Carlos Frota *

Carlos Frota *

O Secretário de Estado Rex Tillerson, no caso da Coreia do Norte, e o Secretário da Defesa James Mattis, quanto ao acordo nuclear com o Irão, encontram-se, sem o reconhecerem publicamente, de candeias às avessas com o big boss.

Um entende (foi óbvio para todos durante a sua recente viagem a Pequim) que a via do diálogo deve ser explorada com Pyongyang. E o outro declarou no Capitólio, como referirei ainda, que é do interesse dos Estados Unidos a sua permanência no quadro negocial acordado com o Irão.

Duas saídas próximas, prováveis, de peso, mesmo que os próprios neguem?

 

Sua Majestade no país dos Sputniks

Sua Majestade o Rei Salman foi visitar o país dos Sputniks. Não que a Arábia Saudita tenha decidido lançar-se na corrida espacial. Outros interesses, bem mais terrenos, motivaram a improvável viajem do velho monarca.

Vi-o descer do avião, frágil, de passo hesitante, apoiado à sua bengala e vestido, conforme a tradição, como um beduíno do deserto – que é o que se espera dum rei saudita.

Superficialmente, a visita nada tem de especial. Tratar-se-ia afinal e tão só da deslocação oficial de um chefe de Estado a um país estrangeiro, sendo portanto recebido, com todas as honras devidas ao seu cargo, pelo seu anfitrião.

Mas esta visita foi tudo menos comum. Atente-se desde logo na génese da Arábia Saudita moderna, sublinhando-se inevitavelmente a proximidade da família real saudita às potências ocidentais, primeiro à Grã-Bretanha e depois aos Estados Unidos.

No final do segundo conflito mundial, em 1945, ficou célebre o aperto de mão do Rei Abdulaziz com o presidente Franklin D. Roosevelt, no canal do Suez, a bordo do navio de guerra americano USS Quincy, selando-se aí um pacto que dura até hoje, e que poderá ser resumido na fórmula simples: petróleo por segurança.

Washington tem sido pois, nas últimas sete décadas, a chave do relacionamento estratégico do Reino com o resto do mundo. Primeiro produtor mundial de petróleo, Riade está naturalmente no centro da economia mundial, dada a importância fundamental do crude.

Mas no essencial, é com o poder militar americano, e com a diplomacia que o antecede, que os sauditas têm contado, para arbitrar a miríade de questões do seu relacionamento externo. Como acontece agora com a rixa contra o Qatar, que Trump tenta mediar…

Mas sobretudo a oposição ao arqui-inimigo, o Irão.

As duas teocracias do Islão, a sunita e a xiita, com Riade e Teerão como centros, estão há séculos numa luta sem quartel pelo domínio regional, mormente através de guerras indirectas, comanditadas a terceiros.

Sauditas e iranianos guerreiam-se… mas precisam de falar de vez em quando uns com os outros. No tempo do Xá Reza Pahlavi, os americanos, amigos de ambos, eram uma ponte mais. Mas que foi cortada, com a emergência do Ayatollah Khomeini e a sua República Islâmica.

 

Mas… Riade e Moscovo?

A História do relacionamento entre os dois países não é, pois, de molde a aproximá-los… excepto quando interesses objectivos convergem, confirmando o adágio, segundo o qual “os meus amigos estão onde estão os meus interesses”…

E a questão magna do preço do petróleo é causa comum, nomeadamente contra os “amigos americanos” (ponto de vista só saudita, claro) que, com o seu petróleo made in USA, vieram distorcer a política de preços altos do cartel dos grandes produtores.

Mas a chave explicativa da visita não está aí, nem nos contratos de milhões que reforçam a agenda política do encontro.

O que é mais significativo é o posicionamento respectivo de Riade e Moscovo, em campos opostos nos conflitos que assolam hoje o Médio Oriente e mormente na Síria, onde a jogada ocidental de destruir politicamente Assad não funcionou… e a sua ressurreição política deve-se claro a Putin e aos ayatollahs. Isto é, ao eixo que Moscovo teceu com Teerão.

É que, na sua estratégia de se redefinir uma nova relevância internacional, de que a guerra na Síria serviu de pretexto, a Rússia de Vladimir Putin foi procurar no Irão, sabiamente, a parceria regional que Washington não podia dar a este. E pelo seu papel relevante no teatro sírio, Moscovo tornou-se um interlocutor incontornável.

Entretanto, com o actual conflito diplomático a propósito da retirada dos EUA do acordo nuclear, firmado entre Teerão e a comunidade internacional, mais se evidencia a miopia estratégica de Trump, ao agravar o distanciamento entre a sua Administração e os iranianos.

Aqui, a pressão israelita joga contra os interesses de Washington a longo prazo. Não foi o próprio Secretário de Estado da Defesa James Mattis que declarou há dias no Capitólio que é do interesse dos Estados Unidos a sua permanência no quadro negocial acordado com o Irão – contrariando assim, frontalmente, a posição do presidente?

Depois de receber triunfalmente Donald Trump, não há muito tempo, e de lhe prodigalizar uma audiência de cinquenta líderes do mundo sunita, o Rei Salman faz agora esta visita histórica a Moscovo, o que nunca nenhum dos seus antecessores fez. Qual a razão afinal?

Foi acautelar os interesses sauditas, e da comunidade sunita em geral, num futuro quadro regional em que não será Washington que ditará a ultima palavra, mas Moscovo e Teerão.

Com a grave consequência, bem ao pé da porta, no que concerne a Riade, de o conflito no Iémen não poder ser ganho pelas forças xiitas… e portanto ter de haver ou vitória decisiva no terreno ou solução política em que Teerão tem entrar…

 

A questão catalã

Agora o braço de ferro do parlamento catalão fechado, o que não é, como se está a ver, o fim da história…

Educados na ilusão democrática, optimista, de que os conflitos nunca são obstáculos insuperáveis, mas oportunidades de diálogo e de negociação, vemos que não é assim, ou nem sempre é assim.

E a pergunta seguinte surge de imediato: então um Estado europeu, em pleno século XXI, não consegue gerir o relacionamento, sem rupturas, das diversas componentes da sua sociedade, de modo a que, por consenso, haja acomodação recíproca, num mesmo espaço plural?

Creio ter percebido esta surpresa em dois interlocutores opostos, para já irreconciliáveis, da questão catalã:

Primeiro, o próprio Rei Filipe VI, através do seu discurso, em que tal admiração é bem perceptível, lembrando aos catalães a sua representatividade nas instituições democráticas do Estado espanhol. E por isso exigindo “lealdade”…

O argumento parece não ter colhido, tendo a intervenção do Rei sido considerada irrelevante pelos destinatários.

E, segundo, a surpresa ingénua dos próprios catalães, gente pacífica que só foi ali votar, uns acompanhados até dos filhos pequenos, porque em democracia vota-se!

Esqueceram-se, ou não lhes foi recordado, que as coisas são um pouco mais complicadas, a bondade total dos princípios não é assim tão transparente… e lá estava a polícia, para dar a todos, de bastão, um curso acelerado de cidadania para gente madura.

O Rei espantou-se porque os mal-agradecidos catalães não gozam obedientemente dos direitos democráticos que lhes têm sido oferecidos pelas instituições do Estado.

Os catalães anónimos, ficaram surpreendidos (?) porque afinal a democracia de Madrid não é assim tão… democrática!
A história destas duas “surpresas em conflito” ainda não acabou, como se sabe.

 

* Primeiro Cônsul-Geral de Portugal em Macau. Docente da Universidade de S. José.