De propostas sexuais ao isolamento social e uso ilícito de esteróides, surge a feia verdade dos concursos de beleza, para homens e mulheres nas Filipinas, onde proliferou uma onda de concursos de beleza, depois de representantes do país terem conquistado nove coroas internacionais
Janina San Miguel tinha 17 anos quando ganhou uma das coroas de beleza mais procuradas das Filipinas e estava preparada para representar o seu país no concurso Miss Mundo 2008. Mas, três meses antes do concurso internacional, a vencedora do concurso “Binibining Pilipinas” chocou os fãs quando devolveu a coroa e virou as costas ao glamour e à fama.
“Se tivesse a hipótese de voltar ao passado, nunca teria entrado no concurso”, disse a ex-rainha da beleza.
Naquela época, Janina alegou razões pessoais para desistir da coroa, incluindo a morte do avô.
Contudo, numa recente entrevista a um programa televisivo, quebrou o silêncio assumindo que a renúncia ao título se ficou a dever à sua experiência com propostas sexuais, isolamento social e aos rígidos controlos impostos pelos organizadores do concurso.
“Recebi muitas (ofertas). Chegaram a oferecer-me um contrato de três milhões de pesos (quase meio milhão de patacas) por uma noite”, lembrou adiantando que, também, “alguém me ofereceu 25 milhões de pesos (mais de quatro milhões de patacas) para ser sua namorada.
É assim que o lado sombrio da pompa funciona. Há muitas pessoas que querem que uma rainha da beleza seja a sua namorada ou esposa.
As Filipinas são um país obcecado por concursos de beleza. Na última década, conquistou nove coroas internacionais, o que provocou um aumento nos concursos de beleza e nas promessas de concurso.
Mas, à medida que mais mulheres – e homens – disputam atenção num espaço cada vez mais ocupado, esses concursos também se tornaram campos de caça férteis para predadores sexuais.
“Necessidade de heróis”
Em todo o país, surgiram concursos de beleza locais; agora cada vila, cidade e província tem a sua própria rainha da beleza. Mas, ao contrário dos países em que as rainhas da beleza são apenas “vencedoras de um programa de televisão”, nas Filipinas, elas são “tratadas como o presidente de um país”, disse Jose Wendell Capili, da Faculdade de Artes e Letras da Universidade das Filipinas-Diliman.
As vencedoras nas competições internacionais conhecem o Chefe de Estado filipino e são celebradas como heroínas porque as suas vitórias “fazem as pessoas perceberem que alguém que vem de uma área remota nas Filipinas provavelmente pode ter a hipótese de ser bem sucedida no resto do mundo”.
“É o mais próximo que podemos chegar da realeza”, acrescentou o professor, frisando que “neste país, precisamos urgentemente de heróis”.
Mercedes Pair, modelo filipina de origem chinesa, sabe muito bem que ganhar um concurso pode lançá-la como uma celebridade nas Filipinas, onde os acordos de publicidade podem chegar a milhões.
A jovem aspira a ser rainha da beleza, em parte porque a sua mãe está a enfrentar uma doença renal crónica em Hong Kong. O dinheiro da conquista de uma coroa e os acordos de patrocínio poderiam ser pagos com as contas médicas.
Por isso, deixou a carreira de modelo e a família em Hong Kong para participar do concurso “Binibining Pilipinas” em Manila – um evento que produziu todas as quatro vencedoras da Miss Universo.
“Sou o único ganha-pão em casa. Então pensei como podia ganhar muito dinheiro num curto período de tempo”, disse, reconhecendo que “se não fosse pela minha mãe, acho que não estaria tão motivada”.
Milhares inscrevem-se para este concurso, mas apenas 40 jovens são seleccionadas para a próxima fase, onde são escolhidas cinco vencedoras e cada uma delas recebe um valor aproximado de 1,5 milhão de pesos (cerca de 150 mil patacas) e a honra de representar as Filipinas em cinco concursos internacionais.
O caminho para a coroa, no entanto, não é barato. Algumas jovens aparecem com orçamentos de 500.000 a 700.000 pesos (entre 81.000 e 113.000 patacas).
“O orçamento depende de quanto se arranja ou de quem está a patrociná-la, mas entrar num concurso não é gratuito”, disse Pair, reconhecendo que “há um equívoco: ficamos encantados porque temos muitos patrocinadores (e) tudo é pago”.
Determinada como está, mas sem grandes rendimentos diz que está a esgotar todas as economias, apenas para permanecer em jogo.
Patrocinadores predatórios
Claro que face às dependências que se criam, algumas dessas mulheres enfrentam o risco de avanços indesejados por parte de patrocinadores predadores, que geralmente são pessoas poderosas.
William, que trabalha como repórter de concursos há 15 anos, viu um incidente em que o organizador do concurso pediu às participantes que se sentassem com convidados que pagaram bilhetes para participar num evento e que estavam a beber.
Algumas jovens pediram ajuda aos jornalistas, mas eles foram “aconselhados a não interferir”.
“Queríamos ajudá-las”, disse William, que se recusou a ser identificado. “A verdade é que ninguém diz nada, porque todas vivem com medo”.
“Esses patrocinadores são pessoas ricas … Se as concorrentes se manifestarem contra eles, acabarão com os patrocínios e assim está criada uma situação em que elas preferem manter-se caladas”.
Escândalo em 2018
Em 2018, o concurso Miss Terra, em Manila, alcançou as manchetes do mundo quando três concorrentes levantaram acusações de assédio sexual e propostas indecentes contra um dos patrocinadores.
