O Partido Comunista Chinês parece ter dado início ao seu retiro anual à porta fechada na estância balnear de Beidaihe, um encontro informal que gera, invariavelmente, rumores de disputas de poder entre os altos quadros e que, este ano, antecede em Outubro um importante conclave partidário sobre a governação do partido. Pequim não confirma publicamente o encontro, mas, num sinal de que este tinha começado, o chefe de gabinete e conselheiro próximo do presidente chinês Xi Jinping, Cai Qi, reuniu-se com académicos, em Beidaihe, na província de Hebei. Os analistas afirmam que, em anos anteriores, esta presença coincidiu com o retiro de Verão. “Historicamente, o retiro tem proporcionado uma oportunidade para os líderes em exercício e os reformados realizarem discussões informais e negociarem políticas e pessoal”, disse Neil Thomas, do Asia Society Policy Institute. Mas, com o poder cada vez mais concentrado dentro do partido e nas mãos de Xi, “o espaço para negociações genuínas diminuiu”, afirmou Thomas. A China ainda não documentou oficialmente as reuniões dos principais líderes na cidade costeira, localizada a cerca de uma hora e meia a leste de Pequim por comboio de alta velocidade, desde que a prática formal de sessões de trabalho colectivas de Verão foi abolida em 2003. Os meios de comunicação estatais, no entanto, afirmaram que as visitas de Verão a Beidaihe por parte de altos funcionários, tanto no activo como na reforma, continuaram, permitindo o contacto informal, comparando a cidade turística ao retiro presidencial americano de Camp David e a Sochi, na Rússia. As casas de hóspedes geridas pelo Estado em Beidaihe, a segurança reforçada todos os Verões e a proximidade com Pequim há muito que a tornam um ponto focal para especulações sobre a política de elite. Os encerramentos de estradas, as restrições a aeronaves e embarcações privadas – incluindo drones, parapentes, jet skis e lanchas – e uma lacuna rotineira de aproximadamente duas semanas na cobertura oficial, geralmente quase diária, dos principais líderes só aumentam esta especulação. A última aparição pública de Xi Jinping foi durante uma sessão do grupo do Politburo, a 31 de Julho, sobre a modernização das forças armadas da China. “O período de retiro é muitas vezes a ‘época de especulações’ da China”, disse Ruby Osman, consultora sénior de políticas do Instituto Tony Blair para a Mudança Global. “O silêncio da liderança alimenta rumores de lutas políticas internas ou golpes de Estado da elite.” Há poucas provas públicas de que a especulação reflicta divisões activas ou um desafio à autoridade de Xi, dizem os analistas. É provável que questões mais concretas dominem a agenda do partido nas próximas semanas: os preparativos para a reunião de Outubro, a aplicação da disciplina interna, a gestão de pessoal e as pressões económicas internas. “A liderança fará um balanço de um ano misto: Pequim conseguiu estabilizar a relação com Washington, em grande parte nos seus próprios termos, mas enfrenta crescentes dificuldades económicas internas”, disse Osman, citou a Reuters. Xi sinalizou ainda a sua intenção de impor uma disciplina ainda mais rigorosa às fileiras da liderança, já de si reduzidas por uma campanha anti-corrupção de longa duração, numa tentativa de manter a ampla autoridade conferida aos seus quadros dentro de parâmetros estritamente limitados. Um importante conclave do partido em Outubro irá focar-se no “avanço sustentado da auto-governação plena e rigorosa do partido”, disse Pequim a 30 de Julho, sinalizando que a disciplina interna continuará a ser uma prioridade central. Beidaihe pode também oferecer aos funcionários uma oportunidade de avaliar e alinhar com as prioridades de Xi antes do 21º Congresso do Partido em 2027, quando se espera uma reformulação mais ampla da liderança, disse Thomas. Mas permanecem dúvidas sobre a importância contínua do encontro. “Durante décadas, este foi o evento informal mais importante do calendário político… o único retiro onde os anciãos exerciam influência”, disse Jean Christopher Mittelstaedt, da Universidade de Zurique. “No entanto, Xi Jinping tem tido muito sucesso em diminuir a influência dos anciãos, pelo que o retiro perdeu importância na última década.”
JTM com agências de notícias ocidentais



