Escovas, esfregões e produtos de limpeza são as “armas”  de um exército de voluntários que, envergando coletes azuis, actua em Roma para tentar conter a deterioração e degradação da capital italiana

 

Criada em 2014, a “Retake Roma” (“Recupera Roma”), uma organização cívica, sem fins lucrativos e apolítica, tem lutado contra a deterioração da capital italiana mobilizando “multidões de limpeza” por todos os bairros.

“Não nos damos por satisfeitos por viver numa cidade com um grande património artístico e cultural. Queremos que este património seja desfrutado por todos, sem ser ameaçado por sujeira, descuido e má educação”, disse Alessia Mollichella, vice-presidente da “Retake Roma”, à Agência EFE.

Recentemente, foi organizada uma actividade no Parque dos Aquedutos, a oito quilómetros do centro de Roma, onde dezenas de pessoas, muitas jovens, recolheram lixo munidas com bolsas de plástico e luvas. “É a primeira vez que participamos, mas é um grande trabalho, uma obra para melhorar a nossa cidade e por um ambiente mais saudável, que é o nosso futuro”, explicaram duas jovens salvadorenhas.

Os voluntários não se dedicam apenas a limpar paredes – inclusive de edifícios com grande valor histórico – e a retirar cartazes e outros adesivos que degradam os muros, desenvolvendo também uma tarefa necessária de consciencialização. Depois dos 300 “retaques” organizados em 2015, o número cresceu para quase 600 actividades em 2018, em praças, escolas, estações de Metro, parques e outros lugares públicos.

“É preciso uma grande mudança cultural que envolva todos: autoridades e cidadãos devem respeitar Roma, senti-la como a sua própria casa, ver os bens públicos como se fossem privados”, sublinhou Mollichella, defendendo que “devemos chegar ao ponto em que as ruas pelas quais caminhamos sejam vistas como o prolongamento da nossa casa”.

Em Dezembro, o trabalho da organização foi reconhecido com a atribuição da Ordem do Mérito da República Italiana por parte do Presidente do país, Sergio Mattarella, entregue a Rebecca Spitzmiller, uma das fundadoras, “pelo seu permanente compromisso na luta contra a degradação urbana e pela defesa dos bens comuns”.

Cansada de ver as paredes sujas, esta investigadora universitária americana residente em Roma começou a limpá-las por conta própria, levando centenas de pessoas a aderirem a causa, fundando a “Retake Roma”. “Fiz isso por dignidade pessoal, mas também porque penso que uma mudança de mentalidade é possível, e mais que possível é um dever, porque Roma é património de todos. O que vamos deixar para nossos filhos e netos?”, declarou à EFE.

Rebecca Spitzmiller acredita que a limpeza da cidade é “responsabilidade das autoridades e dos cidadãos”. “A democracia funciona assim, uns devem não sujar e outros punir quem o faz, e limpar e recolher o lixo”.

Hoje em dia, milhares de voluntários são integrados em 85 grupos de bairros por toda Roma e a organização já se espalhou por 38 cidades italianas. “Ser ‘retaker’ é uma escolha de vida, uma forma de ser. Não o somos somente quando participamos numa actividade, mas sempre, actuando e vivendo responsavelmente em todos os momentos do dia, também enquanto estamos no trabalho, sensibilizando os que nos cercam”, afirmou Mollichella.

Por vezes, o movimento obtém grandes conquistas, como aconteceu há algumas semanas: depois de enviar várias notificações ao governo, a autoridade de Bens Culturais limpou a antiga Ponte Cestio que cruza o rio Tibre.

 

JTM com agências internacionais