O artista plástico moçambicano Gonçalo Mabunda em entrevista à agência Lusa no seu ateliê, em Maputo, Moçambique, 15 de junho de 2026. Gonçalo Mabunda, 51 anos, encontrou na arte de transformar armas o contributo para difundir valores da paz, enquanto constrói máscaras e tronos com estes espólios para criticar líderes africanos que conquistam o poder através da força. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DO DIA 20 DE JULHO DE 2026). LUÍSA NHANTUMBO/LUSA
O artista plástico moçambicano Gonçalo Mabunda em entrevista à agência Lusa no seu ateliê, em Maputo, Moçambique, 15 de junho de 2026. Gonçalo Mabunda, 51 anos, encontrou na arte de transformar armas o contributo para difundir valores da paz, enquanto constrói máscaras e tronos com estes espólios para criticar líderes africanos que conquistam o poder através da força. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DO DIA 20 DE JULHO DE 2026). LUÍSA NHANTUMBO/LUSA

O artista plástico moçambicano Gonçalo Mabunda encontrou na arte de transformar armas o contributo para difundir valores da paz, enquanto constrói máscaras e tronos com estes espólios para criticar líderes africanos que conquistam o poder através da força.

Mabunda, 51 anos, fez o primeiro trono com armas destruídas em 1997, ano em que se iniciou como artista, para ter onde se sentar e soldar, mas um dos seus clientes gostou da obra e comprou-a.

“Então, dali fiz outro trono e comecei a pensar sobre os líderes africanos, que eles gostam de ter os tronos usando a força. Mais ou menos isso. [Em] África, muitos deles usam a força para chegar ao trono”, diz, em entrevista à Lusa, em Maputo.

No distrito municipal da Katembe, na margem sul da baía da capital, Gonçalo encontrou lugar para viver a arte, dando vida a objectos a partir de armas e outros restos de metais.

No chão daquele lugar que é o seu ateliê estão espalhados restos de material bélico utilizado durante a guerra civil que durou 16 anos, culminando, em 1992, com a assinatura dos Acordos de Paz.

As balas, pedaços da metralhadora AK-47, carregadores, pistolas e restos de explosivos começaram a chegar às mãos de Gonçalo através de um projecto do Conselho Cristão de Moçambique, que pretendia recolher e eliminar as armas usadas na guerra, mas encontrou em Gonçalo alguém que pudesse ressignificar os objectos.

Foi assim que Gonçalo Mabunda, que já andava no Núcleo de Artes, em Maputo, a aprender a pintar, se descobriu na soldadura que transforma metais em arte, inventando tronos ou máscaras que são “pessoas falsas”.

“Cada máscara que ponho é alguém que por trás tem outra maneira de pensar. Você olha ela bonitinha, tudo conectado, tudo bom. Eu recordo-me de mim, por exemplo, quando vou ao banco, quando tenho brinco para levar o meu dinheiro, estranham-me. Como é me estranhar, amigo? Se é meu dinheiro, [só] porque tenho brinco, tenho cabelo despenteado. Então falo dessa falsidade também, da identidade da pessoa”, diz.

Neste sentido, com o trono Gonçalo critica os líderes africanos que usam a força para alcançar o poder.

“Quando falo das máscaras e do trono, falo dos presentes [líderes] africanos que, não sei como dizer, que sempre usam a força para chegar ao trono. Ao trono não se chega assim. Ao trono chega naturalmente. Os reis, aqueles não eram gajos que usavam tronos, eram intitulados”, diz.

“Sempre querem sangue para chegar ao poder”, aponta, admitindo não se lembrar de quantos tronos já fez, mas há alguns no processo de soldadura no seu espaço.

 

JTM com Pretilério Matsinhe da agência Lusa