PAULO JULIÃO*
Agitação social, barricadas e pneus a arder, com a polícia a realizar disparos para dispersar manifestantes, voltaram na manhã de segunda-feira, a algumas zonas de Maputo, ao mesmo tempo que no Parlamento eram empossados os deputados eleitos à X legislatura.
No mercado do Xiquelene, a polícia realizou vários disparos e lançou gás lacrimogéneo para dispersar manifestantes que, pacificamente, embora com barricadas na estrada, contestavam a tomada de posse que decorria em simultâneo na Assembleia da República, boicotada pelos deputados da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) e do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), que não reconhecem os resultados anunciados das eleições gerais de 9 de Outubro.
“Todo o mundo aqui saiu com o intuito de vir vender e não fazer manifestação, mas o que acontece é que a polícia da UIR [Unidade de Intervenção Rápida] chegou aqui e começou a disparar. Levou alguns jovens, meteu dentro do carro e começou a bater. A nossa pergunta é: O que nós fizemos hoje”, questiona Glória Langa, vendedora naquele mercado.
Pouco depois, com alguns populares que tentavam imobilizar as poucas viaturas que circulavam, elementos da UIR, numa viatura blindada, voltavam a fazer vários disparos de gás lacrimogéneo.
“Manifestar de forma pacífica. É o que nós estamos a fazer aqui, não há nenhuma barricada, não há nenhuma confusão, mas estamos a ouvir tiros (…) Qual é mal que nós fizemos”, acrescenta Glória, retorquindo: “O que eles querem de nós? É nos matar? Então que nos matem a todos nós, para eles poderem governar”.
Enquanto alguns populares apresentam vários invólucros de munições de metralhadora disparadas minutos antes, Carlos Milagre queixa-se de ter sido carregado e agredido pela polícia, embora afirme que estava apenas no passeio do mercado.
“Chegaram ali, meteram-me à força no carro, bateram-me a dizer que eu fechei a estrada, enquanto eu lá não estive”, garante, perante a fúria popular contra o blindado da UIR que ia fazendo disparos de gás lacrimogéneo para dispersar pequenos grupos.
A cerca de dois quilómetros do parlamento, a avenida Acordos de Lusaka foi tomada por pneus em chamas, enquanto a polícia tentava, sem sucesso, desmobilizar os manifestantes, que ainda viravam contentores do lixo para travar a circulação automóvel, juntamente com pedras, vidros e paus.
“O protesto que estamos a fazer é pelo melhor do nosso país. Já há 50 anos que a Frelimo está a governar e não muda nada”, queixa-se Abdul Carvalho, lamentando que pouco se fale das vítimas destas manifestações, segundo organizações no terreno quase 300 mortos e mais de 600 atingidos a tiro desde 21 de Outubro.
“Eu conheço, tenho três pessoas. Uns vizinhos, um dos meus primos já morreu”, afirma, enquanto os pneus em chamas levavam um espesso fumo negro a toda a avenida, apesar da chuva que ia caindo.
“Por que estão a matar”, questionava ainda Abdul, garantindo: “O povo está cansado, é isso que nós queremos mudar”.
“Acredito que isto vai piorar (…) Não é arma que muda um país, é o povo”, diz ainda.
A Assembleia da República de Moçambique empossou os deputados eleitos à X legislatura, mas dois dos partidos, RENAMO, com 28 deputados, e MDM, com oito, cumpriram com o que anunciaram e boicotaram a cerimónia.
Os 250 deputados eleitos à X Legislatura foram convocados para tomar posse, na sede do parlamento, em Maputo, numa cerimónia solene que foi dirigida pelo Presidente da República cessante, Filipe Nyusi.
A FRELIMO, no poder e que mantém a maioria no parlamento, elegeu a ex-ministra Margarida Talapa como presidente do Parlamento, segunda figura do Estado.
Além da FRELIMO, tomaram posse 39 dos 43 deputados do PODEMOS, até agora extraparlamentar e que apoiou a candidatura presidencial de Venâncio Mondlane, passando a ser o maior da oposição, contrariando o pedido de Mondlane, para não tomarem posse.
Fonte do partido confirmou à Lusa que os quatro deputados da formação política que faltaram à tomada de posse vão “regularizar a situação nos próximos dias”.
*Da agência Lusa



