A reunião entre os Presidentes da China e Rússia colocou frente à frente os líderes de duas potências que vivem situações económicas e diplomáticas desiguais. Os países ocidentais tomaram medidas contra a Rússia desde a invasão da Ucrânia, em 2022 e o próprio presidente russo, Vladimir Putin, é alvo de uma ordem de prisão do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra na Ucrânia. Pequim, ao contrário, é a capital para onde todos vão. Antes da visita de Putin e Trump, na semana passada, a China recebeu nos últimos meses os presidentes de França, Coreia do Sul, Vietname e Moçambique, os chefes de governo de Canadá, Reino Unido, Alemanha, Espanha, e o príncipe herdeiro de Abu Dhabi. Putin poderá, inclusive, encontrar-se com vários líderes em Novembro durante a cimeira da APEC na China. Na quarta-feira, manifestou a Xi sua intenção de participar e Trump já tinha dito que “tentará” ir também. A China é de longe o primeiro parceiro comercial da Rússia. Já a Rússia ocupa o quinto lugar entre os parceiros da China, atrás de EUA, Japão, Coreia do Sul e Vietname. O comércio entre China e Rússia aumentou de forma constante na última década e intensificou-se desde a invasão da Ucrânia até dobrar o nível de 2020, segundo centros de análises europeus. As transacções comerciais cresceram cerca de 20% nos primeiros quatro meses de 2026, “o que não é pouca coisa”, declarou Xi diante de Putin. Contudo, a Rússia só representou cerca de 5% das importações da China em 2025, segundo a Alfândega chinesa. Já a China representou mais de um terço das importações e mais de um quarto das exportações da Rússia em 2025, segundo a agência Tass. A economia russa caiu 0,2% no primeiro trimestre, a primeira queda trimestral em três anos, segundo dados oficiais. O Kremlin gastou sem medida para financiar a sua ofensiva na Ucrânia, o que num primeiro momento impulsionou o crescimento, mas depois fez disparar a inflação e provocou uma escassez de mão-de-obra nos sectores civis. Os ataques ucranianos a infra-estruturas petroleiras também prejudicaram as exportações de petróleo nos últimos meses. A Rússia depende em grande medida da China para escoar o seu petróleo, pois é alvo de sanções ocidentais devido à guerra na Ucrânia. As importações chinesas de petróleo russo cresceram 26% nos quatro primeiros meses de 2026 em termos anuais, segundo a agência Tass. Putin apoia a construção de um segundo grande gasoduto que ligará a Rússia à China, chamado “Força da Sibéria 2”. Ambos os países alcançaram “um entendimento sobre os principais parâmetros” do projecto, mas não foi mencionado nenhum “prazo de execução”, informou o porta-voz do Kremlin. Mas, Pequim não quer ser dependente do abastecimento russo, destacam alguns analistas. “A China gosta de diversificação”, afirma Anne-Sophie Corbeau, do Center on Global Energy Policy da Universidade de Columbia, nos EUA. “Tem vantagem nas negociações porque conta com alternativas: produz gás – inclusive gás sintético a partir do carvão – e beneficia de gasodutos procedentes da Ásia Central e do gás natural liquefeito”, enumera. “A Rússia, ao contrário, tem poucos mercados de saída: perdeu a Europa, segue a exportar para a Turquia (…) e espera exportar mais para a China”, disse Corbeau. Por outro lado, a China tem investido maciçamente em semicondutores e inteligência artificial (IA) para competir com os EUA. A Rússia ficou para trás nesta questão. Enfrenta sanções americanas e europeias, que a impedem de adquirir os componentes necessários para a produção de armamentos. Por isso, também depende da China nestes sectores. As exportações de fibra óptica da China para a Rússia, essenciais para a IA e o fabrico de drones, multiplicaram-se por 16 em 2025 em relação a 2024, segundo a imprensa russa. Xi declarou, nesta quarta-feira, que os dois países deviam reforçar a cooperação em IA e tecnologias.
JTM com agências internacionais



