“Um pouco como durante a Guerra Fria, essa corrida para Marte agora também parece ser uma exibição de poder” disse o Prof Maurizio Falanga em entrevista exclusiva ao JTM, para quem “para o corpo humano estar no planeta vermelho é algo que ainda não pode ser proposto”

 

PIETRO FIOCCHI*

Especial para o JTM

 

A corrida e a competição entre países para ir a Marte, uma narrativa muito actual, faz parte de um épico espacial muito longo, no qual a curiosidade científica, o instinto de exploração e talvez até a sobrevivência, se entrelaçam, bem como uma boa dose de vaidade humana.

De qualquer forma, neste verão quente e pandemicamente infeliz, somos confrontados com factos e dinâmicas de primeira linha, em particular com referência às missões marcianas.

Abordamos alguns pontos da questão com o professor Maurizio Falanga, astrofísico suíço com numerosas e importantes publicações do sector, actualmente gestor do programa científico do Instituto Internacional de Pesquisas Espaciais em Berna (www.issibern.ch), ex-director executivo do Instituto Internacional de Pesquisas Espaciais em Pequim (www.issibj.ac.cn).

Na capital chinesa, de 2013 a 2019, fez uma contribuição significativa à pesquisa espacial, promovendo o encontro internacional entre cientistas, além de ser um popularizador científico muito activo e apreciado entre os jovens.

 

-A 23 de Julho, a China lançou sua própria sonda “Tianwen-1” para Marte. Os Estados Unidos estão prontos para sua missão “Marte 2020” para recolher amostras no planeta vermelho. Depois, há Índia, Europa e Emirados Árabes Unidos. Sabemos que todos os tratados internacionais exigem a máxima cooperação entre os estados em matéria espacial, mas esta corrida a Marte, no actual contexto político mundial, parece mudar de direcção. Como vê as manobras em andamento como cientista e gestor? -Ultimamente, há uma nova corrida pelo espaço. A Lua já foi conquistada pelos americanos em 1969, e mais tarde pelos russos. Depois durante quase 30 anos houve silêncio relativamente à corrida aos planetas, especialmente porque havia pouco a fazer na Lua e porque custa muito dinheiro. Já lá estivemos… foi conquistado. E pronto, acabou.

Agora a China está a compensar o tempo perdido. Por isso fez um programa lunar com coisas novas, por exemplo, indo para o outro lado da lua, fazendo uma aterragem suave [para, eventualmente, pousar os astronautas com segurança, NdR] em 2014, vinte anos após o último da Rússia e dos EUA. Para os americanos, voltar à Lua é como um déjà vu, agora os EUA estão concentrar-se em Marte, tal como faz a Agência Espacial Europeia.

A Lua e Marte são duas coisas diferentes. É verdade que a corrida para Marte pelos americanos é um passo em frente. Para os chineses, é uma questão de não perder uma oportunidade, mesmo que ainda não estejam ao nível da NASA.

Ir para a Lua, é repetir o que outros já fizeram. O planeta vermelho é mais fascinante que a Lua, porque possui características mais semelhantes às da Terra.

Mas ir a Marte é mais complicado e, acima de tudo, são necessários dois anos para ter a “janela correcta” para regressar de Marte. Enviar pessoas para Marte é uma coisa muito complicada: como manter os humanos dois anos numa atmosfera e num clima que não se conhece e que varia extremamente? Como o corpo humano se comportará em Marte?

Então vamos dar um passo atrás. Voltamos à Lua para fazer pesquisas ambientais e também aprofundar o nosso conhecimento sobre as reações do corpo e da mente humana em lugares extraterrestres.

De qualquer forma, actualmente estamos num contexto de competição e não de colaboração. Pouco e nada chegou da China sobre a sua missão de Marte… tudo aconteceu de repente. Eu mesmo fui apanhado de surpresa, são projectos que levam vários anos para serem implementados. Certamente para a China é algo limitado ao interesse nacional. O espaço tem regras e a China também deve segui-las, o que faz. A NASA desejou aos colegas chineses sucesso na missão.

 

-Sobre os Estados Unidos. A Nasa espera que seu veículo “Perseverança” chegue a Marte em Fevereiro de 2021, o que, se os acidentes permitirem, terá que explorar uma área ainda desconhecida e trazer amostras para a Terra. De olho na vida quotidiana, face à pandemia, essas amostras marcianas podem representar um risco para a saúde da Terra e seus habitantes?

-Absolutamente não. Eles trarão pedras, poeira, micropartículas de terra. Não são amostras de astrobiologia. Mesmo que sejam encontrados elementos de água, não vejo riscos. E tudo será transportado com segurança e limitado à espaço da nave e a um laboratório.

 

-Como explica pessoalmente essa irresistível paixão marciana e a quais possíveis resultados científicos máximos e em que tempos ela pode levar?

-Marte está a ser explorado em nível geológico e, sobretudo, na formação do planeta, para conhecer a sua origem e desenvolvimento e para entender se a água já esteve presente no planeta.

Esse interesse geral em Marte deve-se essencialmente ao facto de ser o planeta mais próximo da Terra e mais se assemelhar a nós. Então, um pouco como durante a Guerra Fria, essa corrida para Marte agora também parece ser uma exibição de poder. De qualquer forma, para o corpo humano estar no planeta vermelho ainda é algo que não pode ser proposto.

