Roy Eric Xavier*

Roy Eric Xavier*

Lisbello de Jesus Xavier

As minhas pesquisas desvendam geralmente relatos das famílias Macaenses do século 19 que fizeram a transição de Macau para Hong Kong, e algumas que tiveram sucesso iniciando novos negócios na colónia britânica. Para isso, desprezaram muitas vezes uma aversão cultural ao comércio em Macau1.

Tal como na antiga Macau, a mesma evasão de negócios parece afligir hoje as principais associações Macaenses em Macau. Apesar dos reiterados pedidos de Pequim, muitos recusaram desenvolver projectos alinhados com a estratégia da China “Uma Faixa, Uma Rota” ou apresentar propostas que ajudem a diversificar a economia de Macau. A sua falta de compromisso levou a críticas na imprensa e indicações de que o governo chinês está a examinar os seus orçamentos2. Na conclusão, há mais sobre os efeitos dessas decisões.

A actual aversão aos negócios em Macau não parece ser partilhada por Macaenses noutras comunidades ao redor do mundo. Em Hong Kong, Portugal, Estados Unidos, Canadá e Austrália, uma nova geração começou a florescer numa economia global cada vez maior3. Existem também exemplos históricos de Macaenses com sucesso nos negócios, começando em Hong Kong na década de 1840.

Um deles envolveu um operador de linótipos educado no Seminário de São José chamado Delfino Noronha, que se mudou para Hong Kong e fundou uma grande empresa de impressão em 18444. Uma vez que Macau foi eclipsado por Hong Kong como porto comercial após a década de 1860, mais Macaenses começaram a atravessar o Delta do Rio das Pérolas para encontrar trabalho. Entre esses estava Lisbello Xavier, protegido de Noronha, que migrou em 1880 para fundar a “Hongkong Printing Press”5. Uma análise da história da imprensa oferece uma lição de desenvolvimento de negócios que hoje as associações Macaenses poderiam considerar.

 

As Origens de um Empreendedor

Lisbello de Jesus Xavier nasceu em Macau em 1862, na paróquia de São Lourenço, perto do bairro do Lilau, onde os imigrantes portugueses se estabeleceram no final do século 16. Os registos da Igreja indicam que esse ramo da família Xavier viveu em Macau desde cerca de 1780, enquanto os membros da família sugerem que, provavelmente, os seus antepassados ​​ migraram de Goa.

Como Noronha, Lisbello Xavier foi educado no Seminário de São José, estabelecido em 1784 e localizado perto da sua paróquia. Durante um período de oportunidades decrescentes, o currículo de São José incluiu formação em línguas e artes mecânicas, que envolveu a impressão tipográfica. Lisbello Xavier e Delfino Noronha podem ter treinado numa máquina antiquada obtida em 1826 e aprendido como compositores de impressão em empresas de Macau, embora separados há vários anos. Quando Xavier chegou a Hong Kong, a Noronha & Co. já estava estabelecida como uma das empresas de impressão mais bem-sucedidas da colónia.

A Noronha & Co. foi uma das primeiras empresas com proprietários Macaenses em Hong Kong e cresceu por causa de um contrato em 1847 para imprimir o “The Hongkong Almanack” para a Secretaria. Ganhando uma competição com vários impressores britânicos e escoceses em 1859, Noronha assinou outro acordo para imprimir os avisos públicos do governo, incluindo o seu primeiro jornal, a “Gazeta do Governo de Hong Kong”. Uma edição em chinês foi adicionada em 1862. Em anos posteriores, Noronha comprou a “Celestial Empire Press”, de  Macaenses em Xangai, e colocou um dos seus filhos como gerente.

Lisbello Xavier trabalhou como compositor da Noronha & Co. entre 1880 e 1887. Em 1888, ao saber que o seu protegido queria abrir uma empresa própria, Noronha concedeu a Xavier um subcontrato para imprimir avisos do governo e o boletim por conta própria. Para financiar os equipamentos, Lisbello Xavier vendeu um clarinete por forma a comprar a sua primeira máquina de linótipos.

Xavier incorporou a nova “Hongkong Printing Press” a 1 de Junho de 1888. Teve a sorte de assumir a impressão dos avisos da colónia num momento em que os negócios estavam a crescer. Tal como Noronha, a imprensa de Xavier tornou-se a base da expansão da empresa. Além das impressões do governo, produziu guias turísticos para cidades portuárias onde se instalaram imigrantes Macaenses, incluindo Cantão, Xangai e Macau. A receita adicional de inúmeras reimpressões e da expansão para rótulos de produtos permitiu que a empresa florescesse. Para acompanhar a procura, o negócio mudou-se em 1905 para uma nova fábrica no N°3 da “Wydham Street”, no centro de Hong Kong.

