Jorge Silva*

Jorge Silva*

Vinte e cinco anos após a morte de Carlos Assumpção, o lançamento do livro da historiadora Celina Veiga de Oliveira relançou o debate e a justíssima homenagem ao antigo presidente da Assembleia Legislativa.

O dr. Carlos Assumpção foi uma daquelas raras personalidades maiores do que a dimensão de uma cidade ou território como Macau e que poderia ter existido em qualquer outro país, tal era o seu brilhantismo e inteligência.

O edifício político e legislativo de Macau teve a sua marca distinta e o espírito conservador que abraçou nunca o impediu de lançar ou estabelecer pontes como pessoas imbuídas de outras ideologias.

Foi a personalidade-chave de Macau durante décadas, independentemente, dos governadores, mesmo quando houve a guerra, na década de oitenta, entre o governador Almeida e Costa e Assumpção, que culminaria na dissolução da Assembleia Legislativa.

Almeida e Costa considerava que a AL não era suficientemente representativa e queria retirar poderes a Assumpção e à comunidade macaense e seus aliados na Assembleia.

Dissolvida a AL, o choque de personalidades agudizou-se e,  cumprida nova eleição, Carlos Assumpção voltou ao seu cargo que,  muito justamente, desempenhava – presidente da Assembleia Legislativa.

Ponte essencial entre a parte chinesa e a componente política da antiga metrópole, Assumpção era um homem do mundo, extremamente culto, elegantemente vestido e um defensor intransigente dos portugueses nascidos em Macau.

Era, afinal, um moderado, um ilustre português nascido no território e o seu desaparecimento deixou a comunidade macaense órfã, a poucos anos da transferência de administração e que falta ele fez na fase final do processo.

Tive a honra de ter efectuado a última entrevista-reportagem com o dr. Carlos Assumpção. E, ao mesmo tempo, fiquei muito triste por ter sido o último trabalho com ele pouco antes da sua morte.

Combinámos que as filmagens seriam no seu gabinete, na Assembleia Legislativa, e, a meu pedido, dentro da magnífica casa na Penha.

No início e, compreensivelmente, o dr. Assumpção mostrou-se renitente às filmagens em sua casa, mas consegui convencê-lo. Recebeu-nos com o seu estilo educado e discreto, deixou-nos fazer as imagens interiores e exteriores, tivemos, para além da entrevista, uma franca e longa conversa sobre algumas das nossas paixões,  como o futebol visto em Macau a altas horas da madrugada…

Foi um dos trabalhos jornalísticos de que mais me orgulho, perante uma personalidade enorme que a morte cedo nos roubou, quando ainda teria muito a dar a terra onde nasceu e que sempre amou.

Quando o conheci, uns dias após ter chegado a Macau, numa recepção no antigo Hotel Hyatt, ao final da tarde, Carlos Assumpção  entrou na sala cumprimentando, pessoalmente, os presentes e depois reparou em dois miúdos que ali se encontravam e novatos no território, dirigiu-se a eles e identificou-se apenas… Carlos Assumpção!

Era essa a sua dimensão. Mesmo trabalhando em jornais que não eram propriamente amigos do dr. Carlos Assumpção, nunca deixei de o admirar política e pessoalmente pela coragem das suas ideias e pela forma como as defendia, sempre de modo polido e fino trato.

Como comprovou ao abrir as portas de sua casa a mim e ao meu operador de câmara da TDM para a inesquecível entrevista-reportagem.

 

* Jornalista