The opening meeting of the third session of the 14th National People's Congress NPC is held at the Great Hall of the People in Beijing, capital of China, March 5, 2025. (Photo by Ding Haitao/Xinhua via Getty Images)
The opening meeting of the third session of the 14th National People's Congress NPC is held at the Great Hall of the People in Beijing, capital of China, March 5, 2025. (Photo by Ding Haitao/Xinhua via Getty Images)

Quando o encontro político anual da China começar hoje, poucos esperam surpresas políticas que chamem a atenção dos media. Em vez disso, observadores da China e investidores esperam que Pequim projecte estabilidade, com um possível ajustamento moderado na meta de crescimento, apoio fiscal direccionado e um tom diplomático controlado antes da visita do Presidente dos EUA, Donald Trump. Milhares de delegados de todo o país estão em Pequim para sessões paralelas da Assembleia Nacional Popular (ANP), ou Parlamento, e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, órgão consultivo composto por especialistas, líderes empresariais, celebridades e representantes de partidos políticos que não o Partido Comunista, no poder.

Após anos de turbulência no mercado imobiliário e pressões deflacionistas, a questão central no Lianghui, ou “Duas Sessões”, é se Pequim conseguirá manter o crescimento em “cerca de 5%” – meta dos últimos três anos – sem recorrer a estímulos significativamente mais robustos. Com dois terços das províncias chinesas a reduzirem os seus próprios objectivos, muitos economistas esperam que o PM Li Qiang baixe a meta nacional do PIB para um intervalo de 4,5% a 5% quando a ANP iniciar amanhã os seus trabalhos. Das 31 províncias, 21 baixaram as metas de crescimento em comparação com 2025, quer reduzindo o valor numérico da meta, quer alterando a definição de “acima” de determinada taxa para “em torno”. A redução da meta do PIB permitiria aos decisores políticos uma maior flexibilidade no meio dos desafios demográficos, do consumo desigual e da incerteza geopolítica, incluindo o aumento das tensões no Médio Oriente após o ataque dos EUA e Israel ao Irão, pensam analistas.

Para Larry Hu, economista-chefe para a China do Macquarie Group, uma meta mais baixa não sinaliza necessariamente uma vontade de tolerar um crescimento mais lento. Historicamente, os decisores políticos chineses calibram as suas ferramentas para atingir – mas não para falhar ou exceder significativamente – a meta principal. “Para a maioria dos investidores, a diferença entre 4,7% e 5% é pequena. O que realmente importa não é o crescimento nominal, mas de onde vem, se da procura externa ou interna”, disse Hu. Se as exportações se mantiverem fortes, Pequim poderá tolerar um consumo interno fraco, afirmou. “Por outro lado, se as exportações vacilarem, poderão intensificar os estímulos internos para defender a meta do PIB”.

Nos últimos anos, as exportações têm sido o ponto forte da economia chinesa, compensando a fraca procura interna. Mas os economistas há muito que alertam que depender da procura externa e da capacidade ociosa industrial não é sustentável, sobretudo devido ao aumento das fricções comerciais. Yu Song, economista-chefe para a China da UBS Securities, considera que o limite inferior de uma meta de crescimento não deve ser interpretado como uma satisfação com um crescimento de 4,5%. No passado, as metas de cerca de 5% eram tratadas como pavimentos, e não como tectos, observou.

As reuniões de 2026 marcam o início do 15º Plano Quinquenal, que deverá definir prioridades em desenvolvimento económico, tecnologia e inovação, bem-estar da população, transição verde e segurança social para o período de 2026 a 2030. O novo plano chega num momento crucial. A China enfrenta um crescimento estrutural mais lento, a rivalidade tecnológica com os EUA e crescentes pressões internas resultantes do envelhecimento da população e do desemprego jovem. O Presidente Xi Jinping frisou que o 15º Plano Quinquenal desempenhará um “importante papel de ponte” entre o 20º Congresso do Partido, em 2022, e o seu objectivo de “concretizar a modernização socialista” até 2035. Os analistas esperam que a ênfase se mantenha firmemente na modernização industrial, na auto-suficiência tecnológica e na construção daquilo a que as autoridades chamam um “mercado interno forte”.

Neil Thomas, investigador de política chinesa no Centro de Análise da China do Asia Society Policy Institute, entende que a principal mudança do 15º Plano Quinquenal é a institucionalização mais profunda de um modelo de crescimento orientado pelo Estado, que prioriza a liderança tecnológica e a auto-suficiência industrial. Um ponto crucial a salientar é se Pequim conseguirá impulsionar significativamente o consumo, mantendo ao mesmo tempo a priorização da auto-suficiência industrial, referiu. “O sinal mais claro será se forem introduzidas novas metas vinculativas e recursos fiscais para aumentar o rendimento das famílias, os serviços e o consumo em percentagem do PIB”, disse Thomas. Na última Conferência Central de Trabalho Económico da China, em Dezembro, os líderes prometeram “uma política orçamental mais pró-activa” e uma “política monetária moderadamente frouxa”, e enfatizaram a necessidade de estabilizar o emprego, as empresas e os mercados para garantir um arranque forte para o novo ciclo de cinco anos.

Para além das metas económicas, quaisquer sinais de política externa que surjam das reuniões, particularmente na conferência de imprensa anual do ministro dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, serão analisados ​​minuciosamente em busca de pistas sobre a forma como Pequim pretende gerir os laços com os EUA e com os vizinhos regionais, como o Japão. Com a expectativa de que Trump visite a China no final de Março, embora Pequim ainda não tenha confirmado a viagem, muitos antecipam um tom moderado, enfatizando a estabilidade e a abertura ao comércio. “Mas, podemos esperar as habituais críticas veladas às políticas americanas, como os jogos de poder, a hegemonia, o proteccionismo e o posicionamento da China como um país mais responsável”, notou Helena Legarda, responsável pelo programa de relações exteriores do think tank MERICS, com sede em Berlim.

As “Duas Sessões” decorrem no meio da demissão de nove oficiais militares, o que reforça a ideia de que a campanha anti-corrupção do presidente Xi no Exército Popular de Libertação continua activa, mas é improvável que sinalizem grandes mudanças nas prioridades de defesa, uma vez que anúncios significativos de pessoal são incomuns no encontro anual. Yu Song, do UBS, afirmou que os sinais mais importantes nas “Duas Sessões” não residem nas metas e na retórica, mas sim nos comentários da alta direcção em discussões em pequenos grupos após a apresentação do relatório de trabalho do governo. “O conteúdo destes comentários verbais é muitas vezes inédito e revela o foco daquele momento”, disse.

 

JTM com agências internacionais