pastoral e a Oração de preparação da visita de Leão XIV, o modelo de testamento para bispos e sacerdotes a ser implementado em todas as dioceses de Angola e São Tomé, o programa da IV Jornada Nacional da Juventude, que decorre em Luanda de 13 a 16 de Agosto deste ano, e o programa do III Simpósio Bíblico Internacional, a realizar-se de 17 a 19 de Setembro.
Bispos dizem que fragilização de organizações potencia a guerra
Os bispos angolanos consideraram que a fragilização das organizações multilaterais potencia as guerras que se registam actualmente no mundo, a exemplo da ofensiva militar do Israel e EUA contra o Irão, defendendo a paz como premissa fundamental. “Nós estamos numa realidade e num panorama mundial em que os organismos multilaterais parecem que estão bastantes fragilizados, há anos quando falávamos das Nações Unidas, pelo menos eram ouvidas, mas hoje sentimos praticamente os efeitos do fim do multilateralismo, daí a opção de uma única potência mundial ditar as regras”, afirmou o porta-voz da CEAST, Belmiro Chissengueti, quando questionado pela Lusa sobre a tensão no Médio Oriente. Em declarações na conferência de imprensa de balanço da I Assembleia Plenária da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, defendeu a necessidade de se consolidar o multilateralismo, “que foi de alguma forma capaz de manter durante muitos anos alguma estabilidade mundial”. O responsável católico defendeu igualmente a necessidade de se avaliar as razões desta guerra: “É preciso ir ao fundo para sabermos quais são as razoes da guerra (…) que decorre no Médio Oriente, daquelas que decorrem em África, que são quase cíclicas, para podermos depois combatermos a partir da raiz e não dos efeitos”, argumentou. Belmiro Chissengueti, também bispo da diocese angolana de Cabinda, apontou ainda para as consequências e os efeitos nefastos de uma guerra, exemplificando com a guerra civil angolana que terminou em 2002. “De qualquer maneira, para nós que já vivemos uma guerra prolongada e sabemos os efeitos nefastos que uma guerra provoca, nomeadamente a emigração forçada, a fome, mal-estar, acho que devemos sempre primar pela paz, que é a premissa fundamental para a coexistência entre os povos e entre as nações”, concluiu.
JTM com Lusa



