Cabo Verde festejou nas ruas com a mesma euforia de uma vitória o empate dos “Tubarões Azuis” com Espanha (0-0), na estreia a pontuar em mundiais de futebol, no Estádio de Atlanta, nos EUA.

“Podemos ter 1% de chances, mas temos 99% de fé”, disse à Lusa John Nunes, uma das pessoas entre a multidão de centenas que acompanhou a estreia a pontuar na praça do Palmarejo, na capital cabo-verdiana, Praia, onde foram instaladas bancadas amovíveis e dois ecrãs gigantes.

O país parou durante a tarde para acompanhar aquilo que muitos classificaram como um momento histórico, fosse qual fosse o resultado: 51 anos depois da independência, Cabo Verde estreou-se num Campeonato do Mundo e empatou frente a Espanha.

“Agora vamos fazer de tudo para ganhar. Vamos até ao fim”, diz Patrick Gomes, abraçado aos amigos, numa animação difícil de controlar.

Mayra Delgado também festejou, aos saltos, por entre música e muitas buzinas: “Estamos muito felizes por ter empatado o jogo: é como uma vitória”.

Alguns mal conseguiam falar, tal a comoção: “É muito emocionante. É como uma vitória muito significativa”, descreve Cristiano Silva, a tentar encontrar palavras por entre um soluçar que espelha a alegria: “Agora, vamos pelos três pontos”.

Mayra, apoiante cabo-verdiana vestida a rigor, não parava de dançar: “Não tenho palavras, estamos todos unidos por um propósito: pequeninos como país, mas a nossa esperança é do tamanho do mar”. “De qualquer maneira já estamos orgulhosos por termos chegado onde chegámos, para dar toda a força aos rapazes que ali estão”, refere.

A plateia era maioritariamente jovem e Ney Moreira falou do dia como “um grande sonho”. “Estamos orgulhosos. Na vitória, empate ou derrota, somos Cabo Verde”, descreve.

Na praça do Palmarejo, conhecida como Praça Center, o ambiente mudou a cada ataque cabo-verdiano, com aplausos, “vuvuzelas”, bandeiras e cânticos que juntaram crianças, jovens e idosos. De cada vez que Cabo Verde recuperava a bola, a praça levantava-se, assim como com as grandes defesas de Vozinha, guarda-redes dos “Tubarões Azuis” cujo nome foi entoado várias vezes.

Nas bancadas amovíveis, quase ninguém ficou sentado. No final, a festa instalou-se de forma generalizada por todas as ruas, com música, muitos carros em cortejo, buzinas e música.

Mónica Andrade resumiu o dia em poucas palavras: “Não importa o resultado, estamos a vibrar com eles, muito orgulhosos”.

Cabo Verde está inserido no Grupo H do Mundial e vai enfrentar ainda as selecções do Uruguai, em 21 de Junho, em Miami, e da Arábia Saudita, em 26 de Junho, em Houston.

Vários murais pela cidade evocam esta campanha desportiva, enquanto nas varandas das casas, em lojas, bares e automóveis, as bandeiras nacionais multiplicaram-se nos últimos dias e prometem continuar firmes.

Também em Lisboa, milhares de cabo-verdianos em clima de euforia celebraram o inédito ponto obtido no jogo de estreia da selecção de futebol do país no Mundial2026. A vasta comunidade de adeptos de Cabo Verde existente em território luso, entre imigrantes cabo-verdianos e cidadãos de nacionalidade portuguesa com ascendência nesse país, juntou-se em massa na zona ribeirinha de Lisboa para assistir ao momento mais alto da história do futebol do arquipélago africano de língua oficial portuguesa, que travou a Espanha, campeã mundial em 2010 e forte candidata a conquistar a competição.

O embate que opôs os ‘Tubarões Azuis’ à selecção espanhola foi seguido com emoção por uma multidão que crescia no Terrapleno de Santos, à medida que o tempo de jogo ia passando e com muita superstição à mistura.

Junto aos ecrãs colocados na tenda VIP do espaço lisboeta, no qual se encontravam também ‘caras conhecidas’ como o antigo judoca olímpico português Nuno Delgado, cujas origens familiares são cabo-verdianas, várias mulheres de idade mais avançada ‘faziam figas’, cruzando os dedos e os braços.

