A decisão do Supremo Tribunal que derrubou as amplas tarifas impostas por Donald Trump acrescentou uma nova complicação às já complexas relações entre os EUA e a China. Ambos os países navegam por terreno instável para evitar uma guerra comercial total que desestabilizaria a economia global, ao mesmo tempo que disputam uma posição de força nas negociações. A decisão do Supremo parece fortalecer a posição da China, mas os analistas prevêem que Pequim será cauteloso na exploração desta vantagem, sabendo que Trump tem outras formas de cobrar impostos. Ambos os lados querem também manter uma frágil trégua comercial e estabilizar os laços antes da aguardada viagem de Trump a Pequim. “Isto dará à China um impulso moral nas suas negociações com a equipa de Trump antes da cimeira, mas estão preparados para o cenário de que nada mude na realidade”, disse Sun Yun, director do programa China do Stimson Center, um think tank com sede em Washington. Furioso com a derrota, Trump disse que iria primeiro impor uma tarifa global temporária de 10%, antes de a elevar para 15%, além de procurar alternativas para as tarifas de importação. “A China tinha centenas de milhares de milhões de dólares em excedentes com os EUA. Eles reconstruíram a China. Reconstruíram o exército. Construímos o exército da China permitindo que isso acontecesse”, disse Trump na sexta-feira, reiterando que tem “uma óptima relação com o Presidente Xi, mas ele agora respeita o nosso país”. É improvável que Xi “ostente ou brande” a decisão do Supremo de forma enérgica ao reunir-se com Trump, optando, em vez disso, por tentar fortalecer a relação com o Presidente americano, disse Ali Wyne, consultor sénior de investigação e defesa focado na política dos EUA em relação à China no International Crisis Group. Quanto mais Xi conseguir fazer isto, “maior será a probabilidade da frágil trégua comercial entre os EUA e a China se consolidar de facto e de Trump se mostrar receptivo a concessões de segurança que dêem à China maior liberdade de manobra na Ásia”, referiu Wyne. Questionado sobre as implicações da decisão judicial, o porta-voz da Embaixada da China, Liu Pengyu, disse apenas que as guerras tarifárias e comerciais não servem os interesses de nenhum dos países e exortou Pequim e Washington a trabalharem em conjunto para “proporcionar maior certeza e estabilidade para a cooperação económica e comercial entre a China e os EUA e para a economia global”. Pouco após regressar à Casa Branca, no início do ano passado, Trump invocou uma lei de poderes de emergência e impôs tarifas de 20% sobre os produtos chineses. Mais tarde, impôs tarifas recíprocas abrangentes a muitos países, incluindo 34% sobre a China. Pequim retaliou e as tarifas subiram temporariamente para três dígitos antes de ambos os lados recuarem. Após várias rondas de negociações comerciais e uma cimeira entre Trump e Xi na Coreia do Sul, em Outubro, os dois países concordaram com uma trégua de um ano com uma tarifa base de 10%. Wendy Cutler, vice-presidente do Asia Society Policy Institute, disse à agência AP suspeitar que a administração Trump poderá implementar um Plano B. O gabinete do Representante do Comércio dos EUA está a conduzir uma investigação activa sobre o cumprimento, por parte da China, de um acordo comercial anterior. Caso se verifique que a China não está a cumprir as suas obrigações ao abrigo do acordo, o governo dos EUA está autorizado, por lei comercial, a impor tarifas. Gabriel Wildau, director-geral da consultora Teneo, disse que Trump já demonstrou disponibilidade para utilizar outras vias legais ou menos, para impor tarifas à China, como fez durante o seu primeiro mandato, e Pequim provavelmente presume que as tarifas poderiam ser mantidas ou recriadas “com pouca dificuldade”. “Mas, Pequim também mantém a esperança de persuadir Trump a reduzir esta tarifa em troca de garantias de compra ou outras concessões”, disse Wildau.
JTM com agências internacionais



