Enquanto os bairros de Maputo tentam reerguer-se após cheias históricas, as crianças, a camada mais afectada segundo a Unicef, continuam expostas a riscos silenciosos, entre lama e incertezas, enquanto os pais, sem sustento, lutam para reconstruir vidas.
“Não tive tempo de tirar quase nada de dentro [de casa]. O que tirei são os meus filhos, porque o meu foco estava mesmo nas crianças”, disse à Lusa Celeste Massanganhe, 32 anos, mãe de quatro crianças, no seu quintal, que durante as chuvas ficou submersa até à cintura, no bairro Intaka 1, Matola, uma zona de expansão no coração económico da cidade mais populosa da província de Maputo.
Entre as marcas deixadas pelas enxurradas de Janeiro, Celeste recorda o desespero de buscar refúgio, onde, sem alternativa, deixou as gémeas de 3 anos, os rapazes de 8 e 10 e a cunhada de 13, sob sua guarda, na casa da mãe, que também lutava contra a inundação. “Tive que deslocar as crianças”, desabafa, admitindo que naquele momento a segurança tornou-se relativa, já que até a casa da mãe era vista apenas como “um lugar com menos risco”, um frágil refúgio contra a fúria das águas que invadiam tudo.
“Ficaram lá por uma semana, se não me engano, porque a água era muita lá dentro de casa, muita mesmo”, acrescenta.
Embora a terra tenha finalmente voltado, após cerca de uma semana sem chuvas, o destino trazido pelas enxurradas deixa Celeste ainda sem saber por onde recomeçar a vida. “A água baixou, ficou o matope [lama], mas perdemos quase tudo, desde alimentação até aos bens materiais, um pouco de tudo. Eu já havia preparado os materiais da escola para os meus filhos, mas perdi tudo e tenho que recomeçar do zero”, explica, reconhecendo que vai ser agora muito complicado porque ela e o marido perderam o emprego devido às chuvas.
Além do desemprego e dos prejuízos materiais, Celeste diz que a chuva trouxe também traumas psicológicos para as crianças, que fazem parte da estatística das mais de metade dos afectados pelas chuvas e inundações em Moçambique, conforme estimou recentemente o Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef), sobre estas cheias.
“O impacto das chuvas, do que aconteceu, eu acho que na memória de todas as crianças isso não vai passar. [A chuva] nos trouxe a fome, a desgraça, a pobreza no seu absoluto. Porque um moçambicano, pelo menos quando não come, pelo menos veste, quando não veste, pelo menos come. Então, no nosso caso, a gente já não come, já não veste”, lamenta, acrescentando que os menores apresentam também feridas pelo corpo e diarreia pela água, que também provém de fossas da região.
Sem perspectivas para o futuro, Celeste pede apenas uma ajuda para recomeçar a vida, já que agora “cada dia é um dilema” em que não sabe o que terá para a alimentação ou “como viver”.
Também Mércia Moisés, 23 anos, residente no bairro 2000, na vila de Xinavane, distrito de Manhiça, província de Maputo, duramente atingida pelas cheias, viu a água arrastar a segurança e a estabilidade da família, atingindo sobretudo o pequeno Gael, o seu filho de 1 ano. “As cheias começaram muito mal aqui. Nós não sabíamos que a água ia encher, porque as águas que vinham nos anos passados não enchiam aqui”, diz à Lusa, em frente ao Hospital Rural de Xinavane, após levar o pequeno Gael, com gripe e feridas na boca, a uma consulta pediátrica.
Mércia, que percorreu meia hora de transporte público até à unidade de saúde, conseguindo apenas paracetamol para aliviar os sintomas do bebé, conta que desde que a chuva invadiu a sua casa e obrigou a família a procurar refúgio num centro de acolhimento, a vida nunca mais foi a mesma.
A Unicef alertou anteriormente que as cheias e inundações, que já afectaram mais de 720 mil pessoas em Janeiro, em Moçambique, não estão apenas a destruir infra-estruturas públicas e privadas, estão também a transformar a água imprópria para consumo, abrindo espaço para surtos de doenças e a subnutrição, “numa ameaça mortal para as crianças”.
JTM comLina Cebola da agência Lusa



