A fúria pública sobre a explosão massiva desta semana em Beirute tomou um novo rumo na noite de sábado, quando os manifestantes invadiram instituições governamentais e entraram em confronto durante horas com as forças de segurança, que responderam com rajadas de gás lacrimogéneo e balas de borracha.
Um polícia foi morto e dezenas de pessoas ficaram feridas nos confrontos, que se desenrolaram nas ruas destruídas pela explosão no porto que devastou grande parte da cidade e matou quase 160 pessoas. Dezenas ainda estão desaparecidas e há quase 6.000 pessoas feridas.
O desastre aumentou a raiva popular a um novo nível num país que recupera de uma crise económica e financeira sem precedentes e está perto da falência.
Activistas que convocaram o protesto montaram laços simbólicos na Praça dos Mártires de Beirute para enforcar políticos cuja corrupção e negligência culpam pela explosão.
Dezenas de manifestantes invadiram os edifícios dos ministérios do governo e a sede da associação bancária, voltando sua raiva para o estado e instituições financeiras.
No início do sábado, os manifestantes entraram nos prédios vazios do Ministério das Relações Exteriores, declarando-o a sede de seu movimento. Outros então se espalharam para entrar nos ministérios de economia e energia, alguns saindo com documentos alegando que eles revelariam a extensão da corrupção que permeia o governo. Alguns também ingressaram no ministério do meio ambiente.
Muitos manifestantes disseram que agora tinham apenas as suas casas e mesmo elas já não eram seguras. Culparam a ineficiência do governo e a divisão política pelos males do país, incluindo o recente desastre que atingiu quase todas as habitações.
A violência desenrolou-se na véspera de uma conferência internacional co-organizada pelo presidente francês Emmanuel Macron e o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, com o objetivo de reunir doadores para fornecer ajuda de emergência e equipamento à população libanesa.
Num discurso televisionado na noite de sábado, o primeiro-ministro Hassan Diab disse que a única solução seria realizar eleições antecipadas, que ele planeava propor num projeto de lei. Pediu a todos os partidos políticos que deixassem de lado as suas divergências e disse que estava preparado para permanecer no cargo por dois meses para dar tempo aos políticos para trabalhar nas reformas estruturais.
É improvável que a oferta acalme a fúria crescente nas ruas, dizem os observadores. Pelo menos 238 pessoas ficaram feridas nos confrontos e 63 delas precisaram de ir hospital, de acordo com a Cruz Vermelha.
Perto do Parlamento, os manifestantes tentaram pular as barreiras que fechavam o caminho que conduz à legislatura e posteriormente incendiaram um camião que estava a fortificar barreiras numa estrada que leva ao órgão legislativo.
A classe dominante do país, composta principalmente por ex-líderes da era da guerra civil, é culpada pela incompetência e má gestão que contribuíram para a explosão de terça-feira.
JTM com agências



