Albano Martins*

Albano Martins*

1. Ouvi que os trabalhadores da função pública iriam ser aumentados em 2018 em cerca de 2,4 pontos percentuais.

Admitindo que a inflação se fixe este ano mais ou menos a meio do intervalo entre 1,08 e 1,17 por cento, ou para ser mais preciso em 1,12 por cento, os salários dos trabalhadores da função pública terão perdido ao longo da RAEM cerca de 5,73 pontos percentuais!

O Governo pretende aumentar 2,4 por cento em 2018, ano em que o FMI, aquela malta que diz muitas asneiras mas são os únicos citados por alguma imprensa, prevê uma inflação de 2,2 pontos percentuais.

Grão a grão, os funcionários públicos vão ficando em casa.
Lá mais para 2020, provavelmente ficarão com o salário real de 1999!

Alegrem-se que na privada isso é bem pior.

A propósito do FMI, fica para a história que essa prestigiada instituição previu uma inflação para Macau de 2 por cento em 2017!

Ora, feitas bem as continhas, claro com o indicador de inflação cor-de-rosa da DSEC, a inflação em Macau ficará em quase metade desse valor!

Curiosamente, com as rendas sempre a caírem, com uma variação média nos últimos doze meses acima de -2 por cento, quando os preços da habitação continuam a trepar a dois dígitos!

Quando lá mais para o final do mês forem revelados os dados da nossa inflação em Outubro, teremos valores oficiais entre 1,13 e 1,15 pontos percentuais!

Muito longe dos 2 pontos percentuais do FMI!

Conclusão, em previsão, o FMI  deve estar a aprender com os SMG ou com a nossa universidade local.

 

2. O Tufão Hato caiu por cima de nós com aviso precário.

Daí o Director dos nossos Serviços Meteorológicos ter ficado na corda bamba.

Macau sempre foi assim.

Nunca, que eu me lembre, depois do tufão Ellen dos anos 80, tufão algum ousara bater-nos à porta com tanta violência, provocando tantas e elevadas perdas.

Foi preciso termos a casa arrombada para pormos as trancas à porta.

A culpa é do sistema e não necessariamente de uma única ou de várias pessoas ou sequer das hierarquias mais altas.

Mas apenas um vai ficar nos cornos do touro e muita gente fica satisfeita porque a raiva de muita gente se encaminha melhor se não for dispersa para muitos lados.

Foi lamentável e vamos ter de melhorar.

Lamentável foi ainda não ter sido anunciado o estado de calamidade e o governo financiado de imediato a fundo perdido as elevadas perdas locais.

Agora, mesmo sem que caia uma pinga de chuva, vêm os SMG afirmar quase diariamente para a população ter cuidado com as inundações no Porto Interior.

A qualidade dessas previsões é um pouco quase como a do FMI.

Joga-se à defesa, em vez de se jogar ao ataque.

Conclusão, ninguém vai querer continuar a ver esse jogo.

E quando se habituarem a ver que essas previsões não dão em nada vão estar-se nas tintas para essa história das inundações.

Até elas caírem de novo sobre Macau.

Nessa altura dirão os SMG que bem tinham avisado com “bastantes anos de antecedência”, aspas minhas!

Pelo menos de uma coisa se escapam eles: não vão ser acusados de não terem avisado!

 

3. Lionel Leong declarou, e com toda a ciência de matemático, que as receitas do jogo vão crescer este ano a dois dígitos.

Mas como se trata de um homem de parcas afirmações e para que não haja dúvidas algumas sobre a veracidade das suas previsões, tomo a liberdade de acrescentar alguma coisa.

Para que as receitas do jogo não subam a dois dígitos em 2017, seria preciso que as receitas de Novembro e Dezembro fossem em média mensal de apenas 12,76 mil milhões!

Fica provado que Lionel tinha razão!

 

4. Agora cuidado quando lerem a imprensa portuguesa.

Alguns jornalistas, ainda não habituados com o sistema anglo-saxónico que por cá aparece em todas as esquinas, confundem a vírgula com o ponto, quando escrevem em Português.

Convenhamos que referir num jornal Português 26,633 milhões como sendo as receitas num mês é muito pouca fruta para esta terra!