A tentativa de enviar energias negativas aos jogadores de Espanha e frustrar as suas tentativas pareciam surtir efeito e a cada uma das (sete) defesas do guarda-redes Vozinha, o entusiasmo do público cabo-verdiano aumentava, para um final de verdadeira apoteose, com cânticos e uma multidão a saltar de alegria pelo histórico empate alcançado pelos comandados de Bubista, técnico nacional cabo-verdiano.

Neste ‘mar de tubarões azuis’ presente no espaço exterior lisboeta estavam a seleccionadora nacional cabo-verdiana feminina de futebol, Silvéria Nédio, e, não muito longe, Carlita Fernandes, futebolista de 22 anos que representou o Futebol Benfica na presente temporada e que, tal como os ‘heróis’ da variante masculina, que disputam o campeonato do mundo, está perto de, também ela, representar o seu país de origem.

“Poder também ser chamada para a selecção de Cabo Verde? Sem dúvida que representar Cabo Verde é um dos meus maiores sonhos. Trabalho todos os dias com muita dedicação e fé para merecer essa oportunidade e, se esse momento chegar, vou recebê-lo com muita gratidão e responsabilidade”, declarou a médio, que aspira um dia poder fazer história pela sua nação.

A paixão pelo futebol e a valorização da mulher são duas características que particularizam Cabo Verde, que dispõe de um Dia da Mulher nacional, celebrado em 27 de Março, além do dia dedicado ao género feminino em todo o mundo, universalmente celebrado no dia 08 do mesmo mês.

Sandy Lopes, luso cabo-verdiana nascida em Neuilly-sur-Seine, França, e radicada desde criança no município de Loures, nos arredores de Lisboa, é uma de milhões de mulheres cabo-verdianas e não escondeu o seu “orgulho”. “Enquanto cabo-verdiana, o que mais sinto é orgulho por ver Cabo Verde a participar pela primeira vez num Mundial. Somos um povo muito humilde e trabalhador, com muito orgulho na sua caminhada”, salientou.

A enfermeira de 36 anos recorda que o apuramento para o Mundial2026 e a igualdade conquistada perante Espanha, representa mais um passo no percurso dos ‘Tubarões Azuis’, iniciado em 2023, ano em que disputaram a Taça das Nações Africanas (CAN), na qual alcançaram os quartos de final.

“Ver Cabo Verde conseguir finalmente ter o fruto do seu grande e forte trabalho, é tão-só espectacular. Já o fez muito bem na CAN e isto, agora, é o culminar de um trabalho muito que está agora a ter os seus frutos”, salientou a apoiante cabo-verdiana.

 

PR e PM indigitado felicitam ‘Tubarões Azuis’ pela surpresa

O Presidente de Cabo Verde felicitou a selecção cabo-verdiana de futebol pelo surpreendente empate frente à Espanha (0-0), na estreia em Mundiais de futebol, na segunda-feira, nos EUA. “Parabéns por uma estreia que surpreendeu o mundo”, escreveu José Maria Neves, na sua página oficial na rede social Facebook, na qual partilhou fotos suas no estádio, onde assistiu ao jogo e cumprimentou adeptos. Após o histórico jogo da selecção cabo-verdiana, o chefe de Estado foi saudar os jogadores ao balneário. “Estamos a fazer história, todos os dias”, acrescentou José Maria Neves. O Primeiro-Ministro indigitado Francisco Carvalho, que deverá ser empossado na sexta-feira, também deu os parabéns aos ‘Tubarões Azuis’, com uma foto de uma das defesas do guarda-redes Vozinha, que segurou todos os remates espanhóis. Segundo Francisco Carvalho, a estreia no Mundial2026 “foi uma grande metáfora” daquilo que é o país africano: “um povo determinado, que não desiste, que luta, que avança e que enfrenta os desafios com alegria”. “Parabéns aos nossos heróis, que mostraram ao mundo que Cabo Verde, apesar da sua pequena dimensão geográfica, é gigante na garra e na humanidade. Parabéns aos nossos Tubarões Azuis”, escreveu.

 

JTM com Lusa, incluindo Luís Fonseca na cidade da Praia