epa11822053 A demonstrator sets fire to a dumpster during a protest on the day of the new parliament's inauguration, in Maputo, Mozambique, 13 January 2025. The swearing-in ceremony of the deputies elected to Mozambique's new parliament, the Assembly of the Republic, is underway as two opposition parties, Renamo and MDM that reject the outcome of the October 2024 election, boycotted the ceremony.  EPA/LUISA NHANTUMBO
epa11822053 A demonstrator sets fire to a dumpster during a protest on the day of the new parliament's inauguration, in Maputo, Mozambique, 13 January 2025. The swearing-in ceremony of the deputies elected to Mozambique's new parliament, the Assembly of the Republic, is underway as two opposition parties, Renamo and MDM that reject the outcome of the October 2024 election, boycotted the ceremony. EPA/LUISA NHANTUMBO

PAULO JULIÃO*

Agitação social, barricadas e pneus a arder, com a polícia a realizar disparos para dispersar manifestantes, voltaram na manhã de segunda-feira, a algumas zonas de Maputo, ao mesmo tempo que no Parlamento eram empossados os deputados eleitos à X legislatura.

No mercado do Xiquelene, a polícia realizou vários disparos e lançou gás lacrimogéneo para dispersar manifestantes que, pacificamente, embora com barricadas na estrada, contestavam a tomada de posse que decorria em simultâneo na Assembleia da República, boicotada pelos deputados da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) e do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), que não reconhecem os resultados anunciados das eleições gerais de 9 de Outubro.

“Todo o mundo aqui saiu com o intuito de vir vender e não fazer manifestação, mas o que acontece é que a polícia da UIR [Unidade de Intervenção Rápida] chegou aqui e começou a disparar. Levou alguns jovens, meteu dentro do carro e começou a bater. A nossa pergunta é: O que nós fizemos hoje”, questiona Glória Langa, vendedora naquele mercado.

Pouco depois, com alguns populares que tentavam imobilizar as poucas viaturas que circulavam, elementos da UIR, numa viatura blindada, voltavam a fazer vários disparos de gás lacrimogéneo.

“Manifestar de forma pacífica. É o que nós estamos a fazer aqui, não há nenhuma barricada, não há nenhuma confusão, mas estamos a ouvir tiros (…) Qual é mal que nós fizemos”, acrescenta Glória, retorquindo: “O que eles querem de nós? É nos matar? Então que nos matem a todos nós, para eles poderem governar”.

Enquanto alguns populares apresentam vários invólucros de munições de metralhadora disparadas minutos antes, Carlos Milagre queixa-se de ter sido carregado e agredido pela polícia, embora afirme que estava apenas no passeio do mercado.

“Chegaram ali, meteram-me à força no carro, bateram-me a dizer que eu fechei a estrada, enquanto eu lá não estive”, garante, perante a fúria popular contra o blindado da UIR que ia fazendo disparos de gás lacrimogéneo para dispersar pequenos grupos.

A cerca de dois quilómetros do parlamento, a avenida Acordos de Lusaka foi tomada por pneus em chamas, enquanto a polícia tentava, sem sucesso, desmobilizar os manifestantes, que ainda viravam contentores do lixo para travar a circulação automóvel, juntamente com pedras, vidros e paus.

“O protesto que estamos a fazer é pelo melhor do nosso país. Já há 50 anos que a Frelimo está a governar e não muda nada”, queixa-se Abdul Carvalho, lamentando que pouco se fale das vítimas destas manifestações, segundo organizações no terreno quase 300 mortos e mais de 600 atingidos a tiro desde 21 de Outubro.

“Eu conheço, tenho três pessoas. Uns vizinhos, um dos meus primos já morreu”, afirma, enquanto os pneus em chamas levavam um espesso fumo negro a toda a avenida, apesar da chuva que ia caindo.

“Por que estão a matar”, questionava ainda Abdul, garantindo: “O povo está cansado, é isso que nós queremos mudar”.

“Acredito que isto vai piorar (…) Não é arma que muda um país, é o povo”, diz ainda.

A Assembleia da República de Moçambique empossou os deputados eleitos à X legislatura, mas dois dos partidos, RENAMO, com 28 deputados, e MDM, com oito, cumpriram com o que anunciaram e boicotaram a cerimónia.

Os 250 deputados eleitos à X Legislatura foram convocados para tomar posse, na sede do parlamento, em Maputo, numa cerimónia solene que foi dirigida pelo Presidente da República cessante, Filipe Nyusi.

A FRELIMO, no poder e que mantém a maioria no parlamento, elegeu a ex-ministra Margarida Talapa como presidente do Parlamento, segunda figura do Estado.

Além da FRELIMO, tomaram posse 39 dos 43 deputados do PODEMOS, até agora extraparlamentar e que apoiou a candidatura presidencial de Venâncio Mondlane, passando a ser o maior da oposição, contrariando o pedido de Mondlane, para não tomarem posse.

Fonte do partido confirmou à Lusa que os quatro deputados da formação política que faltaram à tomada de posse vão “regularizar a situação nos próximos dias”.

 

*Da agência Lusa