Quanto ao tempo, a pesquisa nesse campo vai passo a passo. É lenta. O que gostaríamos de alcançar é a astrobiologia, a formação de nós mesmos, de um planeta. Essa corrida aos planetas nasceu em 1995, quando o primeiro planeta extra-solar foi descoberto. Agora, alguns milhares são conhecidos. De repente, os planetas tornaram-se tópicos.

Se alguém quer estudar planetas distantes e lá procurar sinais de vida (não estou a falar de civilização), então precisa-se de dar um passo para trás e estudar o nosso sistema solar, os nossos planetas, para saber onde e o que procurar. Daí o interesse geral por Marte.

Depois, há um aspecto mais futurista, mas também mais prático. Isto é, saber se é possível fazer elementos na Lua ou a Marte que podem ser úteis na Terra, ou se é possível produzir energia renovável ou energia de hélio 3 para usá-los na Terra. Há coisas que podem ser feitas noutros planetas, que não podem ser feitas na Terra.

 

-Em relação ao espaço, no seu entender, quais são as prioridades da pesquisa científica internacional e por quê?

-Precisamos entender a formação do nosso sistema solar, a origem da vida, a busca pela vida noutros lugares, não quero dizer seres humanos, mas células biológicas. Os grandes desafios são entender de onde vem a vida, quem a trouxe, como pode ser obtida uma atmosfera, como é formada uma atmosfera, como se obtém oxigénio, se existem formas de vida desconhecidas para nós, que não precisam de oxigénio. Para conhecer todas essas incógnitas, Marte também pode ser interessante.

 

-No ano passado, foi formado um Grupo de Coordenação Espacial Árabe, no qual participam, além dos Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Bahrein, Argélia, Sudão, Líbano, Kuwait, Marrocos e Egito. Do ponto de vista científico, mas também estratégico, quem de entre os actores internacionais poderia ser o parceiro no futuro próximo dessa nova realidade espacial pan-árabe? E quais objetivos científicos?

 

-Um programa espacial voltado para Marte poderia ser uma maneira do mundo árabe trocar ou desenvolver alta tecnologia, em colaboração com a China, a Rússia ou a Europa. É certamente uma maneira do mundo árabe emergir, particularmente neste sector. Com a América e a NASA, eles não são grandes amigos. Vejo a única parceria estratégica possível com a China ou possivelmente com a Rússia ou a Europa.

Também pode ser que o interesse em espaço para o mundo árabe seja uma maneira de aprimorar os satélites para comunicação e implementar a sua segurança nacional. Nesta perspectiva, ajudar o mundo árabe também significaria ajudá-lo a ser mais independente na esfera geopolítica ou mesmo simplesmente para a comunicação via satélite e o que dela deriva. A NASA tem GPS, se você desligá-lo, o mundo voltaria muito atrás. Mas essa é a coisa menor, então há outros aspectos.

Ainda estou a analisar a dinâmica do mundo árabe em relação aos seus possíveis objetivos científicos, mas entendo qual seja o motivo, que é anterior a uma motivação puramente científica. O mundo árabe ainda precisa dar alguns passos básicos para o desenvolvimento de certas tecnologias antes de poder contribuir para a ciência. Obviamente, o mundo árabe é uma importante fonte de financiamento para esses programas.

 

-Os Emirados Árabes Unidos planeiam construir uma “Cidade da Ciência” para reproduzir as condições ambientais de Marte, com a intenção de construir uma colónia humana no planeta vermelho até 2117. Ciência ou ficção científica?

Daqui a cem anos? Para mim, é ficção científica. Devemos revisitar o projecto da “Biosfera 2”, a primeira biosfera terrestre destinada a reproduzir uma biosfera artificial numa cúpula, com diferentes ambientes naturais, capazes de se reproduzir com oxigénio, para que os seres humanos ali pudessem vive.

Essa experiência foi realizada na América para que a cúpula-biosfera fosse depois enviada ao espaço para futura colonização. Embora tenha sido feito um grande investimento, o projecto falhou por dois motivos: incapacidade de produzir oxigénio suficiente, água potável e alimentos adequados para as oito pessoas que nela viviam. E então formaram-se grupos de pessoas em conflito entre si. A psicologia humana ainda é um limite.

Desde que a Humanidade existe até hoje, há guerras sem fim. Ir a Marte para tentar resolver os problemas que não resolvemos aqui há mais de dois mil anos, não me parece possível nos próximos cem anos. Mesmo tecnicamente, morar em Marte não é fácil lembre-se que até agora não temos uma estação na Lua pelo custo que isso implica.

E então, por que motivo devemos deixar a Terra daqui a cem anos e ir para onde hoje podemos? Talvez, no máximo, enviar ferramentas tecnológicas, mas não ir pessoalmente.

No momento, não vejo isso como um objectivo sensato. Estudar as pedras, a formação do universo, como a atmosfera foi formada, entendendo se havia ou há água, formas de vida em Marte e outros planetas extra-solares, etc, essas parecem-me questões mais fundamentais do que entre cem anos será possível ir morar em Marte.

 

**PIETRO FIOCCHI É UM DOCENTE E JORNALISTA ESTABELECIDO EM XIAMEN, COM A SUA FAMÍLIA. APÓS UM PARÊNTESE EM ROMA, DEVERIA RETORNAR À CHINA EM MARÇO, MAS FOI “APANHADO” PELAS CONSEQUÊNCIAS DA COVID-19, E AINDA NÃO SABE QUANDO PODE REGRESSAR