Jorge A. H. Rangel *

Jorge A. H. Rangel *

“Xangai, a quarta maior cidade do mundo, rende-se aos comunistas no dia 1 de Maio de 1949.”

 

É abundante e de muito boa qualidade a literatura existente sobre Xangai, sobretudo em inglês. Em português, porém, não são muitos os trabalhos acessíveis, sobre a cidade na primeira metade do século XX. É, por isso, de saudar a síntese histórica que o jornalista João Guedes nos ofereceu, a propósito dos sete anos vividos pelo Pe. Brianza em Xangai, no seu livro “César Brianza – a missão, o coro e o sonho da China” (IIM, Dezembro de 2016).

 

A evolução na década de 1940

 

Na sequência das transcrições anteriormente feitas, vejamos como a situação evoluiu na década de 1940 naquela grande urbe portuária, cujo modelo e forma de funcionamento se aproximava rapidamente do fim:

 

“Os guetos e campos de concentração, entre os quais avultavam o que mantinha detidos cerca de 23 mil refugiados judeus e o ‘centro de reunião de civis’ (Civil Assembly Center) com mais de seis mil europeus enclausuravam em condições de difícil sobrevivência a parte da comunidade expatriada que não tinha conseguido fugir de Xangai, e que anteriormente mantinha nos mais diversos sectores, comerciais, industriais, artísticos e culturais, a vida frenética da cidade e que agora apenas existia nos limites da sobrevivência.

 

Nas ruas, antes repletas de tráfego, salientavam-se agora mais do que ninguém as patrulhas e as sentinelas japonesas. Contra estas moviam-se nas sombras os grupos da resistência comunistas e as tríades nacionalistas levando a cabo campanhas sistemáticas de assassinatos.

 

Nesse quadro, os cruzamentos de ruas e avenidas eriçavam-se de barricadas de arame farpado, enquanto as guaritas das sentinelas eram reforçadas com chapas de aço. A cada assassinato os japoneses respondiam mandando evacuar bairros inteiros a meio da noite, expondo os moradores à humilhação de passarem horas ao relento apenas de roupa interior.

 

Essas rusgas de grandes dimensões que levavam ao encerramento de quarteirões inteiros acabavam por não resultar em nada, já que os atiradores furtivos facilmente escapavam misturados com a população, pelos dédalos de becos e vielas que se escondiam à sombra das traseiras dos grandes edifícios do centro da cidade. Foi nestas ruas que César Brianza se moveu no seu quotidiano de estudante durante sete longos e trágicos anos, tropeçando a cada passo com cadáveres abandonados nas ruas, ou interpelado pelas patrulhas japonesas.

 

Concluída a graduação em Teologia, César Brianza é ordenado padre no dia 29 de Janeiro de 1944. Este acto solene que deveria ser festivo também esteve longe de o ser. A sua ordenação ficaria indelevelmente marcada pelo início dos raides aéreos americanos contra Xangai. Os japoneses da ofensiva passavam à defensiva e estavam a ser acossados do lado do mar pelos bombardeiros dos porta-aviões da esquadra americana do Pacífico e por terra pelas tropas nacionalistas do generalíssimo Chiang Kai Chek.

 

César Brianza exultou naturalmente com a libertação e mais ainda com o regresso da administração de Xangai a mãos chinesas. As potências vencedoras tinham de facto posto termo à administração internacional da cidade e fim ao colonialismo partilhado que ali vigorava desde a sua fundação em 1842.”

 

Da esperança ao desespero

 

Apesar de todas estas vicissitudes, muitos eram os que mantinham teimosamente a esperança em dias melhores:

 

“A nova situação atenuava igualmente as patentes desigualdades sociais e políticas e as injustiças que geravam. O novo ambiente parecia propício a um recomeço mais são e também a restaurar a paz entre a juventude de que César Brianza se encarregava agora como professor no seminário menor de Xangai.

 

No entanto nada disso se viria a verificar. Ainda que os Salesianos passassem a poder actuar mais livremente, recuperando as escolas comerciais e industriais e os orfanatos que tinham a cargo, a administração nacionalista que sucedeu à ocupação nipónica rapidamente perdeu a confiança dos munícipes e da Igreja Católica.

 

No decurso da reocupação de Xangai pelo Kuomintang a desordem e a corrupção caracterizavam a administração pública. Oficiais das mais diversas procedências e escalões, e até comerciantes e criminosos de delito comum apoiados por nacionais das antigas potências colonizadoras prosseguiam as mais díspares agendas que desafiavam toda e qualquer racionalidade.

 

A situação agravou-se de tal modo que foi o próprio presidente do parlamento nacional T. V. Soong que teve de assumir a administração do município. Porém a sua intervenção não chegou para reparar os danos causados ao prestígio do governo nacionalista do Kuomintang factor que contribuiu também para a fácil tomada do poder político na cidade mais tarde pelos comunistas.

 

Apesar de tudo César Brianza e os Salesianos mantinham-se cheios de fé no futuro de Xangai e de esperança quanto à expansão da sua obra não só na imensa metrópole, mas em toda a vizinha região Norte que Xangai influenciava. Todavia a realidade estava longe de indiciar qualquer futuro para os salesianos.

 

De facto para a maior parte da população os missionários eram vistos na generalidade como aliados do partido nacionalista o que era aproveitado pelos comités de agitação e propaganda comunistas para denunciar a Igreja Católica como um dos braços do imperialismo ocidental e cúmplices dos desmandos e corrupção que afectavam o país. Por outro lado ainda que os padres pouco ou nada tivessem a ver com a situação catastrófica que se vivia na China e a sua acção filantrópica fosse reconhecida mesmo pelos não católicos e até por comunistas que os salesianos tinham auxiliado em diversas circunstâncias, certo é que a presença da Igreja católica não era vista como humanitária ou exclusivamente espiritual mas sim como uma questão política.

 

O futuro da Igreja encaminhava-se para um desfecho dramático à medida que os grupos guerrilheiros de Mao Tsé Tung por todo o país se iam integrando num exército regular e disciplinado e iniciavam uma movimentação das suas bases tradicionais de apoio nos campos com o objectivo de cercar as cidades que começavam a cair uma a uma.

 

Xangai a quarta maior cidade do Mundo rende-se aos comunistas no dia 1 de Maio de 1949. A partir desta data sela-se também o destino de César Brianza. O sonho chinês da sua infância terminava para todos os efeitos naquele dia. A sua Ordem chamava-o a servir em Hong Kong e Macau.

 

O ainda recém-ordenado padre sai da China num momento em que a ordem de expulsão dos missionários da China ainda não tinha sido dada. Pouco tempo depois o Partido Comunista decretaria a erradicação das missões estrangeiras de todo o país. Muitos recusam-se a acatar a ordem e permaneceram firmes nos seus postos mas apenas para se verem presos, encarcerados, submetidos a julgamentos sumários por tribunais populares, fuzilados, ou condenados a longas penas de prisão.”

 

César Brianza acabaria por reencontrar em Macau amplos motivos para renovar os seus entusiasmos, ao serviço da juventude e da Igreja, realizando aqui uma obra extraordinária, como educador e músico.

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.