PRETILÉRIO MATSINHE*

O jornal Notícias, mais antigo diário moçambicano, está a apostar no digital no seu centenário, contrariando a queda nas tiragens e levando assim as notícias no telemóvel aos locais mais recônditos de Moçambique, onde o papel dificilmente chega.

“O jornal teve momentos de picos. Chegámos a fazer 35.000 exemplares por dia. Então, foram bons momentos e também eram acompanhados de alguma euforia do ponto de vista de formação do cidadão, o interesse das pessoas em ficar informadas era muito grande”, diz o presidente do conselho de administração da Sociedade do Notícias, Júlio Manjate, em entrevista à Lusa.

Hoje com cerca de 150 jornalistas, o Notícias saiu à rua pela primeira vez em 15 de Abril de 1926, criado pelo português Manuel Simões Vaz, tendo começado a agregar, a partir da década de 1980, já na independência moçambicana, títulos como os semanários Domingo e Desafio, além da unidade gráfica com instalações na província de Maputo, sul de Moçambique.

Com sede na cidade de Maputo e delegações nas capitais provinciais, é uma empresa que tem como maior accionista o Estado, com as acções a serem geridas através do Instituto de Gestão das Participações do Estado (Igepe).

Segundo Manjate, o jornal, que agora custa 30 meticais (equivalente a 40 cêntimos de euro), sentiu o impacto da Internet nos últimos anos e o cada vez mais difícil acesso ao papel entre os factores que obrigaram à redução da tiragem. “Muitas vezes olho para isto, não porque as pessoas não queiram ler o jornal, as pessoas não lêem muitas vezes porque não têm acesso, porque estão distantes dos pontos onde o jornal está disponível”, admite.

“Há uma série de factores que foram influenciando e os números foram baixando, baixaram de 35.000 que nós tínhamos há cerca de 10 anos. Hoje temos uma média de 15.000 exemplares por dia. E também é preciso reconhecer que depois enfrentamos outra dificuldade que é poder colocar este jornal nalgumas capitais provinciais”, acrescenta Manjate.

Entre os desafios assumidos pela empresa para fazer o jornal chegar às zonas recônditas está o transporte, estando a avançar com a distribuição do jornal a partir da aplicação electrónica criada para o efeito, tentando chegar a mais moçambicanos. O jornal conta já com 65.000 subscritores nas plataformas digitais, com a administração a indicar que o número tende a crescer face à aposta no tipo de informações que os leitores mais procuram.

Assim, para Manjate, considerar a Internet a única responsável pela redução de tiragens é “uma falácia”, argumentando que mesmo os que têm acesso às novas tecnologias não são subscritores do jornal distribuído pela aplicação electrónica.

“Há outros elementos que acho que vale a pena também chamá-los, que é o surgimento de outros jornais com outro tipo de perspectivas de abordagem. Isto conta muito e também devo ser franco que há o problema da ideia que as pessoas constroem (…) que não é no Notícias onde encontram o que querem”, argumenta.

Manjate aponta também para o custo de matérias-primas, adiantando que a empresa passou a imprimir o que o mercado necessita para evitar prejuízos face ao risco de ter sobras de 10.000 exemplares.

Agora, através da Internet e no telemóvel, o responsável quer ver o jornal a ser lido nos distritos e zonas rurais. “Isto tem estado a criar alguma solução, porque pelo menos garantimos que as pessoas conseguem ter acesso aos conteúdos, mas há aquela parte clássica de ter o jornal impresso, que ainda há muita gente que precisa (…) Então reconhecemos que, de facto, é preciso que nos reinventemos para conseguir fazer o jornal chegar ao maior número possível de lugares, mas não depende tudo de nós”, frisa.

Manjate alerta ainda para problemas de literacia digital que impossibilitam o crescimento acelerado do número de subscritores. “Há, de facto, ainda, problemas. E digo isto com alguma tristeza porque nós temos contacto com estudantes universitários, fazemos muito trabalho ao nível das universidades para interessar estudantes a terem subscrições. Fazemos trabalho com entidades do Estado, para dizer que há directores nacionais, políticos que não lêem o jornal, não têm subscrição, pessoas que precisam de ter informação para poder exercer a sua gestão”, lamenta.

Apesar dos desafios, Manjate rejeita que o jornal impresso esteja em vias de extinção com o advento das novas tecnologias. “Não, essa é a conversa que costuma vir do ocidente, vem do norte para o sul, então não acredito. Mesmo nos Estados Unidos o jornal ainda não morreu. Ainda há jornais como o New York Times que está a produzir quase um milhão de cópias por dia. Então por que é que vai morrer aqui? Não vai morrer nada, isso é conversa que fazem as pessoas que querem vender novos produtos”, argumenta.

“Não temos que desistir de continuar a investir na qualidade porque há de ser lido, porque as pessoas muitas vezes não lêem o jornal impresso, não porque não querem, é porque não têm acesso”, conclui.

 

*Jornalista da agência Lusa