A China nunca seguirá políticas expansionistas nem infligirá os “sofrimentos” passados a outras nações, garantiu ontem Xi Jinping, antes da grande parada militar em Pequim, anunciando inclusive uma redução de 300 mil efectivos nas tropas do país
No início das cerimónias do 70º aniversário da capitulação nipónica, com um imponente desfile militar, o Presidente chinês sublinhou ontem que a vitória de 1945 contra o Japão permitiu que a “China voltasse a ser um grande país no mundo”, frisando no entanto que Pequim nunca terá políticas expansionistas.
“Nós, os chineses, amamos a paz. Não importa o quão fortes nos tornemos, nunca procuraremos a hegemonia ou expansão”, disse o chefe de Estado na Praça de Tiananmen, ao assegurar que a China “nunca imporá sofrimentos trágicos a outras nações”.
Reiterando que o país “continuará comprometido com o desenvolvimento pacífico”, Xi Jinping surpreendeu mesmo os analistas com o anúncio de um corte nos efectivos do Exército de Libertação Popular (ELP), o maior do planeta. “Anuncio aqui que a China reduzirá os seus efectivos militares em 300 mil” homens, declarou Xi Jinping, que discursou do alto da Porta da Paz Celestial, onde Mao Tsé-tung proclamou o nascimento da China Popular, a 1 de Outubro de 1949.
Composto por 2,3 milhões de homens, o ELP já sofreu importantes reduções de efectivos no passado, especialmente sob a presidência de Jiang Zemin, que deu prioridade à sua modernização.
Xi lembrou ainda que, na Segunda Guerra Mundial, a China registou 35 milhões de vítimas – entre mortos e feridos – numa “decisiva batalha entre o bem e o mal, entre a luz e a escuridão”.
A vitória da China, segundo o Presidente, “foi a primeira do mundo contra o fascismo” e “pôs fim à humilhação chinesa nos tempos modernos, em que sofreu diversas derrotas nas mãos de agressores estrangeiros”.
A 3 de Setembro de 1945, dia seguinte ao da assinatura da rendição japonesa, a bordo do couraçado americano USS Missouri, “o mundo foi abençoado novamente com a luz do sol” e começou “uma nova viagem para a Ásia”, disse Xi, rodeado de alguns líderes mundiais como os Presidentes da Rússia, Coreia do Sul, África do Sul e Venezuela, bem como o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Na tribuna de honra destacaram-se no entanto as ausências dos principais líderes ocidentais. O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, foi o único representante das grandes diplomacias ocidentais.
“A verdade da história, a justiça e o povo prevalecerão!”, clamou no final do discurso o Presidente chinês, vestido com o tradicional traje usado por Mao Tsé-Tung.
O desfile militar em Tiananmen reuniu mais de 12 mil soldados, 500 veículos e cerca de 200 aviões e helicópteros, símbolos do crescente poder da China no cenário internacional. Segundo oficiais chineses, 84% dos equipamentos do desfile apareceram em público pela primeira vez, incluindo bombardeiros de grande raio de acção e vários tipos de mísseis, incluindo o balístico DF-21D, conhecido como “matador de porta-aviões”, que segundo especulações poderia modificar a relação de forças no Oceano Pacífico.
Uma porta-voz da diplomacia chinesa, Hua Chunying, salientou, porém, que os comentários sobre o carácter agressivo do desfile correspondem a uma “mentalidade não muito brilhante”. “As tropas chinesas são tropas para a paz”, declarou em conferência de imprensa, destacando que “quanto mais fortes, melhor poderão garantir a paz mundial”.
Quase mil soldados estrangeiros, incluindo um destacamento russo, participaram no desfile, presenciado pelo Presidente Vladimir Putin, principal figura entre os líderes estrangeiros. Recorde-se que o Presidente Xi Jinping assistiu em Maio, em Moscovo, a um desfile similar, também ignorado pelos dirigentes ocidentais, devido à crise ucraniana.
40 detidos por críticas ao desfile militar
Pelo menos 40 activistas ou manifestantes chineses foram detidos ou perseguidos por tentar protestar ou criticar o desfile militar em Pequim, disse à Agência EFE a organização “Chinese Human Rights Defenders” (CHRD). As detenções aconteceram em várias províncias e cidades, como Shandong, Cantão e Xangai, depois de activistas e peticionários – cidadãos que viajam à capital para reivindicar justiça – terem tentado deslocar-se a Pequim, explicou a investigadora da CHRD Frances Eve.




