A Hungria vota, no domingo, em eleições legislativas que terão uma cobertura internacional inédita, e nas quais o Primeiro-Ministro nacionalista, Viktor Orbán, no poder desde 2010, não é favorito. Embora o país que governa seja pequeno (9,5 milhões de habitantes), Orbán é uma referência na extrema-direita internacional, dentro e fora da Europa. Tornou-se conhecido como firme opositor à imigração, aos direitos LGBTQIA+ e ao apoio contínuo dos países ocidentais à Ucrânia na guerra contra a Rússia, questões pelas quais este crítico da União Europeia, próximo de Moscovo, já se confrontou em várias ocasiões com Bruxelas. No exterior, o nacionalista de 62 anos conta com apoios como o do governo americano de Donald Trump e de líderes latino-americanos como o argentino Javier Milei e o chileno José Antonio Kast. Na terça-feira, Orbán recebeu na capital húngara o vice-presidente dos EUA, JD Vance, que atacou Bruxelas durante uma conferência de imprensa. “Quis enviar um sinal ao mundo inteiro, especialmente aos burocratas de Bruxelas, que fizeram tudo o que puderam para reprimir o povo da Hungria porque não gostam do líder que, na verdade, se colocou ao lado do povo da Hungria”, disse Vance, que foi a Budapeste para apoiar o Primeiro-Ministro. Porém, Orbán viu o seu férreo controlo do poder enfraquecer, admitindo-se que possa perder nas legislativas de domingo. Pesquisas independentes indicam uma possível vitória da oposição, do partido conservador Tisza, liderado por Peter Magyar, embora nas fileiras do governo haja confiança numa surpresa e que a coligação formada pelo Fidesz, partido de Orban, e pelos democratas-cristãos do KDNP sairá vitoriosa. Os analistas esperam uma participação elevada, de até 80%, após uma campanha intensa. Nas últimas semanas, o serviço de inteligência foi acusado de tentar sabotar o Tisza, e o chefe da diplomacia, Peter Szijjarto, reconheceu que defende os interesses da Rússia na UE, segundo revelou uma investigação de meios de comunicação europeus baseada na publicação de conversas telefónicas. O ministro teria alinhado argumentos para tentar justificar o levantamento de sanções europeias impostas a Moscovo pela invasão da Ucrânia, afirmando ao homólogo russo, Serguei Lavrov: “estou ao seu serviço”. Durante a campanha, Orbán atacou repetidamente a Ucrânia e continua a bloquear um empréstimo europeu de 90 mil milhões de euros a Kiev, algo que o Chanceler alemão, Friedrich Merz, qualificou como um “acto flagrante de deslealdade”. O argumento da Hungria é de que o país deixou de receber petróleo russo através de um oleoduto que atravessa a vizinha Ucrânia, e que ficou danificado pelos bombardeamentos de Moscovo. O governo húngaro acusa Kiev de estar a demorar de propósito para repará-lo. A novidade desta campanha é que ele não conseguiu ditar os temas do debate, diante de uma oposição “muito eficaz que obrigou o complacente partido governante e o seu líder a competir e a defender-se”, destaca à AFP o analista político Peter Farkas Zarug. Magyar, ex-aliado de Orbán que ambiciona uma ampla maioria parlamentar, promete, em caso de vitória, “uma mudança de sistema”: combater a corrupção, melhorar os serviços públicos, resgatar a qualidade democrática das instituições. Para isso, o político opositor de 45 anos escolheu como lema o slogan histórico dos revolucionários húngaros: “Agora ou nunca”. Apenas cinco partidos participarão das legislativas de domingo, o menor número desde a democratização do país em 1990, após a era comunista. Vários partidos decidiram não concorrer, para favorecer a concentração de votos na oposição e fomentar uma viragem política.

 

JTM com agências internacionais