Jaime VandenBerg, que representou o Canadá, disse que foi assediada por um patrocinador que lhe telefonava quase todos os dias ou aparecia a procurá-la. “Ele insistia: ‘Onde quer se encontrar? Eu posso ir ao seu hotel ou você pode ir ao meu hotel. Eu posso mostrar como se ganha”, recordou.
“Ficou muito claro que ele estava à procura de favores sexuais em troca de avanços no concurso e senti que não poderia fugir”, contou.
Tentou deixar as Filipinas, mas os organizadores mantinham o seu passaporte. Só lho devolveram quando ela ameaçou entrar em contacto com a Embaixada do seu país, para obter ajuda.
“Foi então a minha primeira oportunidade de sair”, disse VandenBerg, que escreveu no Instagram após o concurso que o deixou porque “não se sentia protegida”.
Quando a rainha da beleza Janina estava a treinar para o concurso Miss Mundo, ela não estava preparada para o isolamento imposto e os rígidos controlos dos organizadores.
Durante três meses, esteve retida num teatro sem permissão de aceder a um telefone, computador ou qualquer outro dispositivo que lhe permitisse qualquer contacto com o mundo exterior, incluindo os seus familiares.
Os organizadores nem lhe queriam contar sobre seu avô. “Estavam a planear não me dizer que ele estava a morrer porque não queriam que me distraísse no meio do treino.
Homens também
Não são apenas as mulheres que são assediadas em concursos de beleza; isso também acontece no mundo dos concursos masculinos.
Embora os concursos femininos estabelecidos nas Filipinas sejam geralmente geridos por organizações respeitáveis e até governos locais, não é o mesmo para concursos masculinos, muitos dos quais realizados em boates em “bairros vermelhos”.
Vencer essas competições tem um preço. Um competidor que acumulou muitos títulos durante oito anos em concursos admitiu que conseguiu a maior parte dessas vitórias fazendo sexo com os juízes.
“Para mim, não existem concursos ‘limpos… contratam o seu corpo”, disse o jovem de 25 anos, que queria ser conhecido como “Gerald”. “Dos 10 concursos, apenas dois ou três foram limpos”.
Descreveu que para ganhar um concurso precisa ser “reservado”. “Um homem só precisa de lidar com aquele momento para poder vencer”, frisou, acrescentando que “ninguém quer que toda a sua preparação e todas as suas despesas vão por água abaixo. Então escolhe dormir com os juízes”.
Assim como os concursos femininos, competir em eventos masculinos é um assunto caro; os custos podem subir para 100.000 pesos por mês (16 mil patacas), mesmo em concursos menores.
Concorrentes como “Mike”, que se recusou a dar o seu nome verdadeiro, não podem arcar com esses custos, tornando-se essencial atrair patrocinadores. Mas todos eles querem algo em troca.
Em troca de fotos e companhia online, Mike recebe 10.000 pesos por dia (pouca mais de 1.500 patacas) dos seus patrocinadores – 10 vezes o que normalmente ganharia como trabalhador num escritório.
“Normalmente, envio fotos de meio corpo ou fotos quando estou a competir em concursos, mas eles preferem fotos em topless”, disse, justificando que “é como ter um namorado; querem alguém com quem conversar”.
Os competidores do sexo masculino também precisam de ter o corpo perfeito e alguns injectam esteróides ilegais para melhorar o desempenho, que custam milhares de dólares por mês.
“Quando está a tentar aumentar, é muito caro”, disse Gerald. “Você pode comprar um carro ou uma casa se somar as despesas feitas anualmente em espectáculos, porque ir ao ginásio ou fazer dieta não dá o corpo que você precisa para os concursos”.
A especialista em medicina de reabilitação Iris Carpio, do Hospital e Centro Médico de South City, tem crescentes preocupações com o abuso de esteróides, pois provocam insuficiência hepática e renal.
PROPOSTAS INDECENTES
Não obstante a complicada relação entre patrocinadores e concorrentes, os concursos não precisam ser decadentes, disse Mark Dela Cruz, que organiza concursos para homens e mulheres.
Ele reconheceu que existem indivíduos “que têm uma agenda oculta” quando patrocinam concursos ou concorrentes, ou seja, para garantir encontros. Por isso, examina cuidadosamente todos os patrocinadores para garantir a segurança dos concorrentes, e também os previne que não precisam de ter contactos com nenhum patrocinador.
“Se queremos que os concursos permaneçam limpos, essa responsabilidade recai sobre o organizador”, disse, adiantando que “ao reduzir o que os candidatos precisam gastar, estarão mais livres e menos inclinados a ter contactos com os patrocinadores”.
Por fim, em face de tanta glória, muitas rainhas da beleza “são populares apenas por dois a três anos e depois são esquecidas”, disse Capili, que acha que “tem de haver uma espécie de reinvenção, porque não há benefício em ter muitos concursos”.
Para Janina, a coroa “não significava nada”. Ela reconheceu a experiência adquirida ao ingressar e vencer um concurso de beleza, mas “o mundo do show business estava muito complicado, com muitas propostas indecentes”.
“Quando tentei encontrar um emprego convencional, tentei colocar a minha experiência como detentora de título”, contou. “Mas, a minha tia disse-me: “Exclua isso do seu currículo porque isso não a vai ajudar. As pessoas podem pensar diferente de si”, comentou, reconhecendo o bom conselho da tia.
JTM com agências internacionais



