A crise de combustíveis em Moçambique está a impulsionar a procura por gás natural veicular e nos pedidos de conversão de viaturas de transporte, ao cortar 50% nos custos de operação, mas a capacidade de resposta é limitada.
O crescimento é confirmado pelo director-executivo da empresa Autogás, João das Neves, que aponta uma subida acentuada da procura, ainda concentrada sobretudo em pedidos de informação, pré-inspecções técnicas e cotações para conversão de viaturas. A falta de combustível nas ‘bombas’, o aumento do preço, desde 7 de Maio e que chega a 45% no litro de gasóleo, está a fazer despertar a atenção para o gás.
“Estamos a sentir uma crescente procura das conversões de viaturas, mas que se limita, essencialmente, a pedidos de cotação, a uma aproximação para ter mais detalhes, de como é o processo de conversão. E, acima de tudo, o interesse. Aumentou muito o interesse do público, dos moçambicanos, em relação à possibilidade de virem a usar o gás natural”, explica à Lusa João das Neves.
Nos escritórios da empresa de conversão, no centro de Maputo, panfletos informativos e contactos frequentes indicam a crescente procura de proprietários, motoristas e operadores de transporte por alternativas ao combustível convencional, num contexto de escassez de gasolina e gasóleo, impacto do conflito no Médio Oriente.
Já no posto de abastecimento de gás no bairro de Malhangalene, o cenário contrasta com os postos tradicionais, que há semanas alternam o estado entre encerradas e filas de centenas de metros para chegar à pouca gasolina ou gasóleo. Ali, o movimento é contínuo, mas sem filas prolongadas, com duas bombas a garantirem o serviço de abastecimento de gás de forma célere, mais barato do que os combustíveis tradicionais, cujo preço vai aumentar nas próximas semanas, conforme aviso já feito pelo Governo.
“Tudo indica que nas próximas semanas, nos próximos meses, mais pessoas irão converter as suas viaturas para aderir ao gás natural”, diz João das Neves, acrescentando que o sistema tem capacidade instalada para abastecer cerca de 10.000 viaturas, mas actualmente pouco mais de 4.000 utilizam efectivamente o gás natural no país, essencialmente em Maputo.
Viaturas de transporte, como os tradicionais ‘chapas’ ou mini-autocarros, lideram a procura pela conversão, permitindo reduzir os custos operacionais.
Até 6 de Maio, o gás natural custava 41,11 meticais (5,19 patacas) por litro equivalente, subindo desde então para 52,73 meticais (6,66 patacas). “Ou seja, a unidade é aquela quantidade necessária para substituir um litro de gasolina ou diesel. Corresponde aproximadamente a metade da média entre o preço da gasolina e do diesel”, explica.
Apesar da subida, o preço está longe do aumento de 45% no litro de gasóleo e de 12% na gasolina, que passaram a custar, respectivamente, 93,69 meticais (11,83 patacas) e 116,25 meticais (14,70 patacas).
Entretanto, também cerca de 80 autocarros já foram convertidos para passarem a usar gás. Somam-se outros 190 em preparação para entrada em operação em Maputo.
“Não é expectável que em poucos dias ou em poucas semanas se consiga converter milhares de viaturas e resolver o problema da distribuição [de gasóleo e gasolina] a nível nacional, dado os investimentos avultados que é necessário fazer e também a planificação”, reconhece ainda João das Neves.
O custo da conversão – que leva dois a três dias a concluir – constitui outro factor relevante, variando de 50 mil a 130 mil meticais (6.320 a 16.430 patacas), conforme a viatura e as botijas de gás a instalar.
A Autogás foi criada como parceria público-privada ligada à Matola Gas Company, tendo começado a conversão de viaturas no início da década passada, num processo inicialmente lento, mas que ganhou tracção com a expansão da rede na área metropolitana de Maputo e a adesão progressiva do transporte público.
O responsável da Autogás defende que o gás natural veicular pode desempenhar um papel estratégico na mitigação de crises energéticas, mas depende de decisões estruturais e maior envolvimento do Estado.
“Se nós tivéssemos tomado estas decisões, por exemplo, em 2010, 2012 e em outros momentos, hoje provavelmente a questão da guerra do Irão e outras não seriam preocupação para os moçambicanos”, lamenta, defendendo um investimento coordenado entre sector público e privado.
JTM com Egídio Mazuze da agência Lusa