Delfino Noronha

O sucesso de Lisbello Xavier levou a um convite para se juntar ao prestigiado Club Lusitano em 1903, que reflectiu o Hong Kong Jockey Club e outras associações “somente britânicas”. No mesmo ano, Lisbello disponibilizou financiamento e foi eleito o primeiro presidente do Clube de Recreio em Kowloon. O objectivo do Recreio era encorajar encontros informais através de competições de atletismo organizando ligas e construindo instalações recreativas para Macaenses que se mudaram para a região depois de ter sido anexada em 1860. Outros investidores já tinham feito a transição, incluindo Delfino Noronha, que possuía uma grande quinta em Kowloon e montou o primeiro serviço de ferry para o centro de Hong Kong na década de 1870.

Lisbello Xavier passou 21 anos a expandir os seus negócios, enquanto comprava propriedades nos Novos Territórios ao norte de Kowloon e envolvia familiares como parceiros. Após a sua morte, em 1909, o filho mais velho de Lisbello, Pedro d’Alcantara Xavier, assumiu a empresa. Os esforços de Pedro levaram a novas receitas desde os rótulos dos produtos às pomadas “Tiger Balm”, cigarros “Double Happiness” e impressão de notas de moedas para os governos de Macau, China e Japão na década de 1920.

 

Conclusão

Club de Recreio

Apesar das percepções actuais de que os Macaenses estão “não interessados ​​nos negócios”, este exemplo histórico sugere que havia poucos limites para o desenvolvimento do comércio Macaense, mesmo num ambiente “estrangeiro” como o colonial de Hong Kong6. Atendendo aos incentivos oferecidos hoje pelo IPIM e fundações locais apoiadas pelas receitas do jogo, o ambiente de negócios poderá ser ainda mais propício para novos projectos.

Então, permanece a questão para as associações Macaenses: Quando irão incorporar o desenvolvimento de negócios nos seus projectos? Se a cultura Macaense em Macau quer continuar a ser relevante, um meio para justificar o apoio de Pequim deve tornar-se uma prioridade. Essa é a realidade que enfrentam todos os Macaenses dentro e fora de Macau. A solução pode estar em projectos que se alinham com as estratégias comerciais da China, que sejam suficientemente flexíveis para responder aos propósitos culturais e comerciais, especialmente àqueles envolvendo jovens Macaenses em todo o mundo. O espaço está agora aberto a propostas.

Na próxima vez: Uma solução para a Macau Cultural e Comercial

 

NOTAS:

  1. A raiz deste problema pode ser a percepção do estatuto das classes do período colonial, que muitas vezes estavam em desacordo com o comércio conduzido por luso-asiáticos na Índia e no Sudeste Asiático. Para exemplos históricos, veja C.A. Montalto de Jesus, Histórico Macao, Hong Kong, 1902 e 1926, e C. Boxer, Fidalgos no Extremo Oriente, Oxford: Oxford University Press, 1968.
  2. O último é baseado em discussões com autoridades Chinesas e Macaenses no final de 2016 e início de 2017.
  3. Veja o meu artigo: “Profiles of the Macanese Diaspora”, http://www.macstudies.net/profiles-of-the-macanese-diaspora-the-next-generation/
  4. As informações relativas a Delfino Noronha são tiradas do livro de Stuart Braga: Making Impressions: A Portuguese Family in Macau and Hong Kong, 1700-1945, IIM, Macau, 2015.
  5. Informações sobre Lisbello de Jesus Xavier fazem parte de um estudo mais longo da Hongkong Printing Press que será publicado no futuro em FarEastCurrents.com. Os dados foram retirados de um manuscrito inédito de quatro partes escrito por Eduardo P. Xavier e Dr. Anita M. Xavier, cujas cópias foram fornecidas ao autor para inclusão neste e futuros artigos.
  6. Este sentimento que muitas vezes é repetido nas conversas entre Macaenses dentro e fora de Macau, claramente um ponto de vista limitado, dado o envolvimento profissional de seus filhos e netos em muitas empresas internacionais.

 

*Director do Projecto de Estudos Portugueses-Macaenses e professor visitante no “Institute for the Study of Societal Issues” na U.C. Berkeley.

 

Artigo traduzido do Inglês na sua totalidade. Para mais informações, ou a versão em Inglês deste artigo, visite www.fareastcurrents.com