A rápida polarização dos protestos em Hong Kong apanhou de surpresa os portugueses e luso-descendentes, que temem ter sido criada uma “geração amaldiçoada” com os problemas sociais da cidade, incluindo o elevado custo de vida

 

Foi na segunda-feira que a portuguesa Georgine Leung teve o primeiro contacto directo com os protestos em Hong Kong. “Estava a voltar para casa com a minha filha de sete meses no carro quando jovens vestidos de preto começaram a montar barricadas” perto do aeroporto, recordou a jovem nascida em Hong Kong. “Alguns transeuntes e também o meu marido começaram a remover as barricadas, mas eles rapidamente as voltavam a montar. A forma como eles estavam dispostos a parar o trânsito, mesmo pondo em perigo a sua própria segurança, para defender a sua causa, era assustadora”, disse à Lusa.

Após largos anos a viver no Reino Unido, Georgine admite que achava impensável que Hong Kong chegasse a este ponto. “Sobretudo tendo em conta que a esmagadora maioria dos manifestantes são chineses, uma cultura que valoriza a paz, onde os jovens são ensinados a evitar o conflito e a respeitar os mais velhos e a autoridade”, sublinhou.

A mudança foi repentina, sublinha Patrick Rozario. Ainda no início dos protestos, os jovens recusavam-se a usar um cartão recarregável no Metro para não deixar um registo que pudesse ser usado pela polícia, por isso “saltavam as barreiras, mas muitos deixavam lá dinheiro”, recordou o presidente do Club Lusitano.

Só que o Governo começou a pressionar o operador do Metro para deixar de enviar carruagens extras para transportar pessoas de e para as manifestações, indicou. “Agora eles estão zangados”, frisou Patrick, referindo-se aos recorrentes actos de vandalismo contra estações do Metro.

Uma opinião partilhada por Georgine: “São jovens desesperados e zangados com as autoridades que, no entanto, se sentem impotentes e ignorados e, por isso, sentem-se no direito de perturbar a vida quotidiana, incluindo espaços públicos”. “Não entendo o que esperam conseguir ao bloquear estradas e tornar a vida difícil para as outras pessoas”, questionou a portuguesa.

“Tem havido acções negativas de ambos os lados”, reconheceu Viena Mak Hei-man, referindo-se aos manifestantes e à polícia de Hong Kong. “Mas mesmo que estejamos a fazer algo considerado ilegal, como seja bloquear uma estrada, sabemos que é a única forma de chamar a atenção do Governo”, explicou a portuguesa que tem participado nos protestos.

A incapacidade do Governo de resolver os problemas sociais da cidade, onde o preço da habitação é o mais elevado do mundo, é parcialmente responsável pela actual situação, disse Rozario. “O sistema não está a funcionar, não é capaz de se auto-ajustar e só os grandes senhorios é que lucram”, criticou.

Apesar de sublinhar que está contra os protestos, Georgine Leung diz compreender a frustração dos manifestantes, “jovens a quem foi dito que tinham de trabalhar no duro para ter sucesso, mas que agora descobrem que vão ter de continuar a viver com os pais, muitas vezes mesmo depois de casarem”, lamentou.

Leung afirmou que alguns dos manifestantes dizem pertencer ao que chamam de “geração amaldiçoada”, aquela que nasceu por volta da transição de administração, em 1997, e cresceu sob a sombra do surto da SARS que, em 2003, fez 299 vítimas em Hong Kong e arrasou a economia da região. E muitos encaram o dia 1 de Julho de 2047 como a alínea final da “maldição”, quando termina o período de transição de Hong Kong acordado com o Reino Unido.

Viena Mak acusou a China de não estar a respeitar nem o princípio “um país, dois sistemas” nem a autonomia da região. “Todos sabemos que, em 2047, Hong Kong tornar-se-á mais uma cidade chinesa banal, mas há algo de rebelde no nosso sangue que nos diz que temos pelo menos de tentar proteger a nossa cidade”, concluiu.

 

JTM com Lusa