O autarca de Quelimane manifestou “profundo choque” com a actuação da polícia moçambicana na dispersão de simpatizantes do partido de Venâncio Mondlane, que assinalavam um ano da formação, criticando a postura “musculosa e desproporcional” das autoridades. “Foi com profundo choque e incredulidade que recebemos a informação sobre a inviabilização, pela Polícia da República de Moçambique, da marcha pacífica de celebração do primeiro aniversário do Partido Anamola na cidade de Quelimane”, lê-se numa nota divulgada pelo presidente do município de Quelimane, Manuel de Araújo.

A polícia lançou gás lacrimogéneo para dispersar apoiantes durante uma concentração para uma marcha na cidade de Quelimane, centro do país, integrada nas celebrações do primeiro aniversário da Aliança Nacional por um Moçambique Livre e Autónomo (ANAMOLA). Imagens divulgadas nas redes sociais mostram agentes policiais a disparar repetidamente gás lacrimogéneo na cidade de Quelimane, província da Zambézia, com populares em fuga durante as comemorações do primeiro aniversário do partido.

Perante os incidentes, o autarca de Quelimane lamentou a actuação da polícia, afirmando que terão sido igualmente utilizadas balas verdadeiras contra cidadãos. “Surpreende-nos a postura da PRM/UIR, pela sua actuação musculosa e desproporcional. Enquanto autoridade civil responsável pela promoção do bem-estar dos munícipes da cidade de Quelimane, independentemente das suas filiações partidárias, exigimos uma explicação urgente e pormenorizada da Polícia da República de Moçambique (PRM) sobre as circunstâncias que levaram a corporação a recorrer a meios que consideramos draconianos e desproporcionais”, criticou Manuel de Araújo, apelando ao Ministério Público para criar, com urgência, uma comissão de inquérito destinada a apurar as circunstâncias que levaram aos disparos.

Venâncio Mondlane chegou na sexta-feira a Quelimane para participar nas comemorações do primeiro aniversário do partido que fundou. À chegada, já era visível um forte aparato policial no exterior do aeroporto local.

Num comício realizado no sábado, Mondlane voltou a prometer conduzir o partido à vitória nas eleições autárquicas previstas para 2028, em todos os municípios do país, sustentando que a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), no poder desde 1975, receia perder o escrutínio para a sua formação política.

Nesse contexto, afirmou que os processos judiciais que enfrenta, relacionados com as manifestações pós-eleitorais de 2024, visam intimidá-lo, garantindo não recear uma eventual detenção. “Ainda vão nos meter medo com cadeia, nós? Nós próprios, que a morte já não nos mete medo, é a cadeia que vai nos meter medo? Da mesma maneira que dizem que está próximo o julgamento de Venâncio no Tribunal Supremo. Eles acham que estou com medo desse julgamento? Eles acham que estou com medo de cadeia? Até é bom, se levarem o Venâncio para a cadeia, vai ser bom, porque é no mesmo dia que todas as cadeias de Moçambique vão explodir”, declarou.

“Estou a explicar que o Anamola veio para revolucionar Moçambique”, acrescentou, defendendo que o partido já está implantado em todos os distritos, postos administrativos e localidades do país.

Moçambique viveu a sua mais grave crise pós-eleitoral após as eleições gerais de Outubro de 2024, na sequência das manifestações convocadas pelo ex-candidato presidencial Venâncio Mondlane, que continua a contestar os resultados que atribuíram a vitória a Daniel Chapo.

Fundador do Anamola, Mondlane foi eleito por unanimidade, em Junho, presidente da formação política, durante a sua primeira Convenção Nacional, depois de ter assumido interinamente a liderança do partido desde a sua criação, em Agosto de 2025.

 

Anamola diz que houve quatro feridos na celebração em Quelimane

O partido Anamola contabilizou quatro feridos na sequência de disparos da polícia para dispersar e impedir uma marcha de celebração de um ano da formação do partido de Venâncio Mondlane, em Quelimane, pedindo responsabilização dos agentes envolvidos. Segundo o levantamento, um jornalista foi atingido a tiro pela polícia, duas crianças foram atingidas por projécteis de gás lacrimogéneo e um membro do partido sofreu ferimentos após ser picado por abelhas que, segundo a formação política, terão sido dispersadas “propositadamente” pela polícia, estando todos hospitalizados. “O partido repudia veementemente este ataque violento da PRM [Polícia da República de Moçambique] contra os membros do nosso partido, incluindo crianças, jornalistas e pessoas com deficiência, em pleno exercício dos seus direitos constitucionalmente consagrados”, lê-se no comunicado.

 

JTM com Lusa