Uma expedição de veleiros ao arquipélago, na Guiné-Bissau, inspirou “Bijagós – Viagem ao Sul Global”, de Paulo Ramalho, obra que ultrapassa a literatura de viagem para cruzar antropologia e memórias de infância.
“Não é para fazer literatura de viagem, mas para perceber um pouco das complexidades deste mundo actual”, afirmou em entrevista à Lusa o autor, que procurou “incluir uma pitada de antropologia na narrativa”, num registo que também reúne “prosa poética, história” e as suas “memórias de infância”.
Antropólogo de formação, Paulo Ramalho confessa que o regresso ao passado, presente em muitas das suas viagens, foi também uma motivação para voltar, 50 anos depois de ter deixado o território, em Maio de 1974, à Guiné-Bissau, que é hoje “um caldeirão de coisas complexas”.
“O meu avô viveu na Guiné, o meu pai até foi tropa na Guiné, eu próprio estive na Guiné antes do 25 de Abril”, relatou. O pai integrou os últimos militares portugueses a abandonar a Guiné, em 1974, e trouxe consigo a bandeira portuguesa, que, contou o escritor, continua guardada pela família.
“Faltava-me a Guiné, onde vivi e onde fiquei com memórias tão marcadas do período da guerra”, recordou.
“Era uma cidade [Bissau] em estado de sítio e as bombas rebentavam de todo o lado. O recolher era obrigatório, isso também passa no livro”, explicou.
Questionado pela Lusa sobre a evolução do país desde a independência, Paulo Ramalho afirmou que “tornou-se um caldeirão de coisas complexas” e continua “um país cheio de contradições”. Na sua perspectiva, a inexistência de “um grupo étnico dominante”, uma influência portuguesa que classificou como “muito ténue” e o reforço da influência francesa ajudam a compreender a realidade actual.
O escritor considera que “os antigos libertadores transformaram-se, eles todos ou quase todos, em lavadores de dinheiro e traficantes”, e “o principal problema” reside em elites “dominadas por esse tipo de negócio de corrupção”.
Embora o arquipélago dos Bijagós constitua o centro da narrativa, o escritor disse que a obra procura reflectir sobre questões universais. Entre elas o impacto das alterações ambientais, a acumulação de resíduos, a pressão do turismo, a sobrevivência das culturas tradicionais e o papel das mulheres na sociedade bijagó.
“Talvez um dos elementos estruturantes do livro seja a questão do lixo”, afirmou, descrevendo uma realidade onde os resíduos são queimados diariamente em Bissau e toneladas de plástico chegam às ilhas transportadas pelas marés.
Sobre o turismo, “uma das grandes pestes do mundo”, pela pegada ecológica “terrível” que deixa, o autor manifesta reservas à construção de empreendimentos em ilhas consideradas sagradas pelas comunidades locais e defende formas de viajar mais respeitadoras das culturas visitadas.
“Tenho uma posição um bocado crítica em relação a alguns desses empreendimentos, que, no fundo, são guetos luxuosos. Estão ali para viver de costas voltadas para as populações”, sublinhou.
Na bagagem trouxe uma frase do avô, chefe dos Serviços Geográficos e Cadastrais na Guiné-Bissau, que apontava os Bijagós como “um dos povos mais selvagens do mundo”.
“Não são”, afirma sem hesitações, após ter percorrido três ilhas do arquipélago — Bolama, Bubaque e Canhabaque — e permanecido durante duas semanas na aldeia de Bine, convivendo com a população local.
O papel das mulheres ocupa um lugar de destaque na obra, sobretudo através das ‘okinkas’, guardiãs dos cultos femininos e conhecimentos tradicionais.
A relação entre tradição e modernidade é desenvolvida no livro. “Em que medida é que a modernidade pode ser incluída sem destruir completamente a tradição? Ou em que medida a tradição pode evoluir sem pôr em causa a identidade do povo?”, questionou.
“Quanto mais longe viajarmos, mais devemos ter um pretexto para viajar”, afirmou, considerando que uma viagem deve servir para conhecer as comunidades e compreender os seus modos de vida, e não apenas para permanecer “num resort”.
O livro termina com o episódio do “cão dos brancos”, “sarnento e escanzelado”, mas com faro para o turista europeu. A fábula, construída pelo autor, sublinha a “realidade complexa das desigualdades sociais” na Guiné-Bissau e desafia o leitor “a partir pedra” e “fazer acontecer” num mundo que considera “em estado de colapso”.
Sem idealizar o arquipélago, Paulo Ramalho rejeita a ideia de um paraíso intocado, defendendo que viajar implica confrontar-se com as contradições dos lugares e com as da sociedade de origem.
“Bijagós – Viagem ao Sul Global”, editado pela Companhia das Ilhas, abre com uma citação de Michel de Montaigne que, segundo Paulo Ramalho, resume o espírito da obra: “Sei bem melhor aquilo de que fujo do que aquilo que procuro”. Porque, concluiu, ao procurar conhecer outras sociedades, “estou sempre a interrogar a minha sociedade”.
JTM /Lusa



