A maioria dos cerca de 60 mil migrantes que chegaram de Marrocos a Ceuta nos últimos dias terá deixado o enclave espanhol no norte de África no sábado, garantiram as autoridades espanholas. No entanto, as imagens da chegada em massa de migrantes à cidade autónoma espanhola desencadearam uma crise diplomática na União Europeia e levantaram questões sobre por que Marrocos permitiu que tantas pessoas se lá dirigissem. Segundo as autoridades espanholas, pelo menos 72 migrantes morreram a caminho de Ceuta, que conta com 84.000 habitantes. Já o presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, diz que há 88 mortos. Entretanto, o Ministério do Interior de Marrocos afirmou que o afluxo de migrantes foi alimentado pela desinformação nas redes sociais, por redes de tráfico de seres humanos e por uma decisão judicial espanhola que proíbe o regresso imediato dos migrantes que chegam por via marítima. Nesta que foi a primeira do governo marroquino desde a invasão em massa da fronteira foi ainda dito que 11 pessoas morreram, 10 das quais afogadas. Já segundo o jornalista Ignacio Cembrero, especialista em política do Magrebe, desde quarta-feira as forças de segurança marroquinas “estiveram de braços cruzados”. “Para chegar ao quebra-mar que marca a fronteira entre Ceuta e Marrocos há barreiras de polícias e de forças auxiliares, e é evidente que deixaram essas pessoas passar. Caso contrário, isso não teria acontecido”, afirmou. No fim-de-semana, o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, falou em “violação e ataque à integridade territorial”. De acordo com especialistas consultados pela AFP, há várias explicações possíveis. Uma delas a decisão do Supremo Tribunal da Espanha. Sánchez afirmou que as “máfias que traficam seres humanos” fizeram uma “interpretação interessada” dessa decisão. Segundo a sentença, essa “devolução expressa” só pode ser aplicada às pessoas que ultrapassem “os elementos físicos de contenção da fronteira, como as cercas”, mas não àquelas que entram pelo mar, como ocorreu com muitos dos que chegaram a Ceuta. “Sem dúvida, esta decisão desempenhou um papel, mas isso não explica o nível de mobilização, que foi muito elevado”, observou Cembrero. Outros sustentaram que pode ter sido incentivada pela regularização de migrantes anunciada recentemente pelo governo socialista de Sánchez ou pela perspectiva de uma futura mudança de governo menos favorável ao acolhimento de migrantes. Os analistas também apontam que as recorrentes crises migratórias e a suposta permissividade das forças de segurança marroquinas ao “abrir as portas” terão funcionado como um instrumento de pressão diplomática. Marrocos reivindica a soberania sobre Ceuta e Melilla desde a sua independência, em 1956, e Cembrero acha que “as autoridades marroquinas viram uma oportunidade de forçar a Espanha a negociar o futuro dessas cidades”. Nas redes sociais destaca-se a influência de Israel e Estados Unidos sobre Rabat, o que justifica que governos ou partidos populistas tenham aproveitado, de imediato, o caos que se viveu durante três dias.

 

JTM com agências de notícias ocidentais