 

5. Mais um grupo de apoio surge agora sob a égide da Economia.

A malta esfrega as mãos de contente.

Daqui a um ou dois anos essa mesma malta, hoje feliz com mais essa benesse de quem tem um baú com quase 500 mil milhões de fruta arrecadada e a cheirar a bolor, vai mandá-los às urtigas, se a velocidade de trabalho desse grupo for a mesma que a do outro grupo de apoio aos websites das PME.

 

6. Essa história de que o reconhecimento mútuo das cartas de condução Macau-China, não vai trazer mais condutores a Macau não é um tiro no desconhecido.

É um tiro bem certeiro nas nossas poucas estradas!

Ou há uma quota à entrada de Macau ou o que a DSAT diz não se vai escrever!

Poderia diminuir o trânsito?

Não, que a malta de cá não vai fugir para a China por muito tempo!

Então, virão menos chineses do Continente para Macau também?

Não me parece.

Conclusão, tudo leva a crer que mais continentais nos vão bater à porta, até porque ter carro é sinal de riqueza, e isso faz parte daquilo que os economistas chamam de efeito-demonstração!

Uma demonstração profundamente materialista que  vai permitir aos nossos vizinhos virem a Macau encher o carro de compras, para evitar o IVA!

 

7. Discutem-se os novos órgãos municipais e alguns fervorosos constitucionalistas concluem que se os seus membros fossem eleitos isso violaria a Lei Básica!

Conclusão, qual será a diferença entre esses futuros Órgãos Municipais e o actual IACM?

Fruto proibido é o mais desejado.

 

8. A Direcção dos Serviços de Economia veio há dias reconhecer que os grandes problemas que as PME defrontam hoje têm a ver com rendas altas e falta de mão-de-obra.

Onde temos nós vindo a ouvir isso?

Rendas altas, não deve ser de certeza que os nossos ilustres deputados acharam até que não devia haver nenhum controlo à sua subida.

Mão-de-obra que falta, também não deve ser, que do outro lado da bancada, a plebe local, embora produzindo pouca filharada, acha que os empregos que a economia tem capacidade para criar devem ser reservados apenas para eles, caso percam algum dia os que hoje têm.

Conclusão, numa terra com muito capital, sem terra alguma e com nenhuma mão-de-obra disponível para trabalhar, mesmo nos piores empregos que não quer nem para ela nem para filipino algum, para onde vão evoluir os preços, se a nossa inflação traduzisse bem a evolução das variáveis dessa pequena economia?

Para cima, claro!

 

9. Finalmente, uma palavra aos apoios que o Governo pretende dar a quem empregar um residente com deficiência.

Admitindo que um residente com deficiência produza menos, no mesmo tempo de trabalho, que um trabalhador saudável (porque se produzisse o mesmo por que razão os empregadores deveriam ter um subsídio?), façamos então contas.

Se um trabalhador num determinado posto de trabalho ganhar qualquer coisa como seis mil patacas por mês, então quanto representa 5 mil patacas de subsidiação por ano por trabalhador deficiente? Qualquer coisa como 420 patacas por mês!

Ou seja, o Governo está disponível para pagar no máximo uma perda de produtividade equivalente a 420 patacas de produção perdida.

Ora, 420 patacas por mês para compensar um empregador por admitir um trabalhador deficiente, significará que o trabalhador deficiente terá capacidade para produzir cerca de 93 por cento do que produz um trabalhador normal!

Agora imaginemos que o salário que o trabalhador recebe é de 10 mil patacas. Essas 420 patacas significam que o Governo está a subsidiar um trabalhador com capacidade de produção de cerca de 96 por cento de um trabalhador normal!

Conclusão, preto no branco, o que o Governo está a dizer é que não financia quase nada e que devem ser os empresários a vestirem a camisola.

Claro, nesta terra onde tanta gente acha que o mercado deve ser selvagem, está-se mesmo a ver que os deficientes nunca na vida vão ser admitidos em sítio algum, sobretudo nos postos de trabalho com remunerações mais elevadas!

 

* Economista. Escreve neste espaço às sextas-feiras.